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Esta pergunta parece simples, mas possui aquela desagradável característica das perguntas realmente importantes: quanto mais tentamos respondê-la, mais ela se multiplica em densidade. Compartilho nesta coluna a hipótese apresentada pela Noema Magazine, em sua edição VII, intitulada The Next Axial Age, publicada em 2026. A revista retoma uma ideia formulada por Karl Jaspers, segundo a qual, entre aproximadamente 800 e 200 a.C., ocorreu uma transformação extraordinária na história humana, cujo eixo ele situou aproximadamente em torno de 500 a.C. A hipótese contemporânea consiste em perguntar se algo comparável estaria acontecendo diante de nossos olhos, impulsionado pela inteligência artificial, pela biotecnologia, pela crise climática, pela globalização e pela crescente interdependência planetária.


Mas o que significa, afinal, uma Era Axial? Tentando simplificar Karl Jaspers sem violentar sua complexidade, podemos dizer que a Era Axial designa um período em que, em diferentes regiões do mundo, ocorreu uma profunda transformação na maneira como os seres humanos compreendiam a si mesmos, o mundo e aquilo que os transcendia. Entre aproximadamente os séculos VIII e II a.C., desenvolveram-se, em regiões distintas da Eurásia, novas formas de reflexão filosófica, religiosa e moral. Na China, encontramos Confúcio e a tradição associada a Laozi; na Índia, os Upanishads e o budismo; no mundo grego, filósofos e tragediógrafos; na antiga tradição hebraica, os profetas; e, no Irã, a tradição associada a Zaratustra. Não se trata, portanto, de afirmar que filosofia, religião ou reflexão moral nasceram naquele período. Isso seria historicamente impreciso.


O que Jaspers percebeu foi algo mais sutil: uma transformação particularmente profunda dessas formas de pensamento, marcada pela capacidade de tomar distância crítica em relação ao mundo imediato, aos costumes herdados e às estruturas tradicionais de significado. A tradição não desapareceu, mas deixou de ser apenas uma resposta recebida. A existência tornou-se, de maneira mais intensa, um problema.


Jaspers chamou esse período de “Era Axial” porque enxergou nele uma espécie de eixo da história: um momento em torno do qual a consciência humana teria adquirido uma nova configuração. Em Origem e meta da história, publicado originalmente em 1949, ele situou esse eixo aproximadamente em torno de 500 a.C., dentro do processo espiritual ocorrido entre 800 e 200 a.C., que considerou uma das divisões mais profundas da história humana. A formulação de Jaspers, contudo, não deve ser tomada como uma descrição histórica incontroversa.


Carlos Eduardo Sell e Daiane Ecce mostram que o conceito passou por diferentes fases de interpretação e foi posteriormente reelaborado pela sociologia e pela filosofia, recebendo críticas às suas possíveis tendências evolucionistas ou eurocêntricas. Ainda assim, sua força heurística permanece: ele permite pensar a simultaneidade aproximada de transformações intelectuais e espirituais ocorridas em diferentes civilizações sem reduzi-las a uma única revolução cultural, coordenada ou uniforme. O que se transforma não é simplesmente o repertório de crenças, mas a relação do ser humano com a própria existência, com a tradição, com a ordem do mundo e com a transcendência.


E por que Jaspers considerou esse período tão importante? Porque não se tratava simplesmente de uma extraordinária concentração de homens inteligentes, embora a humanidade pareça ter produzido naquele intervalo uma quantidade suspeita de gênios. O acontecimento decisivo estava na transformação das formas de consciência. O indivíduo passou a adquirir maior capacidade de tomar distância em relação ao mundo imediato e de interrogar criticamente os costumes, as crenças e as formas de vida herdadas. O mundo deixou de ser apenas aquilo que era e tornou-se também aquilo que podia ser interrogado.


Esse é um dos pontos essenciais da experiência axial: antes de transformar profundamente suas instituições, os seres humanos transformaram, em alguma medida, as formas pelas quais compreendiam a si mesmos, o mundo e a transcendência. A filosofia, a religião e a reflexão moral adquiriram novas formas de reflexividade, e o ser humano passou a poder olhar para o mundo e, simultaneamente, olhar para si mesmo enquanto o observava. A consciência tornou-se capaz de fazer de si própria um objeto de reflexão.


Então, uma Era Axial seria uma revolução das perguntas? Em grande medida, sim, embora essa seja uma síntese interpretativa, e não uma definição literal de Jaspers. A Era Axial envolve uma transformação das perguntas fundamentais, mas também uma transformação da relação entre o indivíduo, a comunidade, a ordem do mundo e aquilo que se encontra além da experiência imediata. Robert Bellah aprofundou essa discussão ao interpretar a transformação axial como uma passagem para formas culturais capazes de refletir sobre suas próprias premissas. Karen Armstrong, por sua vez, destacou a dimensão ética e espiritual desse processo, especialmente a preocupação com o sofrimento, a violência, a compaixão, a virtude e o sentido da existência.


As interpretações posteriores, contudo, também mostraram que não devemos imaginar uma única revolução cultural acontecendo de maneira uniforme em todas as civilizações. Houve diferentes experiências axiais, com semelhanças importantes, mas também diferenças profundas. Aqui aparece uma curiosidade histórica quase desconcertante: em regiões geograficamente distantes, sem uma coordenação cultural global, desenvolveram-se, em períodos aproximadamente contemporâneos, novas formas de reflexão sobre sofrimento, justiça, virtude, transcendência e sentido. Não precisamos transformar essa convergência em uma explicação única; basta reconhecer o problema que ela apresenta.


E o que isso tem a ver conosco? Tudo, se a hipótese estiver correta; quase nada, se estivermos apenas procurando no presente uma versão tecnológica de uma antiga narrativa histórica. É preciso cautela. A comparação entre épocas históricas nunca é uma operação inocente. O passado não é um espelho no qual podemos simplesmente reconhecer o presente usando uma fantasia diferente. Também existe sempre o risco de transformar nossa própria época em protagonista de uma história grandiosa apenas porque somos nós que estamos vivendo nela. Ainda assim, existem razões para levar a pergunta a sério.


Vivemos em uma época na qual a humanidade desenvolveu poderes tecnológicos capazes de alterar profundamente as condições de sua própria existência. A inteligência artificial produz sistemas capazes de realizar tarefas antes consideradas exclusivamente humanas; a biotecnologia amplia nossa capacidade de intervir sobre organismos vivos; a crise climática revela que nossas ações possuem consequências que ultrapassam fronteiras nacionais e gerações; e a digitalização altera a experiência do tempo, da memória, da informação, do trabalho e da política. Um algoritmo pode atravessar fronteiras sem passaporte, modificar comportamentos sem discurso político e alcançar milhões de pessoas antes que uma instituição consiga compreender plenamente o que aconteceu.


Mas tecnologia não é filosofia. Por que falar em uma nova Era Axial? Porque o problema não está apenas naquilo que as máquinas conseguem fazer, mas também naquilo que nós teremos de decidir diante delas. Uma sociedade pode inventar instrumentos extraordinariamente poderosos e continuar intelectualmente imatura diante do próprio poder. Podemos construir sistemas capazes de produzir textos, imagens, análises, previsões e decisões sem termos ainda estabelecido, de maneira consensual, quais limites morais e jurídicos devem orientar sua utilização. Podemos ampliar enormemente nossa capacidade de intervenção sem ampliar, na mesma proporção, nossa capacidade de responsabilidade.


E aqui encontramos uma velha questão filosófica vestindo uma roupa tecnológica nova: se podemos fazer alguma coisa, isso significa que devemos fazê-la? A pergunta parece banal até percebermos que boa parte da história humana pode ser descrita como uma longa tentativa de esquecer que poder e legitimidade são coisas diferentes.


Então, qual seria o novo eixo? Não sabemos, e essa é justamente a parte mais interessante da hipótese. Na primeira Era Axial, segundo Jaspers e seus intérpretes, ocorreu uma transformação profunda na relação do ser humano consigo mesmo, com o mundo e com a transcendência. Uma possível nova Era Axial poderia exigir uma transformação adicional: compreender a existência humana dentro de uma realidade planetária profundamente interdependente.


A pergunta “quem sou?” continuaria sendo importante, mas poderia ser acompanhada por outra, muito mais incômoda: que responsabilidade corresponde ao poder que adquirimos? Essa mudança seria significativa. Durante séculos, pensamos o indivíduo principalmente em relação à comunidade, ao Estado, à religião, à natureza e aos outros indivíduos. Agora precisamos pensar também em relação a sistemas tecnológicos que nós próprios criamos e cuja capacidade de interferência na vida social tende a crescer. É nesse ponto que a hipótese da Noema se torna especialmente interessante. A proposta não consiste simplesmente em afirmar que a inteligência artificial será mais uma tecnologia revolucionária. A questão é se inteligência artificial, biologia sintética, crise ecológica e interdependência planetária poderão produzir não apenas novas ferramentas, mas uma transformação mais profunda na maneira como a humanidade compreende sua própria posição no mundo. Se isso ocorrer, o problema deixará de ser apenas tecnológico; será antropológico.


Isso afetaria a consciência moral humana e o direito? O direito não pode permanecer como espectador dessa transformação. Inteligência artificial, dados, biotecnologia, mudanças climáticas e riscos tecnológicos colocam problemas que ultrapassam algumas das fronteiras tradicionais das categorias jurídicas. Quem responde por uma decisão tomada com auxílio de um sistema artificial? Quais limites devem existir para a utilização de dados? Até onde pode ir a intervenção sobre organismos vivos? Que deveres temos em relação às gerações futuras? Como distribuir responsabilidades quando uma decisão produz efeitos simultaneamente em diferentes países, desafiando conceitos jurídicos tradicionais? São perguntas jurídicas, mas possuem uma origem filosófica.


Antes de perguntar qual norma deve ser aplicada, precisamos perguntar que tipo de sociedade desejamos construir. O direito aparece, então, como uma das formas pelas quais uma civilização procura transformar determinadas concepções de justiça, responsabilidade e dignidade em normas e instituições. Talvez seja justamente aqui que o Direito reencontre uma de suas funções mais antigas: não apenas organizar o poder existente, mas perguntar sob quais condições o poder pode ser considerado legítimo.


Podemos afirmar que já estamos vivendo uma nova Era Axial? Não. É importante começar uma reflexão sobre o futuro recusando a tentação de anunciar o futuro. Uma verdadeira Era Axial só poderia ser reconhecida com alguma segurança retrospectivamente. Os homens e mulheres que viveram durante o período que Jaspers posteriormente denominou axial não possuíam uma placa na porta dizendo: “A partir de hoje, inicia-se uma transformação histórica de longa duração”. Eles simplesmente viveram, pensaram, sofreram, ensinaram, escreveram e morreram. Somos nós, séculos depois, que reunimos esses acontecimentos e percebemos, ou construímos, um padrão. É possível que algo semelhante esteja acontecendo agora. Podemos estar diante de uma transformação histórica de grande alcance sem possuir ainda as categorias necessárias para compreendê-la. Também podemos estar exagerando a importância de nossa própria época, como tantas gerações fizeram antes de nós. E como saberemos? Provavelmente, não saberemos.


Os historiadores do futuro terão essa vantagem irritante que nenhum contemporâneo possui: poderão olhar para trás. Saberão quais ideias sobreviveram, quais instituições desapareceram, quais tecnologias transformaram efetivamente a sociedade e quais foram apenas modismos de uma época fascinada pela novidade. Nós não temos esse privilégio.


Estamos dentro da história enquanto ela acontece. Por isso, a hipótese de uma nova Era Axial deve ser tratada como uma hipótese interpretativa, não como uma profecia. O século XXI poderá ser lembrado como o início de uma transformação comparável, em algum sentido, àquela identificada por Jaspers. Poderá também ser lembrado apenas como uma época de extraordinária aceleração tecnológica que não produziu nenhuma transformação civilizacional equivalente. Ainda não temos como decidir entre essas possibilidades.


Então, por que pensar nisso agora? Porque uma época de grandes poderes exige uma época de grandes perguntas. Nossa capacidade técnica cresce em velocidade extraordinária, enquanto nossas instituições, nossos valores e nossas categorias políticas procuram acompanhar aquilo que nós mesmos colocamos em movimento. A inteligência artificial, a biotecnologia, a crise climática e a interdependência planetária não constituem apenas novos objetos para a ciência.


Elas obrigam o ser humano a reconsiderar a imagem que possui de si mesmo. Esse pode ser o verdadeiro significado da hipótese de uma nova Era Axial. Não significa que estejamos diante de um novo Buda, de um novo Sócrates ou de um novo Confúcio esperando para aparecer na próxima esquina. Significa que podemos estar diante de uma transformação nas perguntas fundamentais de uma civilização.


A primeira Era Axial perguntou, em diferentes linguagens, como deve viver o ser humano? Nossa época começa a formular uma pergunta ainda mais difícil: como deve viver o ser humano depois de adquirir poderes capazes de transformar profundamente o próprio mundo do qual depende? Talvez essa seja a pergunta axial do nosso tempo. Não sabemos se ela produzirá uma nova Era Axial. Não sabemos sequer se o conceito de Jaspers continuará sendo adequado para descrevê-la. Mas podemos reconhecer uma mudança decisiva: nossa época precisa pensar simultaneamente sobre o poder tecnológico que adquiriu, a responsabilidade moral que esse poder impõe e os limites planetários dentro dos quais a existência humana continua possível.


Aqui reside a ironia da história: enquanto procuramos descobrir se estamos vivendo uma nova Era Axial, podemos estar fazendo exatamente aquilo que caracteriza uma reflexão axial: aprendendo, novamente, a desconfiar das respostas que recebemos e a formular perguntas para as quais ainda não possuímos resposta. Não sabemos se é cedo demais para chamar isso de uma nova Era Axial, mas não é cedo demais para reconhecer que vivemos uma época em que as antigas perguntas já não parecem suficientes.


Referências


ARMSTRONG, Karen. A grande transformação: o mundo na época de Buda, Confúcio e Jeremias. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


BELLAH, Robert N.; JOAS, Hans (org.). The Axial Age and Its Consequences. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2012.


ECCEL, Daiane. O potencial formativo da era axial: repensando a filosofia da educação à luz da tese de Karl Jaspers. Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v. 37, e202531229, 2025. DOI: 10.1590/2965-1557.037.e202531229.


JASPERS, Karl. Origem e meta da história. 1949.


JOAS, Hans. The Power of the Sacred: An Alternative to the Narrative of Disenchantment. Oxford: Oxford University Press, 2021.


NOEMA MAGAZINE. Introducing Noema Issue VII: The Next Axial Age. 21 ago. 2026. Disponível em: Noema Magazine⁠. Acesso em: 12 set. 2026.


SELL, Carlos Eduardo; ECCEL, Daiane. O conceito de era axial: raízes, desenvolvimento e atualidade. Trans/Form/Ação, Marília, v. 47, n. 6, e02400293, 2024. DOI: 10.1590/0101-3173.2024.v47.n6.e02400293.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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