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Três estudantes do ensino fundamental do Colégio Engels, em Abaetetuba, ficaram em primeiro lugar em Ciências Sociais na XI FEBIC, a Feira Brasileira de Iniciação Científica, realizada em Joinville, em Santa Catarina – a mesma que brilharam os adolescentes de Oriximiná. O projeto que levou o título nacional nasceu das ruas da Vila Simião, onde Yuri Batista da Silva, João Gabriel Cardoso Reis e Lorenzo Vilhena Cardoso já recolheram mais de 113 quilos de material reciclável e cerca de 140 livros desde que instalaram os primeiros ecopontos na comunidade.

Batizado de “Os Amigos do Meio Ambiente”, o trabalho é orientado pela professora Aline Gonçalves Batista da Silva e começou em setembro de 2025, depois que o grupo percebeu que boa parte das famílias da vila não separava o lixo doméstico e tinha dúvidas básicas sobre o que pode ou não ser reciclado e para onde mandar cada material. A pesquisa parte de uma pergunta prática, sobre como ações de educação ambiental comunitária podem ampliar a consciência e a participação das moradoras na separação de resíduos, e adota a metodologia da pesquisa-ação, em que quem pesquisa e quem participa constroem a solução juntas.

A primeira etapa aconteceu entre setembro e outubro de 2025, quando a equipe organizou rodas de conversa semiestruturadas com as moradoras, em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Abaetetuba, para mapear hábitos de descarte e as dificuldades de quem vive numa comunidade urbana sem pontos de coleta seletiva. Entre novembro e dezembro vieram as oficinas, com confecção de brinquedos a partir de material reciclável e cartazes informativos feitos coletivamente.

Os ecopontos chegaram em dezembro de 2025, instalados em locais escolhidos pelas próprias moradoras durante as rodas de conversa. A partir daí a coleta passou a ser quinzenal, com ficha padronizada e balança digital para pesar tudo o que entra. Até julho de 2026, o registro somava aproximadamente 47,2 quilos de plástico, 38,65 de papel, 21,83 de vidro, 4,53 de metal e 1,4 quilo de resíduos eletrônicos, além dos mais de 140 livros encaminhados a ações de reutilização e incentivo à leitura.

A quantidade de metal recolhida caiu ao longo dos meses, e a explicação encontrada pela equipe é que, depois das ações de conscientização, parte das moradoras passou a separar esse material por conta própria e a vendê-lo nos pontos de compra do município, reconhecendo o valor econômico do que antes ia para o lixo comum. Já o vidro virou gargalo. Abaetetuba não tem sistema estruturado para reciclar o material, e a saída encontrada foi encaminhá-lo a Belém, onde existem empresas especializadas. O restante segue para a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, responsável por repassar às recicladoras parceiras.

Para ensinar separação de resíduos às crianças da vila, os estudantes desenvolveram o jogo digital “Super-Heróis da Reciclagem”, montado com recursos de inteligência artificial do Canva IA e disponibilizado de graça pelo link na biografia do perfil @amigosdomeioambiente.br, no Instagram. O jogo explica cores de lixeira e tipos de material reciclável de forma lúdica e passou a ser usado nas atividades de sensibilização com as famílias.

Entrevistas mensais com moradoras e reuniões semanais do grupo de trabalho transformaram a avaliação em rotina, e foi justamente nesse monitoramento que apareceu um problema novo. Pratos, copos, talheres descartáveis e isopor circulam em quantidade na comunidade e praticamente não têm destinação adequada na realidade local. A discussão levou os estudantes a uma segunda frente de investigação, voltada à produção de utensílios a partir de caroço de açaí e mandioca. Já saíram da bancada pratos e colheres experimentais de um bioplástico de base biológica e potencialmente biodegradável, feito com resíduo que sobra em abundância no município.

Mais do que participar das atividades, o trio atua como estudante-pesquisador. Participa das reuniões, das ações educativas, do acompanhamento dos ecopontos, da coleta e da análise das informações, da identificação dos problemas e da formulação de novas propostas. O protagonismo estudantil é descrito no relatório do projeto como uma de suas características centrais.

A orientadora é doutora em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia pela Universidade Federal do Pará, com período de pesquisa no Instituto Politécnico de Beja, em Portugal, e tese sobre a cadeia global do açaí. Mestra em Políticas Públicas pela UFPA, pedagoga e técnica em informática pelo IFPA, Aline Batista é servidora efetiva do Instituto Federal do Pará, no Campus Abaetetuba, onde atua há cerca de dez anos. Idealizadora do projeto, ela trabalha a educação ambiental associada à pesquisa-ação e busca aproximar escola, ciência e comunidade.

A professora credita o alcance do trabalho a uma rede que sustentou a caminhada, formada por familiares, amigas, o Colégio Engels, a Indústria Açaí Parauara e os vereadores Michel e Max Fera. “Somos profundamente gratos a todos que acreditaram no projeto e contribuíram para que esses estudantes pudessem transformar uma inquietação da própria comunidade em pesquisa, aprendizado e novas oportunidades”, afirma. Para ela, bancar iniciação científica tem um efeito que extrapola a feira. “Apoiar a iniciação científica é também mostrar às crianças e aos adolescentes que seus sonhos e suas ideias podem ultrapassar fronteiras.”

Antes de Joinville, o projeto já havia sido apresentado na MCTIA 2025, a mostra de ciência e tecnologia do município. A previsão é que “Os Amigos do Meio Ambiente” siga em atividade até agosto de 2027, com continuidade das ações educativas, das entrevistas mensais e do monitoramento dos ecopontos, além do aprofundamento das pesquisas com os materiais derivados do caroço de açaí. A equipe pretende levar o modelo a outras comunidades, escolas e, eventualmente, a todo o município.

Fotos: acervo da professora Aline Batista

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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