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A delegação da Escola Estadual Padre José Nicolino de Souza voltou de Joinville com o título de campeã nacional em Ciências Humanas, o prêmio de melhor projeto da região Norte, um destaque em gestão sustentável da água e três credenciais para feiras fora do Pará, duas delas nos Estados Unidos. As estudantes embarcaram para a XI FEBIC, a Feira Brasileira de Iniciação Científica, com passagens pagas pela prefeitura de Oriximiná, garantidas a poucos dias da viagem, depois que a Secretaria de Estado de Educação do Pará indeferiu o ofício em que a escola pedia apoio para custear as três feiras para as quais havia se classificado. A negativa chegou em cima da hora, a cinco dias do primeiro embarque e a um dia do fim do prazo prorrogado de inscrição da etapa chilena, sem margem para que a escola procurasse outras fontes, o que pareceu um ato de extrema crueldade do secretário Ricardo Sefer, que tinha ordem da governadora Hana Ghassan para custear a participação da escola. O prefeito delegado Fonseca soube do impasse pela reportagem do Uruá-Tapera, procurou as equipes e assumiu as passagens.

O projeto Modelo Comparativo Intercultural para Valorização das Culturas Indígena e Quilombola de Oriximiná aplicado à educação antirracista levou dois dos principais reconhecimentos da feira. Foi escolhido melhor projeto oriundo da região Norte e ficou em primeiro lugar na Categoria V, de Ciências Humanas, no ensino médio. O resultado rendeu credencial para a Genius Olympiad International High School Project Fair, em Rochester, Nova York, de 7 a 12 de junho de 2027. A pesquisa é assinada por Isabella Soares Farias e Amanda Sofia Portilho da Cunha, com orientação da professora Andreza Maria Santos de Oliveira, e aproxima as culturas Waiwai e quilombola do município a partir dos saberes locais.

“Ver todo o nosso esforço transformado em um reconhecimento desse tamanho mostrou a força da pesquisa que a gente desenvolve”, diz Isabella. Ela conta que apresentar as ideias às avaliadoras e conversar com estudantes de outros estados e de fora do país mudou a forma como enxerga o próprio trabalho. “Esse resultado não é só uns troféus e uma credencial, é a prova de que jovens cientistas e principalmente mulheres na ciência têm muito espaço para ocupar e transformar o futuro.”

O Papel Inteligente Biodegradável Produzido com Biomassa Amazônica para Monitoramento Visual de pH da Água recebeu o Prêmio Destaque em Preservação e Gestão Sustentável da Água e saiu de Joinville com duas credenciais, uma para a SABERTEC, em Sapucaia do Sul, no Rio Grande do Sul, em outubro de 2027, e outra para a Genius Olympiad International High School Project Fair, em Rochester, Nova York,, em junho do mesmo ano. Feito de folhas de bananeira e resíduos de açaí, o papel muda de cor conforme o pH e funciona como teste de baixo custo para famílias ribeirinhas, quilombolas e indígenas. O trabalho é de Giulia Cabral Guerreiro, Marcos Vinícius Santos de Oliveira e Matheus William Jordão Rodrigues, orientado por Andreza Oliveira e coorientado pela professora Silvana Maria Cabral Guerreiro.

Giulia lembra do que antecede a bancada de apresentação. “Participar de uma feira científica envolve muito esforço, dedicação e noites de preparação, além da expectativa de ver nosso projeto reconhecido”, afirma. O prêmio, para ela, não pertence só à equipe. “Representa não apenas uma vitória para mim e para meus parceiros de equipe, mas também para todas as pessoas que nos apoiaram, incentivaram e acreditaram em nosso potencial ao longo dessa trajetória.”

Marcos Vinícius chama atenção para quem estava e quem faltava nos corredores da feira. “Percebemos que a participação de estudantes nortistas e de escola pública era quase nula, concorremos contra a maioria sendo estudantes de escola particular e ensino médio-técnico”, relata, citando instituições como SESI e UNIFEBE entre as concorrentes. Mesmo assim, garante, a equipe pretende repetir a rota. “Vamos ainda mais longe levando o conhecimento e representando a região Norte em feiras nacionais e internacionais.”

O terceiro projeto da escola, Reaproveitamento do Caroço do Açaí como Alternativa Sustentável na Bioeconomia Amazônica, não foi premiado nesta edição. Assinado por Lílian Gabriella Oliveira de Souza, Ana Sophia Oliveira da Silva e Marcelo Itamar Seixas Cardoso, com orientação de Andreza Oliveira e coorientação de Alfredo Barreto dos Anjos Sobrinho, foi selecionado entre cerca de mil trabalhos inscritos na feira. “Meu projeto foi escolhido entre mil projetos para participar de uma das maiores feiras do Brasil, o que foi uma grande honra”, diz Lílian, que cita as amizades e o contato com outros países como parte do que trouxe de volta.

A orientadora resume a leitura que faz da ausência de prêmio para uma das equipes. “Em uma feira científica, ninguém sai vazio”, afirma Andreza Oliveira, que acompanhou os três trabalhos ao lado de Silvana Guerreiro. Segundo ela, as estudantes voltam sabendo apresentar pesquisa, ouvir crítica e entender que a ciência também se constrói nesses encontros.

Para a orientadora, o resultado confirma o que a escola vinha defendendo nos ofícios recusados. “A ciência produzida dentro de uma escola pública, no coração da Amazônia, pode romper fronteiras e ocupar espaços que muitas vezes parecem distantes da nossa realidade”, diz. Ela conta que a maior recompensa foi ver as alunas perceberem que o lugar onde nasceram não determina até onde podem chegar. “Voltamos para casa com prêmios e credenciais, sim, mas, sobretudo, com estudantes mais confiantes, mais maduros e conscientes de que também são capazes de produzir ciência de qualidade.”

Silvana Guerreiro avalia que o efeito da FEBIC se mede depois que as malas são desfeitas. “Essa participação não termina nas feiras científicas. Ela se traduz na continuidade dos projetos científicos na escola, fortalecendo a cultura de iniciação científica, inspirando novos alunos a pesquisarem”, afirma a coorientadora, que acrescenta o apoio como condição para que as ideias virem oportunidade.

O calendário da delegação continua. Em outubro, as equipes têm o MUESCINTEC, em Assunção, no Paraguai, de 6 a 8, e a Expociencias Nacional, em Santiago, no Chile, de 27 a 31.

O Portal Uruá-Tapera faz questão de expressar o orgulho inenarrável da juventude oriximinaense e das professoras Andreza e Silvana, duas mulheres que encaram e superam as limitações financeiras e adversidades do sistema estadual de ensino, construindo a ciência amazônida desde a base, com rigor, compromisso e paixão.

Fotos e videos: Acervo das equipes

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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