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Jornalista abrangente, com passos largos exercidos com coragem em setores diversos da comunicação paraense – jornal, rádio e televisão – Gilberto Danin, aos 90 anos, fez sua transição existencial no dia 13 de julho de 1926, com serenidade entre familiares saudosos, deixando marcas no jornalismo deste Estado. 

Nessa mesma data, há 44 anos, meu pai, o jornalista Eládio Malato, cujo talento Danin reputava-lhe inspiração, também se despediu deste plano, marcando, igualmente, essa nobre profissão. 

O jornalismo de Danin também teve sementes nos movimentos oposicionistas da Província, o baratismo contra o coronelismo e as antigas oligarquias do Pará, combatido, por sua vez, pela UDN (União democrática Nacional), ameaçadores, nessa efervescência política partidária, dos princípios mais elementares da imprensa.

Cresceu no jornalismo carente das facilidades que a tecnologia atual oferece, no tempo das fotos recebidas no aeroporto internacional de Belém, da tesoura, cola e régua que diagramavam cenas de violência no bairro da Condor, eventos políticos e sociais que caracterizavam a notícia dessa época.

Atravessou a década de 1970 com o Brasil sob regime militar (1964 –1985), e o jornalismo enfrentando censura, limitações à liberdade de imprensa e pressões políticas. Assim iniciou o jornalismo que Gilberto Danin exerceu, adotado com irreverência e coragem tão rareados nesse ofício tão significativo. Assim, também, foi o jornalismo de outros, inclusive de meu pai, exercido em vários jornais da terra. 

Nesse período, o trabalho dos jornalistas exigia equilíbrio entre o compromisso com a informação e as restrições impostas pelo governo militar. Muitos assuntos relacionados à política nacional eram tratados com cautela, enquanto outros, ligados à cultura, saúde, eventos sociais e desafios urbanos da cidade, se destacavam nas páginas dos jornais. A censura prévia e a autocensura ditavam regras.

Foi assim que meu pai, o jornalista Eládio Malato, driblando também o regime, apresentou-me um dia esse promissor repórter que haveria de enaltecer a profissão e representar uma época marcante da história da imprensa estadual.     

Conheci um pouco mais do jornalista Danin por sua coragem de expressar o que lhe parecia divergente e digno de oposição, o que lhe rendeu perseguição, crítica e detenção. Mas em seu coração sincero havia sempre o respeito, a coerência e o profissionalismo que enobrecem a tarefa de informar.  

Com ideias de vanguarda e desafiantes, fruto desse aprendizado periódico, foi dessa maneira que Gilberto Danin se destacou por seu jornalismo franco, sincero, teimoso e irreverente, o que lhe rendeu algumas inimizades.

Ocupou vários cargos administrativos na administração pública, sem perder o foco no que acreditava, tampouco a competência das finalidades públicas que norteiam as instituições.

Assim percebi Danin tentando mostrar que jornalismo se faz com todos esses predicados, tendo percebido nele, também, algo muito interessante e raro que enobrece a existência humana: a lealdade diante de convicções e o profissionalismo envolvendo ações. 

A ideia de que a morte representa uma passagem, e não um fim absoluto, acompanha a humanidade desde as primeiras civilizações. Em diferentes culturas, religiões e correntes filosóficas, a existência humana é compreendida como parte de uma realidade mais ampla, na qual a vida visível constitui apenas um momento de uma jornada maior.

Se assim for, a essas alturas Danin deve estar sendo recebido por muitos confrades da imprensa que partiram, com homenagens por sua longevidade, lucidez e autenticidade, na difícil tarefa de fazer dessa profissão uma esperança e da esperança uma realização.   



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Ernane Malato
Ernane Malato é escritor, poeta e jurista, especialista em Direito Constitucional pela UFPA, mestre em Filosofia do Direito, área de Direitos Humanos pela PUC/SP, professor e pesquisador da Amazônia em diversas áreas sociais e científicas no Brasil e no Exterior, membro das Academias Paraenses de Letras; Letras Jurídicas; de Jornalismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Pará. Exerceu funções de magistrado estadual e atualmente atua como cônsul honorário da República Tcheca na Amazônia.

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