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Seis décadas foram suficientes para transformar profundamente a vida do povo indígena Matsigenka no Parque Nacional do Manu, na Amazônia peruana. Um estudo inédito conduzido por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e da Frankfurt Zoological Society (FZS) mostra que a população vive mais, tem acesso crescente à educação e começa a registrar um ritmo mais moderado de crescimento populacional — uma transição demográfica raramente documentada entre povos indígenas amazônicos.

Divulgada nesta quinta-feira (2), a pesquisa “Sociodemografia da população Matsiguenka que habita no Parque Nacional do Manu” é a primeira a reconstruir de forma sistemática a evolução demográfica dessas comunidades ao longo de cerca de 60 anos. O trabalho acompanha as mudanças desde os primeiros contatos com missionários, na década de 1960, passando pela criação do Parque Nacional do Manu, em 1973, até as transformações recentes provocadas pela ampliação do acesso à educação, aos serviços públicos e aos mercados.

Entre os principais resultados está a redução de 75% da taxa geral de mortalidade nesse período. A expectativa de vida ao nascer passou de 22,6 anos para 53,8 anos, um aumento de aproximadamente três décadas. Ao mesmo tempo, os pesquisadores identificaram que o crescimento populacional começa a desacelerar, indicando uma mudança no comportamento demográfico da população.

A pesquisa também revela alterações importantes na composição social das comunidades. Atualmente, 51% da população tem menos de 20 anos e mais de 30% dos jovens tiveram acesso ao ensino superior desde 2018. Paralelamente, cerca de um terço das pessoas nascidas nas aldeias do Manu migrou para fora da área protegida, principalmente em busca de oportunidades de estudo e trabalho.

Pesquisa contou com trabalho de pesquisadores indígenas nas atividades de campo (Glenn Shepard/MPEG)

Essa mobilidade tem relação direta com a expansão da escolarização. Segundo o antropólogo Glenn Shepard, pesquisador do Museu Goeldi e um dos coordenadores do estudo, a mudança também alterou o padrão de fecundidade entre as mulheres Matsigenka.

“Há 30 anos, a mulher Matsigenka tinha 13, 14 filhos, em média, dos quais frequentemente morriam vários. Hoje, a natalidade baixou, as mulheres têm, em média, seis filhos, ou seja, a taxa de natalidade baixou em mais de 50%. Isso é um dado importante, porque as mulheres estão indo para a escola, estão estudando, em vez de começar a ter crianças com 14 ou 15 anos de idade. Agora, estão começando a ter filhos depois que terminam os estudos.”

O antropólogo peruano Enrique Herrera, gerente de Educação Ambiental da Frankfurt Zoological Society, afirma que os indicadores revelam uma mudança estrutural na dinâmica dessas comunidades.

“O declínio da natalidade ocorre ao mesmo tempo em que aumentam a escolaridade e a expectativa de vida, especialmente entre as mulheres. Estamos diante de uma transição demográfica que desmonta certas percepções sobre um crescimento descontrolado.”

O levantamento consolida informações reunidas pelo pesquisador Glenn Shepard desde a década de 1980. Entre 1987 e 2012, ele realizou sucessivas expedições para registrar árvores genealógicas das comunidades Matsigenka. A partir de 2005, esse material passou a ser organizado na plataforma digital Community Express, desenvolvida pelo antropólogo australiano John Burton.

O banco de dados foi atualizado em trabalhos de campo realizados em 2024 e 2025 graças à parceria entre o Museu Goeldi e a FZS. A equipe também contou com a participação da antropóloga Mayra Huamán, do demógrafo Bernardo Céspedes e dos pesquisadores indígenas Amador Mambiro e Yaneli Cabrera.

Além da reconstrução genealógica, o estudo utilizou métodos da demografia antropológica para reunir censos históricos, validar informações junto às próprias comunidades e analisar indicadores de natalidade, mortalidade, migração e padrões de ocupação das aldeias de Yomibato, Tayakome, Sarigueminiki e Tsirerishi.

Antes da divulgação pública, os resultados foram apresentados tanto à administração do Parque Nacional do Manu quanto às comunidades participantes da pesquisa.

“Em agosto passado, a análise foi entregue à administração do Parque e aos órgãos locais responsáveis pelas áreas protegidas do Peru. Em fevereiro deste ano, voltamos às comunidades que participaram do estudo e apresentamos o relatório, mostrando o seu significado para entender o passado e projetar o futuro delas. As comunidades, então, autorizaram a divulgação dos dados preliminares”, contextualizou Shepard.

Segundo o pesquisador, a devolutiva despertou grande interesse entre os moradores.

“Durante muitos anos, falava-se principalmente do número de pessoas que vivem nessas comunidades. Esse estudo, porém, permite entender também as mudanças na saúde, na mortalidade e nas trajetórias familiares ao longo do tempo. Ou seja, não apenas identifica a realidade demográfica contemporânea, como também ajuda a compreender como as pessoas viviam antes e como vivem hoje.”

Glenn Shepard e mulher Matsigenka, em 2024 (Foto: Amador Mambiro/pesquisador indígena)

O estudo mostra que o acesso à educação passou a influenciar diretamente os movimentos migratórios. Bolsas de estudo e programas educacionais levaram parte dos jovens a deixar temporariamente as aldeias para estudar e trabalhar em cidades próximas ao parque.

Mais de 30% dos moradores das quatro comunidades analisadas vivem atualmente fora da área protegida. A maioria tem entre 15 e 35 anos e atua em ocupações variadas, como professores, empregados domésticos e trabalhadores de diferentes atividades econômicas, inclusive em setores ilegais, como garimpo e exploração madeireira.

Shepard observa que outro movimento ocorre simultaneamente: indígenas de recente contato, que viviam em assentamentos isolados nas cabeceiras do rio Manu, passaram a migrar para comunidades consolidadas em busca de escolas, atendimento de saúde, sistemas de abastecimento de água e oportunidades de trabalho.

Na comunidade de Yomibato, por exemplo, aproximadamente um quarto da população é formada por migrantes provenientes dessas áreas remotas.

Embora o acesso à educação tenha avançado, os pesquisadores identificaram limitações importantes. Em 2024, cerca de 40% dos estudantes do ensino secundário frequentavam residências estudantis instaladas no entorno do parque. Ainda assim, apenas 64 de cada 100 crianças conseguem chegar ao ensino médio.

A reconstrução histórica também permitiu compreender como mudanças institucionais influenciaram diretamente os indicadores de saúde.

Após a criação do Parque Nacional do Manu, em 1973, a retirada dos missionários evangélicos, que prestavam atendimento médico nas comunidades, provocou um aumento expressivo da mortalidade infantil diante da ausência imediata de políticas públicas capazes de substituir esses serviços.

A partir da década de 1980, a expansão da assistência em saúde indígena e, posteriormente, dos programas de planejamento familiar contribuiu para reduzir gradualmente a mortalidade infantil, aproximando-a da média nacional peruana em 2014.

Outro fator relevante foi a implantação de sistemas de água potável e saneamento nas comunidades de Tayakome e Yomibato, conduzida pela ONG Rainforest Flow, projeto com o qual Shepard colabora há mais de duas décadas.

“Por meio da Rainforest Flow, trabalhamos, desde 2011, saneamento e purificação da água em duas aldeias indígenas, usando uma tecnologia muito simples construída com pedra e areia e manejada pelos próprios indígenas. Nessas duas comunidades, a mortalidade de crianças por diarreia baixou 74%. Nas outras duas comunidades que não têm essa mesma tecnologia, a mortalidade infantil por diarreia se manteve igual.”

Apesar dos avanços, o estudo identifica novos desafios sanitários. Em 2024, a mortalidade infantil alcançou 139,1 mortes por mil nascidos vivos, índice bastante superior à média nacional peruana.

Segundo Shepard, o problema deixou de estar associado principalmente às doenças transmitidas pela água e passou a refletir o aumento das infecções respiratórias, agravadas pela covid-19, pela influenza H1N1 e por outras síndromes respiratórias que chegaram às comunidades, sobretudo entre indígenas de recente contato.

Entre 2014 e 2024, as mortes provocadas por infecções respiratórias agudas cresceram 150%.

O Parque Nacional do Manu é reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco e abriga uma das maiores concentrações de biodiversidade terrestre do planeta. Diferentemente da legislação brasileira, a legislação ambiental peruana permite que populações indígenas permaneçam vivendo dentro de parques nacionais.

Para os pesquisadores, compreender a evolução demográfica dessas comunidades tornou-se um elemento estratégico para conciliar conservação ambiental, gestão intercultural e oferta de políticas públicas.

As projeções indicam que a população Matsigenka continuará crescendo nas próximas décadas, mas em ritmo inferior ao observado no passado. O estudo também aponta prioridades para futuras políticas públicas, como ampliação do saneamento, acesso à água potável, fortalecimento da educação e apoio aos jovens que deixam temporariamente as comunidades para estudar, além de ações específicas para populações de recente contato, mais vulneráveis a doenças infecciosas.

“Agora contamos com dados que permitem identificar tendências e orientar melhor as respostas”, afirma Glenn Shepard.

Herrera destaca que essas informações também fortalecem a administração da unidade de conservação.

“Entender os padrões demográficos é crucial para a gestão do Parque Nacional do Manu. Esse estudo oferece insumos para articular melhor a conservação com o bem-estar da população.”

Com informações da Agência Museu Goeldi.

Foto em destaque: Glenn Shepard / MPEG

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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