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Estudantes e professoras da Escola Estadual Padre José Nicolino de Souza, em Oriximiná, já provaram que fazem ciência capaz de cruzar fronteiras. A escola classificou projetos para três feiras científicas entre setembro e outubro, uma no Brasil e duas fora do país.

O primeiro compromisso é a XI FEBIC, a Feira Brasileira de Iniciação Científica, marcada para Joinville, em Santa Catarina, entre 14 e 18 de setembro. Três projetos da escola disputam a etapa presencial de finalistas. Em outubro, a delegação segue para o exterior. Vai ao MUESCINTEC, em Assunção, no Paraguai, entre os dias 6 e 8, e à Expociencias Nacional, em Santiago, no Chile, entre 27 e 31.

As credenciais internacionais vieram da Expo MILSET Brasil, realizada em Fortaleza, depois de premiações no Prêmio Abric de Incentivo à Ciência. Foi ali que duas equipes garantiram vaga no circuito de fora do país (leia a matéria aqui).

O trabalho que classificou para os dois eventos internacionais foi o Papel Inteligente Biodegradável. Produzido com folhas de bananeira e resíduos de açaí, o papel muda de cor conforme o pH da água, do avermelhado nos meios ácidos ao azulado nos alcalinos. A proposta é oferecer um teste barato e sem laboratório para famílias ribeirinhas, quilombolas e indígenas que bebem água de rios, igarapés e poços. Testado na UFOPA de Oriximiná e no laboratório municipal, respondeu de forma parecida às fitas comerciais de pH. É assinado por Giulia Cabral Guerreiro, Marcos Vinícius Santos de Oliveira e Matheus William Jordão Rodrigues, e vai ao Paraguai e ao Chile.

O segundo projeto rumo ao exterior nasceu no Alto Trombetas. O Modelo Comparativo Intercultural, de Isabella Soares Farias e Amanda Sophia Portilho da Cunha, aproxima as culturas indígena Waiwai e quilombola de Oriximiná e defende uma educação antirracista construída a partir dos saberes locais. Do estudo saiu um Guia Pedagógico Intercultural já usado em sala de aula. Este trabalho vai à Expociencias, no Chile.

Os dois projetos são orientados pela professora Andreza Maria Santos de Oliveira, com coorientação da professora Silvana Maria Cabral Guerreiro. Para a FEBIC, junta-se a eles um terceiro trabalho classificado, que reaproveita o caroço do açaí, normalmente descartado, na bioeconomia da região.

O gargalo, entretanto, é o de sempre: apoio financeiro. Estudantes e professoras precisam custear passagens, hospedagem, alimentação, inscrições e transporte e só a etapa internacional está orçada em R$ 64 mil, para uma delegação de sete pessoas. Além do que já foi mencionado, há um custo que costuma escapar: em Oriximiná faz calor o ano inteiro e as feiras acontecem em cidades com climas bastante diferentes. Boa parte da delegação nunca precisou de roupa de frio, e vestimentas apropriadas também são necessárias.

Na feira de Fortaleza, das quatro equipes classificadas, duas viajaram incompletas. Um estudante da equipe de Ciências Agrárias e uma integrante de Ciências Humanas ficaram em casa por falta de recursos, mesmo tendo conquistado a vaga. As professoras e estudantes que participaram presencialmente o fizeram com recursos próprios e de suas famílias, através de muito esforço.

Para não repetir a cena, a escola abriu a campanha Missão Amazônia 2026. Qualquer pessoa pode contribuir com qualquer valor pela chave Pix eandrezamaria25@gmail.com, em nome de Andreza Maria Carmo dos Santos, também disponível no PicPay.

Entretanto, o apelo é direto às empresas, sobretudo àquelas que retiram lucro da região. Oriximiná abriga uma das maiores operações de bauxita do país e movimenta cadeias de mineração, logística e bioeconomia que dependem do território amazônico. Patrocinar essas equipes custa pouco perto do que essas companhias extraem e devolve parte disso na forma mais direta que existe, a educação das jovens que nasceram na região. Bancar um projeto de feira é investir na mão de obra qualificada que a própria Amazônia vai precisar amanhã.

O poder público também deveria fazer a sua parte. Cabe ao Governo do Pará, na figura da governadora Hana Ghassan, tratar a ida dessas estudantes como política de educação. Financiar a presença de uma escola pública da rede estadual em feiras internacionais é reconhecer, com orçamento, um mérito que estudantes e professoras já provaram ter.

Dar a estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública a chance de fazer ciência muda o lugar que elas ocupam diante do conhecimento, pois deixam de decorar conteúdo e passam a investigar a própria realidade. No interior da Amazônia, onde a escola pública convive com a falta de verba e de incentivo, essas oportunidades pesam ainda mais. As classificações para feiras científicas revelam talentos que passariam despercebidos, aproximam a pesquisa dos problemas de casa e deixam muito nítido a toda a sociedade que ciência também se faz longe dos ditos grandes centros. Garantir isso às estudantes do interior é, antes de mais nada, reconhecer que nossos saberes ancestrais, por séculos silenciados, são da maior qualidade. É permitir ao mundo saber que tecnologia de ponta se constrói na Amazônia. Desde sempre.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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