Publicado em: 25 de setembro de 2026
Mapa tátil, fotografias em alto relevo, placas em braille, audiodescrição e vídeos com intérpretes de Libras acompanham o percurso de três exposições em cartaz no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. “Diversidades Amazônicas”, “Tramas que unem mundos” e “Katxar kum neero” ocupam o Centro de Exposições Eduardo Galvão, aberto de quarta a domingo, das 9h às 16h. Até este sábado (26), o museu realiza a 20ª Primavera dos Museus, com o tema “Museus para todas as pessoas”.
Raimundo Rodrigues atravessou o parque sozinho na tarde de quarta-feira (23), riscando o chão com a bengala para reconhecer o caminho. Integrante da Associação Paraense de Pessoas com Deficiência (APPD), ele frequenta o Goeldi há mais de 30 anos e acompanhou as mudanças de perto. “Trinta anos atrás, não tinha os recursos que tem hoje, como os sistemas em braille. Mapa sempre existiu, mas para pessoas que enxergam. Agora, já tem mapa tátil”, comentou.
Antes da exposição, passou pelo jacaré, pelos macacos, pelos papagaios e pelas araras. Contou que, sem enxergar, percebe o parque pelo cheiro da floresta e pelo som dos pássaros, das cigarras e do vento. Dentro de “Diversidades Amazônicas”, o percurso foi pelas mãos. Tocou tecidos na entrada, leu as placas em braille, decifrou fotos táteis, sentiu rochas, cerâmicas e réplicas de animais e ouviu as audiodescrições que traduzem o conteúdo das paredes e vitrines.
Na mesma tarde, a abertura da Primavera dos Museus lançou “Tramas que unem mundos”, que fica em cartaz até 24 de outubro. A mostra reúne peças feitas por integrantes da APPD nas oficinas de bordado e de argilogravura promovidas no Parque Zoobotânico durante a Semana dos Povos Indígenas, em abril.
No mezanino do prédio, “Katxar kum neero” conta como os povos Katxuyana e Kahyana foram retirados de seu território e como o retomaram. Rosiane Araújo, diretora de Cultura da APPD, começou a visita lendo com as mãos o painel de entrada, uma imagem tátil que reproduz a identidade visual da exposição. Ao lado da filha, Erem Santos, e da arquiteta Martha Carvalho, responsável pelos projetos de acessibilidade do museu, consultou o mapa tátil para localizar os recursos disponíveis. Depois, foi até uma fotografia em alto relevo e, pelo toque, reconheceu uma mulher indígena amamentando uma criança.
Passou os dedos pelos grafismos dos dois povos, ouviu depoimentos de lideranças, tocou um estojo de palha, peças de roupa e brincos e braceletes de miçanga com penas. “Eu gostei muito de sentir as fotos. Eu gosto muito de arte, de exposições. Eu fiquei emocionada aqui, conhecendo a história dos povos indígenas. Muitas histórias como esta até então eu só ouvia, hoje estou tendo a oportunidade de sentir”, contou.
Para Rosiane, o modelo deveria se espalhar. “Estes recursos de acessibilidade são muito importantes porque aproximam as pessoas com deficiência visual dos espaços culturais. Eu gostaria que todos os museus do Estado seguissem o exemplo do Museu Goeldi”, disse.
Martha Carvalho começou a pesquisar o tema no Goeldi ainda na graduação, quando o acervo era apresentado quase só para os olhos. “As exposições eram ainda muito visuais, principalmente as etnográficas, com peças em vitrines”, lembra. Desde 2006, a instituição adapta não só o Centro de Exposições Eduardo Galvão, mas o Aquário Jacques Huber e os caminhos ao ar livre entre a fauna e a flora do parque, com base na legislação e em normas técnicas como a ABNT 9050, que trata de acessibilidade em edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos.
Os recursos são pensados em conjunto. “Cada tecnologia assistiva serve de complemento a outra: um áudio-guia complementa um texto em braille, que complementa uma réplica, por exemplo. Assim, ampliamos a narrativa da exposição para aquela pessoa que está visitando poder aumentar o seu repertório”, explica a arquiteta.
Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o museu parauara aparece no Guia de Museus e Centros de Ciências Acessíveis da América Latina e do Caribe, publicado pela Fiocruz em 2017. Das 464 instituições mapeadas pelo levantamento, 110 demonstravam preocupação com acessibilidade.
O coordenador de museologia do Goeldi, Emanoel Junior, atribui a continuidade do trabalho à presença de uma arquiteta especializada na equipe, que faz a ponte entre as diretrizes da instituição e as demandas levadas pelas entidades de pessoas com deficiência. Com isso, a acessibilidade entra no projeto das exposições desde o planejamento, e não como ajuste posterior.
Ele aponta a falta de orçamento específico como o principal entrave para manter tecnologias assistivas e capacitar equipes. Defende também que a inclusão saia do circuito expositivo e dos eventos pontuais e chegue a publicações, plataformas digitais, eventos acadêmicos, oficinas e materiais didáticos, com base no desenho universal, que prevê produtos e serviços pensados para todas as pessoas sem necessidade de adaptação.
No Brasil, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, é de 2015. A norma deslocou a deficiência do campo da saúde individual para o dos direitos humanos.
A Primavera dos Museus é uma mobilização nacional do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) que chama instituições culturais e científicas a interagir com seus públicos. A edição deste ano coincide com a semana do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, lembrado na segunda-feira (21).
Nesta sexta-feira (25), o Centro de Exposições Eduardo Galvão recebe, das 8h30 às 16h, o I Encontro da Diversidade e Economia Solidária, voltado a mulheres, pessoas negras e comunidades LGBTI+. No sábado (26), o Núcleo de Visitas Orientadas do Serviço de Educação do museu conduz as trilhas guiadas “Sustentabilidade”, “Visitão” e “Geopolítica”, com saídas às 9h em frente ao prédio da Rocinha, logo após a bilheteria. No mesmo dia, das 9h às 13h, acontece um curso de formação de guias de turismo.
Serviço
| Exposições Diversidades Amazônicas, Tramas que unem mundos e Katxar kum neero Local: Centro de Exposições Eduardo GalvãoDias e horários: de quarta a domingo, das 9h às 16h. |
| Programação da 20ª Primavera dos Museus no Museu Goeldi No Parque Zoobotânico – Centro de Exposições Eduardo Galvão Dia 25/09 (Sexta-feira) I Encontro da Diversidade e Economia Solidária: fortalecimento, autonomia e inclusão de mulheres, pessoas negras e comunidades LGBTI+. Horário: das 8h30 às 16h Dia 26/09 (Sábado) Trilhas guiadas pelo Núcleo de Visitas Orientadas do Serviço de Educação do MPEG: “Sustentabilidade”, “Visitão” e “Geopolítica”. Horário: saídas às 9h, em frente ao prédio da Rocinha, logo após a bilheteria. Curso de formação de guias de turismo. Horário: 9h às 13h. |
Com informações da Agência Museu Goeldi
Foto em destaque: Carla Serqueira / MPEG










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