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Abre hoje (24) às 19h, no Solar Barão de Guajará, sede do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, a exposição “Entre Tempos: tessituras narrativas do território amazônico”, que aborda as vivências, lutas, histórias e o território amazônico no contexto parauara. Idealizada e executada pela diretora de Museu do IHGP, professora doutora Dayseane Ferraz, a mostra conta a história do solar e seus usos, rememora a importância do Instituto Histórico e Geográfico na produção do conhecimento e narra experiências sociais e culturais, por meio de temas como ancestralidade, conquista, diáspora, ocupação e formação da sociedade amazônida, cuja identidade é exaltada em episódios como as Revoltas Tupinambás e as questões nacionalistas: Independência, Adesão, Tragédia do Brigue Palhaço e a Cabanagem. O acesso é livre e gratuito.

Um dos mais expressivos exemplares da arquitetura civil aristocrática da Amazônia oitocentista, o Solar Barão de Guajará, na tradição luso-brasileira, é uma residência senhorial vinculada às elites políticas e econômicas, símbolo de distinção social, patrimônio familiar e representação de poder, testemunho material das transformações sociais, culturais e arquitetônicas que acompanharam a formação e a evolução de Belém do Pará.

Sede do IHGP desde 1944, o Solar se tornou um lugar institucional de produção do conhecimento e de salvaguarda do ethos da intelectualidade paraense. Ali passaram e ainda tomam assento sucessivas gerações de historiadores, geógrafos, literatos, antropólogos, médicos, advogados e engenheiros, dentre outros cientistas dedicados à construção de narrativas sobre a Amazônia. “Mais do que um prédio histórico, o Solar Barão de Guajará configura-se como um documento/monumento da cidade de Belém. Em suas paredes, salões e acervos entrelaçam-se as marcas da experiência doméstica, das sociabilidades aristocráticas, da institucionalização da cultura letrada e da contínua elaboração das representações sobre o lugar vivido e praticado. Sua permanência no tecido urbano reafirma o patrimônio como um processo vivo e praticado, no qual a arquitetura, a memória e a identidade constituem dimensões indissociáveis da história da cidade de Belém, do Pará e da Amazônia”, comenta Dayseane Ferraz, em entrevista exclusiva ao Portal Uruá-Tapera.

As senhoras da casa: a cadeia dominial feminina do Solar

Pesquisas documentais e bibliográficas referentes à cadeia sucessória e dominial do Solar apontam para uma herdade matrilinear, feminina, o que deixa entrever as senhoras que foram proprietárias da casa. A edificação, datada do princípio do século XIX, aparece em espólio no ano de 1837, quando Ana Soeiro deixou a propriedade à sua filha Ângela Fragoso, que em 22 de agosto de 1839 vendeu o imóvel a Inez Antônia Micaela Ayres de Lacerda, que se tornou esposa do coronel Theodósio Constantino de Chermont Filho (Marques, 2007; Trindade & Moraes, 2021).

Dentre os vários descendentes do casal, foi a filha Maria Ignez Lacerda de Chermont quem se tornou uma das mais antigas proprietárias do Solar. E, por sua vez, o transferiu a seu irmão, Antônio Lacerda Chermont, primeiro Barão e Visconde do Arari. Por isso, entre 1869 e 1875, o imóvel era denominado Solar Visconde do Arari. Ao casar ali com o escritor e político Domingos Antonio Raiol, Maria Vitória Pereira de Chermont herdou de seu tio a edificação, que passou a se chamar Solar do Barão de Guajará.

Ancestralidade e ocupação no contexto amazônico

Imaginários como o mito do El Dorado impulsionaram a conquista portuguesa, a partir da Mairi Tupinambá, denominação nativa de Belém (Stradelli, 1929; Matta, 1939; Maranhão, 2000; Figueiredo, 2019). Houve resistência e muitas guerras por parte dos Tupinambá contra as várias formas de dominação que lhes foram impostas, tais como os aldeamentos, os aprisionamentos, a catequese e as proibições de cunho religioso e linguístico.

A mostra no IHGP aponta que, contemporaneamente, povos indígenas como Karajá, Asurini, Araweté, Munduruku, Kayapó, Tembé e outros, que somam cerca de oitenta mil pessoas divididas em duzentas e vinte e duas etnias no Pará (IBGE, 2022), reafirmam, por meio de suas línguas, grafismos, técnicas, objetos, rituais e modos de habitar, conhecimentos que atravessam gerações. Lutam para evidenciar que a presença indígena não pertence apenas ao passado arqueológico, mas constitui uma realidade dinâmica e politicamente ativa.

Encruzilhadas afroamazônicas: diáspora, quilombos e zonas de contato

Entre os séculos XVI até meados do XIX cerca de quatro milhões de homens, mulheres e crianças foram arrancados de suas terras, de suas famílias e colocados em navios negreiros para serem desembarcados nos portos brasileiros. Vieram para a Amazônia etnias das regiões da África central e oriental como Angola, Congo e Moçambique (IBGE; Brasil: 500 anos de povoamento, 2000).

A praça do comércio de Belém era porta de entrada e de saída e polo de (re)distribuição dos escravizados na Amazônia. A realidade que se impôs aos negros que aqui chegaram foi marcada pelo trabalho compulsório, violências físicas, coerção e diferentes mecanismos de controle social. O grande Vicente Salles destacou a importância do negro não só para a economia, mas fundamentalmente sua participação na constituição histórica e cultural do Pará (SALLES, 2005). Os africanos e seus descendentes engendraram estratégias de sobrevivência, negociação e resistência, construindo redes de sociabilidade e de lutas liberdade, cujos quilombos são a expressão maior.

Dayseane Ferraz enfatiza que comunidades quilombolas, populações negras urbanas e tradições religiosas afro-amazônicas também construíram e constroem territorialidades, redes de sociabilidade, memórias e formas de pertencimento. Religiões como o Tambor de Mina, a Umbanda e o Candomblé dialogaram historicamente com universos indígenas, católicos e afro-brasileiros, reunindo encantados, caboclos, orixás, santos e outras entidades em complexos processos de circulação e recriação cultural. “É nesse território de relações que se constituem fricções interétnicas e hibridações, evidenciadas em festas, procissões, pajelanças, encantarias e cultos de matriz africana, nos quais diferentes sistemas simbólicos se encontram, tensionam-se e se transformam continuamente”, pontua a pesquisadora.

O Grão Pará: entre conquistas, conflitos e fronteiras nos séculos XVII e XVIII

É vasta a literatura que narra a conquista portuguesa do Vale Amazônico, a constituição do núcleo colonial chamado Feliz Lusitânia e o processo urbanístico de Santa Maria de Belém. No encontro/confronto estavam europeus, indígenas e africanos no território que esteve ligado inicialmente ao Estado do Maranhão. De 1621 a 1751 o Estado do Maranhão e Grão-Pará tinha como capital São Luís. De 1751 a 1774, com o centro administrativo transferido para Belém, passou a se chamar Grão-Pará e Maranhão.

Um vasto aparato de leis, cartas régias, regimentos e decretos assegurava os interesses de colonos, missionários e demais representantes do Estado Português. Tudo girando em torno do controle e da posse do território, bem como da exploração de indígenas e escravizados. Nesse contexto, as ordens religiosas – franciscanos, carmelitas, mercedários, jesuítas – eram responsáveis pela interlocução com os povos indígenas e constituíram elemento central das recorrentes controvérsias que marcaram a região amazônica. O Grão-Pará, onde se falava majoritariamente o nheengatu, e não o português, por dois séculos era ligado diretamente a Portugal, e não ao Estado do Brasil (Meira, 2015).

Mapear, cartografar, demarcar e explorar economicamente eram a tônica da empresa colonial. Foram firmados os Tratados de Madri (1750) e de Santo Ildefonso (1777) para que Portugal e Espanha definissem suas posses. Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal e governador do Grão-Pará e Maranhão, ordenou e chefiou a Comissão Demarcadora de Limites de 1753. Belém se tornou capital do Estado do Grão-Pará e Maranhão em 1751, enquanto engenheiros, astrônomos, matemáticos e naturalistas passaram a utilizar a cidade como base para trabalhos de demarcação, viagens e exploração territorial.

Entre narrativas visuais e literárias: o longo século XIX amazônico

Dayseane ilustra na exposição que, vista a partir de Belém do Pará, a Amazônia é um território vivo e atravessado por intensas capilaridades: rios, mercadorias, pessoas, conhecimentos, imagens, edificações e projetos políticos. “O longo século XIX amazônico deita raízes ainda nas últimas décadas do Setecentos, quando reformas ilustradas, viagens filosóficas e intervenções urbanas permaneceriam decisivas durante todo o período imperial. Seu fim, por outro lado, avança até as primeiras décadas do século XX, quando a economia da borracha e os projetos de modernização urbana transformaram profundamente a urbe”.

A partir de 1808, no contexto de abertura política e comercial do Brasil, aumentou a circulação de viajantes, artistas e naturalistas estrangeiros pela região. Spix e Martius chegaram à Amazônia em 1819; nas décadas seguintes, Alfred Russel Wallace, Henry Walter Bates, Joseph Léon Righini e muitos outros percorreram rios, florestas e povoados amazônicos. Coletaram milhares de exemplares zoológicos e botânicos, organizaram coleções e produziram descrições que circularam internacionalmente, legando narrativas visuais e literárias, documentos importantes que constroem uma percepção imagética da região.

Um território dissidente: lutas, revoltas e guerras dos povos amazônidas

A exposição do IHGP realça que a história do Pará não pode ser compreendida apenas como uma sucessão de datas, acontecimentos e exaltação de personagens das elites. “Ela também é feita de lutas, revoltas e resistências que conferem identidade aos amazônidas, sempre resultantes de um amálgama de questões ligadas à exploração de suas riquezas e de seus habitantes, pela imposição dos interesses coloniais, pela escravização de indígenas e negros e pela concentração de privilégios nas mãos de grupos ligados ao poder”, pontua Dayseane Ferraz, recordando que, como território ancestral de lutas já no início da colonização a resistência Tupinambá se manifestava contra a dominação colonial.

Em 1617, no assentamento português entre o Pará e o Maranhão começou a Revolta de Cumã. O protagonista foi o indígena Amaro, que leu uma carta para os parentes contendo uma possível trama portuguesa de escravizar todos os indígenas da região. Isso motivou a invasão à fortificação da cidade e a morte de cerca de trinta soldados colonos que faziam guarda, iniciando uma querela que duraria cerca de quatro anos (Cardoso, 2022). Foi também neste contexto que, em janeiro de 1619, o líder Tupinambá Guaimiaba, ou Cabelo de Velha, liderou outros guerreiros que não aceitaram passivamente a ocupação de seus territórios e a destruição de seus modos de vida. Na tentativa de retomar seu território, o tuxaua Guaimiaba tombou alvejado por um tiro dentro do Forte do Presépio.

Os visitantes da mostra entenderão que a resistência dos nativos se fez também contra as campanhas de resgates, incursões dos portugueses no vale amazônico para capturar, aprisionar e escravizar os indígenas. Em 1723 a nação indígena Manaus (Manáos), liderada por Ajuricaba, lutou para impedir o acesso dos luso-brasileiros aos rios acima do Amazonas. No confronto, a tropa de resgate teria assassinado o filho do líder indígena, precipitando a revolta. Na segunda metade do século XVIII intensificaram os confrontos entre os colonizadores e nação Mura dos rios Madeira e Solimões. A Guerrilha dos Mura, ditos como temíveis gentios de corso, permeou as narrativas e o imaginário sobre a Amazônia oriental brasileira nos séculos XVIII e XIX e XX (Amoroso,1998).

Ao longo do tempo, outras formas de resistência nasceram. Negros escravizados fugiram, organizaram mocambos e quilombos e reconstruíram, em uma liberdade possível, suas resistências.

Por entre rios, florestas e cidades: ecos das vozes rebeldes no Pará

A emancipação brasileira de Portugal, em 1822, e a adesão da Província do Pará à Independência do Brasil, em 1823, não significaram liberdade, participação política nem conquista de direitos para indígenas, negros escravizados e livres, mestiços, tapuios, trabalhadores pobres, homens e mulheres. A adesão se deu sob pressão do oficial britânico John Pascoe Grenfell, a serviço do Império do Brasil, que aportou em Belém e declarou o bloqueio dos portos.

A permanência das antigas elites no poder local, as disputas pelo controle da Província e a repressão aos setores populares desaguaram em vários conflitos, que se espraiaram por rios, florestas, aldeias, vilas e cidades. Vários intérpretes da Amazônia traduziram as múltiplas vozes de uma sociedade marcada pela escravidão, pela desigualdade de classes e pela violência política, mas também por persistentes experiências de resistência. Como importante centro político e administrativo da Província, Belém foi palco de acontecimentos que contribuíram para a construção da identidade revolucionária do Pará, cujas marcas permanecem até os dias atuais e estão expostas no casarão que sedia o IHGP.

A tragédia do Brigue Palhaço

Logo após a adesão à Independência, grupos insatisfeitos com os rumos políticos clamavam por um governo que representasse, de fato, os interesses do Pará. Nesse contexto aconteceu a Chacina do Brigue Palhaço, no qual centenas de amotinados foram presos, entre eles soldados das tropas paraenses e outros participantes da rebelião. A violenta repressão resultou, entre outros acontecimentos, na execução sumária de cinco pessoas no Largo do Palácio e na ameaça de morte ao cônego Batista Campos, que foi amarrado à boca de um canhão.

Ao cair da noite de 20 de outubro de 1823, 256 presos que estavam na cadeia pública foram transferidos para o porão do Brigue Diligente, ancorado na baía do Guajará. As escotilhas foram fechadas, deixando-se apenas uma pequena abertura para a entrada de ar. Os prisioneiros permaneceram confinados em condições extremamente precárias. Na manhã de 22 de outubro de 1823, quando as escotilhas foram abertas, encontraram no fundo do porão 252 corpos, muitos deles cobertos de sangue e apresentando ferimentos. Aos poucos, os cadáveres foram retirados da embarcação, transportados para a margem da baía do Guajará, em direção ao sítio Penacova,  e enterrados em vala comum.

A Cabanagem

A tragédia do Brigue Palhaço sedimentou forte sentimento de revolta que explodiu na Cabanagem, doze anos depois, quando, ao lado de setores das elites locais em conflito, indígenas, negros, mestiços, ribeirinhos e populações pobres fizeram da Amazônia palco de uma profunda revolução social. Os revoltosos tomaram Belém em 7 de janeiro de 1835, mataram o presidente da Província, Bernardo Lobo de Sousa, e estabeleceram sucessivos governos rebeldes, liderados por Félix Malcher, Francisco Vinagre e Eduardo Angelim. Foram anos de lutas, mortes e confrontos entre os cabanos e as tropas imperiais, em conflitos que se espalharam por toda a Província.

Sobre a memória da Cabanagem Balkar (1998/2022) afirma que:

“Corroído por dentro, em verdadeira luta autofágica, o movimento foi massacrado pelas forças de uma Regência que quis fazer da repressão a ele um exemplo para outras províncias periféricas insatisfeitas com o arranjo político que produziu o Brasil independente. Ensanguentado e destruído, o Grão-Pará voltaria a trilhar o caminho da ordem. Domesticou-se a insatisfação popular, mantendo aquilo que a produzia. O perigo de outra sublevação popular, no entanto, jamais desapareceria. De dentro da Corveta Defensora, o navio prisão fundeado em Belém e para onde foram mandados milhares de cabanos, o rebelde Pedro Fernandes de Souza – segundo consta no códice 1130 do Arquivo Público do Estado do Pará – vaticinava que o ‘tempo cabanal há de tornar’ e que essa ‘… outra Cabanagem … será muito pior que a passada”.

O IHGP fica na Rua D’Aveiro – Cidade Irmã, nº 62, na Cidade Velha, ao lado da Alepa e em frente à Praça Dom Pedro II.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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