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Esta época do ano, com o fim do ciclo das chuvas, as águas grandes da Amazônia começam o recuo. Olhando para o céu estrelado da Via-Láctea, com quem Bilac conversava e dizia ouvir estrelas, ocorre-me um episódio escrito com tinta indelével nasminhas memórias da infância.

Se alguma vez você já perdeu uma hora inútil (e são justamente essas as horas mais preciosas da vida) olhando um céu cheio de estrelas, compreenderá esta singular inclinação que sempre tive pela astronomia. Mas eu não via ciência nenhuma; apenas assombro. Nunca soube calcular órbitas, nem distinguir constelações com precisão. O que eu possuía era outra coisa: uma espécie de fascinação melancólica diante do céu incógnito.

Foi um pouco depois que descobri que os homens davam nomes às estrelas, calculavam suas distâncias, previam seus caminhos. Na infância eu não precisava de nomes. Bastava aquela imensidão suspensa sobre a pequena cidade amazônica onde nasci, como se Deus tivesse esquecido a luz acesa.

Na minha pequena cidade amazônica, apreciava-se mais o silêncio do que o movimento. À noite, o mundo diminuía. As casas fechavam as janelas, os cães desistiam de latir, os ruídos diminuíam até que restasse apenas o rumor invisível da noite. Então o céu crescia. Ou era eu que diminuía? Hoje as cidades modernas quase mataram a noite; naquele tempo, porém, a escuridão era a majestade.

Foi então que apareceu a notícia do cometa Halley. Curioso como certas palavras chegam antes das coisas. Durante dias o cometa existiu apenas na voz dos adultos. Estava nos jornais, no rádio, nas conversas das calçadas. Ainda não havia surgido no céu, mas já ocupava um lugar dentro de mim. E esse lugar chamava-se medo.

Digo que o cometa apareceu, embora talvez o verbo correto fosse anunciar-se. Durante semanas ele existiu mais nas conversas ruidosas do que no céu. Os jornais traziam notícias alarmadas; o rádio falava do astro com a solenidade reservada às tragédias e aos milagres. Havia os que o tratavam como maravilha científica e os que viam nele uma espécie de prenúncio celeste. Os idosos diziam: no fim dos tempos, coisas estranhas virão do céu, na exegese simples e possível das Escrituras.

As cidades pequenas possuem imaginação abundante. Em poucos dias o Halley já era culpado por presságios, doenças, mudanças do tempo, direção dos cardumes de peixes e até pelo possível fim do mundo.

Eu era menina e, como todas as crianças, acreditava simultaneamente em Deus, nos jornais e nas assombrações. Sentia medo do cometa. Um medo desses que irrompem bem no centro do peito e se espalham em ondas pelo corpo e vão morar atrás do coração.

Espere! Não era medo concreto, desses que obrigam alguém a fugir ou a fechar portas; era um temor confuso e visceral, embora eu ignorasse a palavra e provavelmente a desprezasse se a conhecesse. 

As pessoas falavam de presságios. Havia quem sorrisse diante da maravilha científica. Havia quem repetisse as antigas passagens das Escrituras cientes de que o céu escrevera de novo o destino dos homens. E havia eu, perdida entre a curiosidade e o susto, tentando compreender por que uma pedra iluminada podia inquietar tanto um coração pequeno.

Passei dias esperando por ele, com aquele misto de medo e curiosidade próprio da infância.

Mal a tarde dava lugar à noite e eu já estava ali, buscando o horizonte entre as árvores escuras. A profundidade particular do céu noturno nascia junto com a noite por dentro do rio, detrás da silhueta feminina da Serra da Escama. Não sei se era realmente assim ou se a infância possui uma maneira própria de aumentar todas as distâncias

As pessoas reuniam-se nas calçadas para comentar horários e previsões. Falava-se da cauda luminosa do Halley com a mesma intimidade com que se fala de um visitante ilustre prestes a chegar, mas com o receio respeitoso que sempre acompanhou os acontecimentos vindos do céu.

Devo acrescentar aqui a disputa entre a curiosidade pela passagem do cometa e um inimigo invencível da infância: o sono. A noite venceu a indiscreta luz do dia trazendo cantigas de ninar escritas na memória. Eu dormi.

Durante muito tempo achei que essa fosse apenas uma pequena tragédia infantil. Hoje desconfio de outra coisa. Suspeito que a vida seja feita exatamente desses desencontros. Enquanto esperamos os grandes acontecimentos, o corpo simplesmente cansa. Enquanto o universo atravessa milhões de quilômetros para nos visitar, fechamos os olhos por alguns instantes. E basta.

Naquela noite dizem que o Halley cruzou o céu.

Eu atravessei o sono pueril inexpugnável. Às vezes penso que fomos igualmente fiéis às nossas naturezas, o cometa e eu. Ele continuou sua órbita; eu continuei sendo uma criança.

Na manhã seguinte ouvi as histórias. Cada pessoa descrevia um céu diferente. Uns falavam de uma luz azulada. Outros juravam que havia uma cauda prateada dissolvendo a escuridão. Uma senhora dizia, quase emocionada, que jamais tinha visto tanta beleza.Eu, por não tê-lo visto, duvidava um pouco, mas não completamente.

Talvez o Halley tenha realmente passado. A memória, porém, possui um talento curioso: transforma ausências em lembranças tão convincentes quanto as presenças. Não sei qual das duas engana menos.

Escutei tudo sobre o cometa e compreendi, pela primeira vez, que um mesmo acontecimento nunca acontece da mesma maneira para duas pessoas. Penso agora que a realidade seja apenas aquilo que cada um consegue suportar enxergar. Descobri cedo que os homens discordam até do céu. Talvez por isso tenham criado tantas certezas.

Foi então que alguém disse:

“O Halley voltará daqui a setenta e seis anos.”

Setenta e seis anos! A frase caiu dentro de mim exatamente igual a uma pedra lançada na superfície calma de um rio fundo. Não fez barulho, nem permaneceu. Apenaspenetrou minha superfície e afundou.

Na infância, setenta e seis anos, mais que um número, eram uma impossibilidade.Pensei, sem formular claramente, se eu ainda existiria quando ele voltasse. E descobri, antes mesmo de compreender totalmente a palavra morte, que eu era passageira.

Essa talvez tenha sido a primeira vez em que senti o tempo. Não o tempo do relógio. Ooutro. O tempo que atravessa as pessoas enquanto elas acreditam estar apenas vivendo.

Nunca vi o Halley.

Essa ausência permaneceu comigo durante décadas. Certas perguntas são feitas apenas para sabermos que não exigem resposta. Há perdas que acabam no dia seguinte. Outras continuam respirando dentro de nós, quase imperceptíveis. São passagens breves de belos cometas.

Hoje ainda olho o céu. Não esperando o cometa, mas aquela menina que fui. Porque às vezes tenho a impressão de que ela continua ali, parada entre as árvores, olhando para cima com medo e encanto, sem saber que crescer consiste em descobrir que quase tudo o que realmente importa passa enquanto estamos distraídos.

Se o Halley voltar e eu já não estiver aqui, o céu permanece imenso e estrelas continuarão acesas, os rios continuarão respirando entre as cheias e as vazantes. Acho que é justamente isso que consola: entender que o universo nunca prometeu permanecer conosco. Somos nós que, por um instante breve e luminoso, temos o privilégio de estarcom ele.

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* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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