Publicado em: 8 de agosto de 2026
“Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles”
Homero
Ninguém sabe, ao certo, se Homero verdadeiramente existiu, se os dois grandes poemas épicos da Grécia antiga – a Ilíada e a Odisseia – foram por ele escritos ou se resultam de uma antiga tradição oral transmitida entre gerações.
Um dia visitei a vila de Btekhnay levado pelo meu sogro, Nabih Abou El Hosn, região montanhosa do Monte Líbano, com cerca de 1000 metros acima do nível do mar, e observei práticas comunitárias que preservam tradições orais. O interessado, na cabeceira da estrada vazia, gritava o nome com quem desejava se comunicar e seguia trajetória. No outro dia a pessoa o encontrava.
No Oriente Médio as relações comunitárias ainda são bastante próximas. Nesses lugares, as pessoas costumam se conhecer pelo nome, pelas famílias e pela rotina diária. Um recado dado em voz alta, portanto, na praça, na rua principal ou em um ponto elevado da vila pode rapidamente se espalhar pela comunidade.
Narrativas também se formam de boca em boca, muitas delas voltadas para a importância das virtudes e feitos humanos, tantas vezes esquecidos. A Ilíada e a Odisseia estão relacionadas com essas tradições orais, posteriormente fixadas por escrito e atribuídas a Homero.
Sobre essas obras clássicas e sobre algumas percepções que elas demonstram, apresento uma reflexão voltada para essas duas narrativas clássicas que inspiraram a cultura ocidental:
Há cerca de três mil e duzentos anos o mundo do Mediterrâneo Oriental assistiu, segundo a tradição, a um dos maiores conflitos que a tradição situa no final da idade do Bronze, travado entre Gregos e Troianos: a Guerra de Tróia!
Esse acontecimento, preservado pela tradição épica, continua oferecendo grandes lições à humanidade, marcando gerações, inspirando poemas, livros, filmes, artes cênicas, com profundas reflexões sobre heroísmo, destino, honra e amor.
A Ilíada não conta toda a história da guerra de Troia, o poema começa quando a guerra já se encontra em seu décimo ano e não narra a fuga de Helena com Páris como seu episódio inicial. As tradições orais narram que a guerra iniciou por causa do amor entre Páris, filho do Rei Príamo de Troia, e a rainha Helena, esposa do Rei de Esparta Menelau.
Menelau hospedou Páris que estava em missão diplomática, mas depois do banquete oferecido, o rei de Esparta teve que viajar para Creta, a fim de participar dos funerais de seu avô materno, Catreu, ordenando todas as atenções ao príncipe de Troia.
Conforme a promessa de Afrodite, Helena e Páris logo se apaixonam e fogem para Troia. Entre os reinos desses dois amantes, Esparta e Troia, havia o imenso mar Egeu que não impediu o desafio dos dois apaixonados, mas os motivos desse conflito, segundo as narrativas orais, ainda se apresentam por várias vertentes:
Troia ocupava uma posição privilegiada. Sua localização estratégica junto ao estreito dos Dardanelos, passagem obrigatória entre o Mar Egeu e o Mar Negro. Isso explica por que muitos estudiosos acreditam que fatores econômicos e comerciais também contribuíram para o conflito.
Quem controlasse Troia poderia influenciar ou taxar o comércio marítimo de metais, cereais, madeira e outros produtos valiosos. Os reinos micênicos da Grécia buscavam expandir seus poderes sobre as rotas comerciais do leste do Mediterrâneo e a destruição ou a submissão de Troia fortaleceria suas influências.
Agamemnon sabia disso e ambicionava aumentar sua autoridade sobre a Grécia. Depois do chamado “rapto” de Helena, sob pretexto de resgatar a honra de seu irmão, Menelau, esposo de Helena, levada pelo príncipe troiano, liderou os principais chefes das nações gregas contra o império de Troia.
Nenhum deles se negou a acompanhar Agamenon pois havia um juramento de que protegeriam a rainha Helena quando Menelau a desposou. Odisseu, inicialmente, resistiu para não deixar Penélope e o filho Telêmaco sozinhos, mas teve que cumprir a tradição.
Entretanto, a tradição mítica narra que a causa originária dessa tragédia, nasceu da vaidade de três deusas do Olimpo, Atena, Afrodite e Hera, disputando a beleza que a deusa da discórdia, Éris – barrada na festa de casamento entre o mortal Peleu com Tétis, a deusa do mar – questionou durante a cerimônia.
Tudo começou quando Zeus barrou a entrada da deusa da discórdia, Éris, na cerimônia, ordenando ao centauro anfitrião, Quíron, sua exclusão da lista oficial de convidados. Éris era desagregadora e Zeus quis evitar desavenças, entretanto, revoltada, ela compareceu só para entregar um pomo dourado do Jardim das Hespérides ao senhor dos trovões com a seguinte inscrição: “à mais bela!”.
Zeus estava correto e a irônica oferenda de Éris abalou a cerimônia composta por deuses e humanos, criando, rapidamente, uma velada disputa entre as três deusas, cada qual julgando-se destinatária da maliciosa mensagem. Preocupado por ter que decidir essa perigosa questão, Zeus encontrou uma solução diplomática, sem arriscar, contudo, sua relação com as deusas:
Alegando figurar nessa perlenga, a esposa Hera, a filha Atena e a sedutora Afrodite, decretou que essa escolha caberia ao mais belo dos mortais: Páris, filho do rei Príamo e da rainha Hécuba de Tróia, conhecido pela sua extraordinária beleza, como árbitro daquela divina disputa.
Foi o alado Hermes, descendo à Terra, quem intimou Páris daquele irrecusável ofício: “Decidirás entre as três deusas, Hera, Atena e Afrodite, quem é a mais bela!”. Só restando a Páris entregar o pesado pomo de ouro a uma delas e passar a ser odiado pelas outras duas!
No meio de uma floresta, então, as três deusas se apresentaram ao julgador, cada qual mais perfumada e esplendorosa que a outra, com olhares encantadores sobre o julgador.
Hera foi a primeira que falou anunciando: “Se for eu a escolhida, serás o senhor de toda a Ásia e terás riquezas incalculáveis”.
Atena foi a segunda a falar: “Se me entregares o pomo serás vitorioso entre guerreiros e o homem mais sábio da terra”.
Afrodite foi a última, alertando Páris de que aquele julgamento deveria analisar por inteiro a beleza das deusas presentes!
Dito isso, soltou ao chão sua reluzente túnica transparente, revelando a nudez de seu divino corpo, beleza, curvas sinuosas, suavidade da pele com um perfume que se misturava ao frescor de relva com a melodia dos pássaros, diante do incontido brilho nos olhos de Páris.
“Diante do que te apresento, se me confirmares como a mais bela do mundo divino, te darei o amor de Helena, rainha de Esparta, a mulher mais linda do mundo humano!”.
Naquele momento Páris entregou a Afrodite o pomo dourado, mais tarde chamado “Pomo da Discórdia”, elegendo Afrodite como a deusa mais bela, decepcionando as outras e iniciando um capítulo inesquecível na história dos mortais.
Hera lhe oferecera poder e riqueza; Atena, sabedoria e glória; Afrodite ofereceu-lhe o amor, indicando Helena como sua representação humana na terra, premonizando uma grande tragédia.
Afrodite eleita, iniciou o processo amoroso e arriscado entre Helena e Páris com a fuga do casal para Tróia, abalando o casamento do Rei Menelau com Helena, provocando a fúria das nações gregas incentivadas e lideradas pelo Rei de Micenas, Agamenon, irmão de Menelau.
Quando ela desapareceu, o Rei de Esparta buscou apoio do irmão que convocou vários reinos da Grécia para uma guerra contra Tróia, situada onde a Europa termina e a Ásia começa. Essa guerra duraria dez anos, resultando em além das mortes de milhares de pessoas, na destruição de uma cidade, no infortúnio daqueles que participaram desse histórico conflito com grandes ensinamentos à humanidade.
Humilhadas, Hera e Atenas, passaram a favorecer os gregos e a premiada Afrodite os Troianos.
Sabemos que as guerras da história decorrem de causas diretas e indiretas, imediatas e remotas. A Guerra de Tróia, igualmente, não pode ser explicada por um único motivo.
Segundo a tradição posterior, entre as principais perdas fatais, encontram-se Heitor, filho do Rei Príamo, o maior defensor de Troia. Aquiles, atingido por uma flecha disparada por Páris, mas guiada pelo deus Apolo. Patroclo, grande companheiro de Aquiles, morto por Heitor e segundo a tradição posterior, Ájax, enlouquecido após a guerra por não ter herdado as armas de Aquiles, tirou a própria vida.
As primeiras grandes obras da humanidade incluem a Epopeia de Gilgamesh da antiga Mesopotâmia, iniciada por narrativas orais, sobre ela dediquei homenagem em forma de poesia, escrevendo um livro intitulado: “O Rito do Sobrevivente”. Séculos depois surgem a Ilíada e a Odisseia atribuídas a Homero, poemas que continuam inspirando reflexões sobre a condição humana.
Na Ilíada, percebemos que a ira pode destruir até o homem mais poderoso. A primeira palavra do poema “mênis”, significa em grego “ira”, “cólera”, “furor”. Aquiles, consumido pela ira, escolheu a glória, mesmo sabendo que ela lhe custaria a própria vida. Segundo uma tradição posterior, Tétis advertiria Aquiles de que seu destino se dividiria em dois caminhos:
“Se lutares na guerra de Troia, meu amado filho, conquistarás a glória para sempre (Kléos), mas morrerás jovem; … se permaneceres em casa viverás por muitos anos, sendo esquecido, porém, pela história.”
Apesar de tanto heroísmo, perdas materiais, baixas de vida, lágrimas e infortúnios humanos nesse conflito, Homero nos diz que a glória nunca se apresenta sem dores. A verdadeira coragem não é a ausência de medo. Heitor sabia que provavelmente perderia para o semideus Aquiles, mas aceitou lutar para proteger sua cidade.
Quando Príamo, já idoso, guiado e protegido por Hermes, entra na tenda de Aquiles para pedir o corpo do filho, Homero produz uma das cenas mais comoventes de toda a literatura universal. A entrega por Aquiles do corpo de Heitor ao seu pai, Príamo, implorando aos seus pés, na calada da noite, é uma lição de compaixão que ultrapassa o ódio da guerra.
Os heróis buscam glória, mas Homero destaca em sua obra que o mais importante é a nobreza de caráter, a lealdade e a compaixão. Na Odisseia, representando o retorno de Odisseu para a ilha de Ítaca e à família, Homero destaca essas lições:
O astuto Odisseu, rei de Ítaca, convocado por Agamenon à guerra e contrariado por ter tido que abandonar a esposa Penélope e o filho Telêmaco, sobreviveu e empreendeu o difícil retorno, enfrentando uma viagem que durou outros dez anos, uma série de perigos e perseguições de Poseidon, o deus dos oceanos.
Homero acentua a vitória da perseverança e a recuperação da sua identidade, a reflexão, o amor e o autoconhecimento, quando Odisseu enfrenta monstros, tempestades, deuses contrariados e tentações, sem abandonar, em momento algum, o desejo de voltar à sua família. Aqui existe a revelação de que o retorno a si mesmo e às próprias origens não é uma tarefa fácil.
Odisseu recupera sua identidade depois de esconder sua verdadeira pessoa, até reassumir o lugar de rei, conseguindo a restauração da ordem e da harmonia. Ao chegar, encontra seu palácio tomado por pretendentes que disputam a mão de Penélope e desperdiçam suas riquezas. Sua chegada restabelece a ordem e a justiça.
A fidelidade também é destacada por Homero quando Penélope espera por vinte anos e Telêmaco cresce sem conviver com o pai. A reunião da família simboliza a permanência dos laços afetivos, apesar da distância e do tempo.
A Ilíada pergunta:
“como um homem deve agir diante da guerra, da honra e da morte?”
A Odisseia pergunta:
“como um homem deve agir para encontrar o caminho de casa e reencontrar a si mesmo?”
Num significado filosófico profundo, a Ilíada e a Odisseia podem ser compreendidas como grandes metáforas da vida humana. Todos nós atravessamos conflitos, distâncias, ilhas, ciclopes, tempestades, sereias, dificuldades, perigos e seduções que podem nos desviar dos nossos caminhos.
Tais desafios foram traçados por Homero ou pela tradição oral das narrativas do mundo antigo, como exaltação às virtudes humanas, cultuadas desde a evolução da humanidade.
A história da Guerra de Tróia é um mosaico construído ao longo de séculos pela tradição oral, pelos poetas do Ciclo Épico, pelos dramaturgos gregos e, mais tarde, por Virgílio. Nenhum autor contou, sozinho, toda essa história.
A guerra de Troia pode ser compreendida como resultado de vaidades, orgulho, interesses econômicos e disputas pelo poder, alertando, porém, para a importância das virtudes humanas.
Vivemos um mundo divergente, pleno de vaidades, ambições, interesses materiais e guerras que nos proporcionam descaminhos e tristezas, todavia oferecem ensinamentos.
A guerra de Troia representa os conflitos da condição humana com dificuldades, desafios, e a ilha de Ítaca simboliza o destino que oferece sentido à nossa existência.
Talvez seja essa a razão pela qual, depois de 32 séculos, continuamos a ler Homero: porque seus heróis mudaram de nome, mas os conflitos da alma humana permanecem os mesmos.
Enquanto houver guerras motivadas pelo orgulho, vaidades, famílias separadas pela distância, homens em busca de honra e pessoas procurando o caminho de volta para si mesmas, a Ilíada e a Odisseia continuarão sendo obras do nosso tempo.
Foto em destaque: Odisseu e as sereias. Pintura em vaso ático (c.480 – 470 a.C.). Museu Arqueológico Nacional. Nápoles, Itália.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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