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Acompanho o noticiário das últimas semanas e vejo novamente no centro do debate público uma questão que acompanha a história brasileira desde os tempos coloniais: o trabalho doméstico. A repercussão da ação trabalhista movida por uma ex-cozinheira contra a atriz brasileira Isis Valverde, encerrada mediante acordo judicial, despertou interesse porque revelou algo que vai além do caso individual. O episódio colocou em evidência as condições de trabalho no espaço doméstico, a organização das jornadas de trabalho e a permanência de estruturas de poder historicamente enraizadas na sociedade brasileira.

A relevância sociológica desse acontecimento torna-se ainda maior porque ele ocorre em um momento em que o país discute a redução da jornada semanal e o fim da escala 6×1. O debate sobre o tempo de trabalho mobiliza trabalhadores, sindicatos, empresas, pesquisadores e agentes políticos. A questão central envolve a distribuição social do tempo. A discussão trata da possibilidade de descanso, convivência familiar, formação educacional, participação política e exercício da cidadania.

Ao observar esse debate, percebo que sua compreensão exige um retorno à história da formação social brasileira. O Brasil constituiu-se  uma das maiores sociedades escravistas do mundo ocidental. Durante mais de três séculos, o trabalho escravizado sustentou a produção econômica, organizou a vida cotidiana e estruturou as relações de poder. A escravidão não representou apenas uma forma de exploração econômica. Ela instituiu uma cultura política baseada na desigualdade, na concentração da autoridade e na naturalização da subordinação.

Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, identificou a centralidade das relações domésticas na formação da sociedade brasileira. A casa senhorial constituiu o principal núcleo de poder econômico, político e simbólico. Nesse espaço, a autoridade do senhor estendia-se sobre a produção, sobre a família e sobre os trabalhadores escravizados. Freyre observou a proximidade cotidiana entre dominantes e dominados. Entretanto, a historiografia posterior demonstrou que essa proximidade coexistia com mecanismos permanentes de coerção e violência.

Em Sobrados e Mocambos, Freyre analisou o processo de urbanização ocorrido durante o século XIX. Sua interpretação sugere que a sociedade brasileira passou por importantes transformações institucionais. Contudo, a leitura desenvolvida por Florestan Fernandes permite compreender que a modernização não alterou profundamente a estrutura da desigualdade social. A passagem da escravidão para o trabalho livre ocorreu sem um projeto nacional de integração dos libertos. A liberdade jurídica não foi acompanhada pela democratização do acesso à terra, à educação ou à renda.

Fernandes demonstra, em A Integração do Negro na Sociedade de Classes, que a abolição produziu uma cidadania incompleta. A população negra foi incorporada ao mercado de trabalho em posições marcadas pela vulnerabilidade econômica e pela exclusão social. Essa condição contribuiu para a reprodução das desigualdades ao longo do século XX. A herança escravista permaneceu presente nas oportunidades educacionais, nos salários, nas ocupações e nos espaços de poder.

Essa continuidade histórica torna-se particularmente visível no trabalho doméstico. A categoria representa uma das ocupações mais diretamente associadas à experiência da escravidão. Desde o período colonial, mulheres negras desempenharam atividades relacionadas ao cuidado, à alimentação, à limpeza e à manutenção das residências das elites. Após a abolição, grande parte dessas funções continuou sendo exercida pelas mesmas populações historicamente marginalizadas.

Sidney Chalhoub demonstra que a passagem do trabalho escravizado para o trabalho livre não eliminou práticas de controle social construídas ao longo do século XIX. Muitas formas de disciplina e vigilância permaneceram presentes nas relações de trabalho. No ambiente doméstico, essas permanências assumiram características particulares. A proximidade entre empregadores e empregados frequentemente ocultou a existência de relações marcadas por forte desigualdade de poder.

Suely Kofes identifica esse fenômeno ao analisar a relação entre patroas e empregadas domésticas. Segundo a autora, o espaço doméstico produz uma convivência cotidiana marcada por ambiguidades. O discurso da confiança, da proximidade e da familiaridade muitas vezes convive com a desigualdade material, salarial e jurídica. A expressão “é quase da família” tornou-se uma das fórmulas mais representativas dessa dinâmica social.

Nesse contexto, o caso judicial envolvendo Glória Pires adquire importância analítica. A condenação relacionada às condições de trabalho de sua ex-cozinheira trouxe para a esfera pública uma realidade frequentemente invisibilizada. A repercussão do caso revelou que a sociedade brasileira continua debatendo os limites das jornadas de trabalho e as condições de proteção jurídica dos trabalhadores domésticos. O aspecto relevante não reside na figura pública da atriz, mas na visibilidade que o episódio conferiu às relações laborais desenvolvidas dentro do ambiente privado.

Os casos envolvendo Glória Pires e Isis Valverde surgem justamente em um momento de crescente questionamento das jornadas extensas de trabalho. Eles revelam a permanência de uma questão histórica: a dificuldade de reconhecer plenamente o valor do tempo dos trabalhadores. A sociedade brasileira sempre enfrentou tensões relacionadas à distribuição desigual do tempo livre. Durante o período escravista, o trabalhador não possuía qualquer controle sobre sua jornada. Após a abolição, diversas categorias continuaram submetidas a rotinas intensas e prolongadas.

A luta pela redução da jornada acompanha a história do trabalho no Brasil. As greves operárias de 1917 reivindicavam a jornada de oito horas diárias. A legislação trabalhista construída durante o governo Vargas procurou estabelecer limites para a exploração do trabalho industrial. A Constituição de 1988 ampliou direitos sociais. A Emenda Constitucional n.º 72 de 2013 e a Lei Complementar n.º 150 de 2015 representaram marcos fundamentais para o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores domésticos.

O debate sobre a escala 6×1 em 2026 insere-se nessa trajetória histórica de ampliação da cidadania social. Ricardo Antunes observa que as transformações recentes do capitalismo intensificaram processos de flexibilização, precarização e ampliação da disponibilidade permanente dos trabalhadores. A expansão das tecnologias digitais, a fragmentação das jornadas e a pressão por produtividade contribuíram para novas formas de desgaste físico e emocional.

Essa realidade afeta especialmente os trabalhadores dos setores de serviços, comércio e cuidado. Muitos enfrentam longos deslocamentos urbanos, jornadas extensas e reduzidas possibilidades de descanso. O tempo dedicado ao trabalho ultrapassa frequentemente o espaço formal do emprego e invade outras dimensões da vida cotidiana.

A reflexão proposta por Jessé Souza permite compreender esse fenômeno em perspectiva histórica. Em A Elite do Atraso, o autor argumenta que a escravidão produziu uma cultura política baseada na naturalização da desigualdade. Essa herança influencia a forma como a sociedade atribui valor ao trabalho de diferentes grupos sociais. Certas ocupações permanecem associadas a baixos níveis de reconhecimento social e remuneração. O trabalho doméstico constitui um dos exemplos mais evidentes dessa realidade.

Lilia Schwarcz amplia essa discussão ao demonstrar que o autoritarismo brasileiro não se manifesta apenas nas instituições políticas. Ele também aparece nas práticas cotidianas, nas relações sociais e nas formas de exercício da autoridade. O ambiente doméstico constitui um dos espaços privilegiados para observar essas dinâmicas. A administração do tempo, das tarefas e da autonomia dos trabalhadores reflete valores construídos ao longo de séculos.

A contribuição de Silvia Federici acrescenta outra dimensão fundamental ao debate. A autora demonstra que as atividades de cuidado e reprodução da vida possuem papel central no funcionamento das economias modernas. Cozinhar, limpar, educar crianças e cuidar de idosos constituem atividades indispensáveis para a reprodução da força de trabalho. Apesar disso, essas funções historicamente receberam menor reconhecimento econômico e político.

No Brasil, essa realidade apresenta forte componente racial. Hebe Mattos e Maria Helena Machado demonstram que a experiência da escravidão produziu uma associação histórica entre trabalho doméstico, população negra e subordinação social. Essa herança continua influenciando a composição social da categoria e a distribuição das oportunidades econômicas.

A discussão sobre a escala 6×1 torna visível essa longa trajetória histórica. O debate não trata apenas da quantidade de horas trabalhadas. Ele envolve a definição dos limites entre trabalho e vida pessoal. Envolve o reconhecimento do descanso como direito social. Envolve a compreensão de que cidadania pressupõe acesso ao tempo necessário para o desenvolvimento pessoal, familiar e comunitário.

A democratização do tempo constitui uma das dimensões mais significativas da cidadania no século XXI. Ao longo da história brasileira, o acesso ao tempo livre foi distribuído de maneira desigual entre os diferentes grupos sociais. Desde o período escravista, a apropriação do tempo de trabalho de determinados segmentos da população permitiu que outros grupos concentrassem privilégios, renda, educação e oportunidades de participação política. 

A formação da sociedade brasileira consolidou uma estrutura na qual o descanso, o lazer e o desenvolvimento pessoal foram historicamente experimentados de forma desigual. O debate sobre a escala 6×1 recoloca essa questão em evidência ao propor uma reflexão sobre quem possui o direito de controlar o próprio tempo. A redução das jornadas de trabalho amplia as possibilidades de convivência familiar, qualificação profissional, participação comunitária, acesso à cultura e cuidado com a saúde física e mental. Sob essa perspectiva, o tempo deixa de ser compreendido apenas como fator de produção e passa a ser reconhecido como um direito social fundamental. 

As reflexões de Ricardo Antunes sobre as transformações do trabalho contemporâneo e as análises de Octavio Ianni sobre a formação da sociedade brasileira ajudam a compreender que a democratização do tempo integra um processo mais amplo de democratização das condições de vida. Trata-se de uma disputa que envolve a redistribuição de um recurso historicamente associado às relações de classe, raça e poder. Em uma sociedade marcada pelas heranças da escravidão, ampliar o acesso ao tempo livre significa também ampliar as possibilidades concretas de cidadania.

O Brasil de 2026 encontra-se diante de uma questão que atravessa sua história desde o período colonial. A sociedade discute quanto vale o tempo de seus trabalhadores. Discute quais grupos possuem acesso ao descanso e quais permanecem submetidos a jornadas mais intensas. Discute a capacidade das instituições democráticas de enfrentar desigualdades construídas ao longo de séculos.

O debate sobre a escala 6×1 revela que a história brasileira continua presente nas questões mais cotidianas da vida social. O tempo do trabalhador é uma das fronteiras contemporâneas da cidadania. Durante séculos, o país organizou sua economia e suas relações sociais a partir da apropriação desigual do trabalho e do tempo de amplos setores da população. Em 2026, a discussão sobre a redução da jornada de trabalho expressa uma tentativa de enfrentar parte dessa herança histórica. 

A democratização do tempo representa mais do que uma reivindicação trabalhista. Ela constitui um projeto de sociedade. Trata-se da construção de um país em que o descanso, o cuidado, a convivência familiar, a educação, a cultura e a participação política deixem de ser privilégios de alguns grupos e se convertam em direitos efetivamente acessíveis a todos os cidadãos. Essa é uma das questões centrais colocadas ao Brasil contemporâneo: transformar direitos formais em experiências concretas de liberdade, dignidade e justiça social.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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