Publicado em: 18 de agosto de 2026
Glória Menezes morreu nesta terça-feira (18), aos 91 anos, em casa, no Rio de Janeiro. A assessoria da atriz confirmou a morte. A família ainda não divulgou informações sobre a causa e nem sobre velório e sepultamento.
A notícia chega sem dar tempo de o Brasil entender a perda de Laura Cardoso. Em menos de 24 horas, a dramaturgia brasileira perdeu as duas atrizes que ajudaram a montá-la desde a primeira década de televisão no país.
As trajetórias se tocavam em vários pontos. Laura e Glória eram filhas de imigrantes portugueses, passaram pelo teleteatro ao vivo da TV Tupi nos anos 1950 e 1960 e apareceram nos mesmos programas de antologia, entre eles o TV de Vanguarda e o TV de Comédia. Cada uma interpretou uma personagem de “Irmãos Coragem”, separadas por 25 anos. Glória foi a Lara da versão original, em 1970. Laura foi a matriarca Sinhana no remake de 1995. As duas receberam o Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra na televisão, Glória em 2004 e Laura em 2002, e as duas foram condecoradas com o Troféu Oscarito do Festival de Gramado, Glória em 2005 e Laura em 2023.
A última homenagem pública a Glória Menezes aconteceu seis dias antes de sua morte. Em 12 de agosto, os Estúdios Globo inauguraram a terceira etapa da Calçada da Fama, no Rio, e quem recebeu o troféu no lugar dela foi o filho, o ator Tarcísio Filho. “Dona Glória não está aqui porque sempre foi muito emotiva, muito emocionada. Estaria assoberbada aqui hoje”, justificou. A data marcava cinco anos da morte de Tarcísio Meira. Laura Cardoso teve o nome gravado na mesma calçada em outubro de 2025, na inauguração da primeira etapa.
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934, ela foi registrada como Nilcedes Soares de Magalhães, junção dos nomes dos pais, José Nilo e Mercedes. Aos seis anos mudou-se para São Paulo. Cursou a Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e fundou com colegas o grupo Jovens Independentes, onde deu os primeiros passos profissionais ao lado de Juca de Oliveira.
O nome artístico nasceu de um cálculo. “Eu tive que trocar. Resolvemos botar Glória, porque Glória é Glória em qualquer idioma. E Menezes, por causa das minhas raízes portuguesas e porque completa treze letras. Dá sorte”, contou ao projeto Memória Globo.
Em 1959 estreou na televisão como Eloá em “Um Lugar ao Sol”, da TV Tupi. No ano seguinte viveu a acusadora Abigail Williams em “As Feiticeiras de Salém” e levou o Prêmio APCA de revelação no teatro. Foi nos bastidores desse espetáculo que conheceu Tarcísio Meira, com quem se casou em 1962 e viveu junto por 59 anos.
Anselmo Duarte a viu em cena e a chamou para “O Pagador de Promessas”. O convite inicial era para o papel da prostituta Marli. Ela acabou como Rosa, mulher de Zé do Burro, depois que a atriz escalada para a personagem contraiu pneumonia. O filme estreou em Cannes em 1962, venceu a Palma de Ouro e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
A televisão brasileira mudou de forma em 1963, e ela estava no centro da mudança. Contratada pela TV Excelsior, protagonizou “2-5499 Ocupado” ao lado de Tarcísio, a primeira novela exibida diariamente no país e a que fixou o gancho no fim de cada capítulo. Ela era Emily, presidiária que trabalhava como telefonista e ligava por engano para o escritório de um advogado. Os dois se apaixonavam pela voz um do outro.
No fim de 1967 o casal foi para a TV Globo, onde estreou em “Sangue e Areia”. Vieram “Rosa Rebelde”, “O Homem que Deve Morrer”, “O Semideus” e “Cavalo de Aço”. O maior sucesso da fase foi “Irmãos Coragem”, de 1970, em que interpretou Lara, moça introspectiva que alternava três personalidades e se apaixonava por João Coragem.
Em “O Grito”, de Jorge Andrade, exibida em 1975, viveu uma ex-freira mãe de uma criança com deficiência intelectual, personagem bem mais velha que ela. A novela foi rejeitada pelo público na época e virou uma das lembranças mais fortes da própria atriz. Quatro anos depois fez Ana Preta em “Pai Herói”, mãe solteira de temperamento duro que a crítica considerou um de seus melhores trabalhos.
A comédia entrou na carreira nos anos 1980, com “Jogo da Vida”, “Guerra dos Sexos” e “Brega & Chique”, em que dividiu o protagonismo com Marília Pêra na história de duas mulheres casadas com o mesmo homem. Entre elas, o drama de “Corpo a Corpo”, de Gilberto Braga, na pele de uma enfermeira que se casa com o patriarca de uma família rica e esconde o próprio passado.
A primeira vilã veio aos 55 anos. Laurinha, de “Rainha da Sucata”, socialite apaixonada pelo enteado e rival de Maria do Carmo, dividiu a abertura da novela com Regina Duarte em créditos alternados. Dois anos depois, “Deus nos Acuda” lhe rendeu o Troféu Imprensa de melhor atriz. Seguiram-se “A Próxima Vítima”, “Vira Lata” e “Torre de Babel”, esta de novo ao lado de Tarcísio.
Os palcos ocuparam a década seguinte. Em 2000 raspou a cabeça para viver uma professora com câncer terminal em “Jornada de um Poema”, trabalho que lhe deu a primeira indicação ao Prêmio Shell e o primeiro de três Prêmios Qualidade Brasil na categoria de melhor atriz de drama. Os outros dois vieram por “Ricardo III”, dirigida por Jô Soares em 2006, e por “Ensina-me a Viver”, em 2008, montagem que reestreou em 2015 para marcar seus 80 anos.
Na televisão daquele período ficaram a excêntrica dona de pensão de “O Beijo do Vampiro”, a Baronesa de Bonsucesso de “Senhora do Destino” e a Irene de “A Favorita”, que cresceu na trama muito além do previsto. Sobre a baronesa, personagem com Alzheimer que aparecia em poucas cenas, ela avaliou ao Memória Globo: “Tenho um carinho muito grande por esse personagem. Talvez seja o menor personagem que eu tenha feito na televisão, mas de uma repercussão imensa, imensa! Porque não foi a quantidade, foi a qualidade”.
Voltou ao cinema em 2006, depois de duas décadas afastada das telas, na comédia “Se Eu Fosse Você”, de Daniel Filho. Fez a série “Louco por Elas” entre 2012 e 2013 e apareceu na fase adulta de Pérola no último capítulo de “Joia Rara”. A despedida das novelas foi Stelinha, mãe do protagonista de “Totalmente Demais”, entre 2015 e 2016.
Ela e Tarcísio encerraram os contratos com a Globo em 11 de setembro de 2020, depois de 52 anos na emissora, e se mudaram para uma fazenda em Porto Feliz, no interior de São Paulo. Em agosto de 2021 os dois foram internados com covid-19 no hospital Albert Einstein. Tarcísio Meira morreu no dia 12, aos 85 anos. Ela recebeu alta quatro dias depois.
Desde então vivia reclusa, no Rio, perto dos filhos. Em 2025 gravou depoimentos para a segunda temporada da série “Tributo”, do Globoplay, que dedicou um episódio à sua trajetória. Deixa três filhos, Tarcísio Filho, João Paulo e Maria Amélia, e um país inteiro que se enluta com sua partida.
Foto em destaque: Redes Sociais / Reprodução










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