Publicado em: 9 de agosto de 2026
Em maio de 2012, o desaparecimento de Marcos Matsunaga, executivo de uma das maiores empresas de alimentos do país, transformou-se em um dos crimes mais acompanhados pela imprensa brasileira. Dias depois, a investigação revelou que ele havia sido morto pela própria esposa, Elize Matsunaga. Ela confessou ter atirado contra o marido e, posteriormente, ter esquartejado o corpo e ocultado seus restos. O caso reunia elementos que, juntos, pareciam forjados para alimentar a curiosidade pública: dinheiro, casamento, infidelidade, ciúme, diferença social, violência, uma mulher acusada de matar o marido e a tentativa de ocultar o cadáver.
Elize foi presa e o caso percorreu, durante anos, os caminhos da investigação, da imprensa e da Justiça. No julgamento, realizado em 2016, ela foi condenada por homicídio qualificado e outros crimes relacionados à ocultação do cadáver. A discussão pública, entretanto, nunca se limitou à pergunta sobre quem matou Marcos Matsunaga. A história produziu outras perguntas, mais incômodas e mais difíceis: o que acontecia dentro daquela relação? O que havia antes do disparo? O que levou aquela mulher àquela noite? E até onde a história anterior de uma pessoa pode ajudar a compreender um crime sem transformar compreensão em absolvição?
Em 2021, o caso ganhou uma nova existência no imaginário brasileiro com a série documental da Netflix, Elize Matsunaga: Era uma vez um crime. Em quatro episódios, a produção revisita o assassinato, acompanha diferentes versões dos acontecimentos e apresenta a primeira entrevista de Elize sobre o caso. A própria estrutura da série conduz o espectador por questões que permaneceram abertas durante anos: o relacionamento do casal, a possibilidade de premeditação, a confissão, o esquartejamento, o julgamento e a vida de Elize antes do crime.
O documentário apresenta um crime e, ao mesmo tempo, a construção de uma personagem. Elize perde a efígie de pessoa e é ressignificada como mulher diante de um processo criminal. Ela passa a existir em um corpo público dentro da narrativa do processo. Sua fotografia circula, sua voz é ouvida, sua infância é revisitada, seu casamento é reconstruído, suas escolhas são examinadas e sua personalidade é submetida ao júri popular difuso de milhões de espectadores. A tragédia privada transforma-se em cena pública.
Mais de uma década depois, o caso continua retornando à sociedade sob diferentes formas. A televisão, os documentários, os jornais e, agora, o cinema reabrem uma história que parecia encerrada. Elize: Sombras de uma Mulher, produção da Netflix, retoma esse episódio e coloca novamente em cena a mulher que se tornou uma das personagens mais conhecidas da memória criminal brasileira contemporânea. O filme não encontra um caso novo, mas abre espaço para outra voz e para novas maneiras de olhar para o caso antigo.
Existe algo particularmente perturbador no fascínio provocado por esse caso. É mais do que um homem assassinado por sua mulher. É, sobretudo, uma mulher que atravessou a fronteira que a cultura, durante séculos, reservou quase exclusivamente aos homens: a fronteira da violência física extrema. A tradição cultural legou às mulheres personagens perversas associadas a crimes sutis, pequenos sortilégios e venenos insidiosos. A violência bruta, entretanto, permaneceu quase sempre associada aos homens.
O que causa fascínio não é apenas o assassinato, mas a inversão de uma expectativa cultural sobre quem pode ocupar o lugar de agente da violência.
Conhecemos a figura do homem violento. Ela está presente na literatura, no cinema, nos jornais, nas histórias familiares e na memória de inúmeras mulheres. O homem que ameaça, agride, controla, persegue ou mata pertence a um repertório antigo e reconhecível. A mulher que mata produz outro tipo de espanto e rompe uma expectativa profundamente arraigada sobre aquilo que uma mulher deveria ser. Da mulher espera-se que cuide, proteja, suporte, perdoe, preserve os vínculos e mantenha a casa de pé quando tudo ao redor ameaça desabar. A violência praticada por uma mulher é mais do que um crime: é uma ruptura da imagem cultural da feminilidade.
Eis uma das razões pelas quais a história de Elize Matsunaga adquiriu tamanha repercussão. O caso foi extraordinário. A violência contra as mulheres, entretanto, não é. Esta é uma velha conhecida da intimidade e da cena pública.
Enquanto milhões de pessoas acompanhavam pela televisão, pelos jornais e, posteriormente, pela Netflix, a história daquela mulher que matou o marido, outras mulheres continuavam vivendo situações de violência dentro de suas próprias casas. Algumas sofriam ameaças. Outras eram controladas financeiramente. Algumas eram isoladas de amigos e familiares. Outras aprendiam a reconhecer, pelo tom de uma voz ou pelo modo como uma porta era fechada, que uma nova agressão poderia estar próxima.
É nesse contraste que a história de Elize Matsunaga deixa de ser apenas a história de um assassinato. Ela passa a ser uma pergunta sobre nós. Por que uma mulher que mata um homem provoca tamanho fascínio em uma sociedade que há séculos convive com a violência masculina contra as mulheres? Por que a violência sofrida diariamente por tantas mulheres consegue produzir tão pouco espetáculo?
O caso de Elize não oferece uma resposta simples. É por isso que continua sendo contado. Uma mulher sofre violência durante anos. A violência entra em sua rotina, a humilhação se acomoda dentro de casa, o medo passa a acompanhar os gestos mais simples. Ela aprende a medir as palavras, a antecipar o humor do outro, a reconhecer no silêncio os sinais de uma tempestade. Aprende a perceber mudanças de voz, portas batendo, objetos quebrados, ameaças disfarçadas de brincadeira e pedidos de desculpa acompanhados pela promessa de mudança. Quando finalmente surge a agressão física, uma longa história de violência já aconteceu.
Quando a história chega ao cinema, o público comparece em massa. A tragédia transforma-se em espetáculo, o crime ganha roteiro, personagens, entrevistas, julgamentos e audiência. Há um fascínio coletivo diante daquela história. Uma mulher matou um homem. E não matou qualquer homem. Matou um homem rico, poderoso, socialmente protegido pelo lugar que ocupava. A história de Elize Matsunaga atravessou as páginas policiais e entrou no imaginário popular. Virou arte. Sublimou-se.
Um homicídio continua sendo um homicídio. A violência sofrida anteriormente precisa ser compreendida dentro de sua própria história. A dor pode explicar uma trajetória e ajudar a compreender determinadas escolhas. A responsabilidade jurídica e social pelo ato permanece. Compreender uma pessoa exige olhar para tudo aquilo que a conduziu até determinado momento, inclusive para as circunstâncias que antecederam o crime.
Elize cumpriu a pena que lhe foi imposta pela Justiça e recuperou a liberdade, mas a catarse pública em torno do fato atravessou o limiar entre a vida e a arte e imortalizou-se no imaginário coletivo. A pena jurídica teve um fim. A personagem pública, entretanto, permaneceu.
Existe uma pergunta importante escondida nessa história: por que a morte de um homem pelas mãos de uma mulher produz tamanho espanto? A sociedade aprendeu durante séculos a imaginar a violência masculina como parte da ordem social. O homem agressivo ocupa um lugar conhecido dentro do imaginário coletivo. A mulher agressiva rompe uma expectativa construída ao longo de gerações.
É nesse ponto que a história de Elize Matsunaga ultrapassa o próprio crime. Ela revela uma sociedade ainda desconfortável diante da mulher que atravessa os limites que lhe foram historicamente impostos. Durante séculos, a violência contra as mulheres foi escondida atrás de palavras aparentemente inocentes: marido, honra, ciúme, paixão, disciplina, desentendimento, crime passional.
Muitas mulheres morreram sem que a sociedade encontrasse uma palavra capaz de nomear aquilo que havia acontecido. Em 2026, completam-se 20 anos da Lei nº 11.340/2006, a Lei Maria da Penha, marco fundamental no reconhecimento e no enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher. Anos depois, a legislação brasileira também passou a reconhecer o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio. Nomear uma violência significa mais do que classificá-la juridicamente. É retirá-la do silêncio, reconhecer sua existência e revelar as estruturas de desigualdade, dominação e violência de gênero que podem estar por trás dela.
Retomando o raciocínio, a história de Elize torna ainda mais interessante o fascínio provocado por uma mulher que mata um homem. A morte praticada por uma mulher produz uma imagem incomum dentro do repertório cultural. A sociedade reconhece imediatamente a excepcionalidade do acontecimento. O caso ganha espaço, personagens, versões, documentários, filmes e discussões intermináveis.
A violência contra a mulher possui outra trajetória dentro da memória coletiva. Sua repetição produz familiaridade. O feminicídio aparece no noticiário, ocupa algumas linhas, provoca indignação durante algumas horas e desaparece sob o peso das notícias seguintes. A repetição transforma acontecimentos extraordinários em rotina. A morte deixa de interromper o cotidiano e passa a integrar o fluxo das informações.
O cinema percebe aquilo que a sociedade aprendeu a consumir. A tragédia individual transforma-se em narrativa. O sofrimento ganha personagens, roteiro e dramaticidade. O crime adquire uma dimensão cultural que ultrapassa os autos de um processo. O público acompanha a história, formula julgamentos, escolhe versões, procura explicações e transforma pessoas reais em personagens de uma história coletiva.
A história de uma mulher que mata um homem provoca fascínio em uma sociedade na qual milhares de mulheres ainda convivem diariamente com diferentes formas de violência. A atenção pública concentra-se na excepcionalidade do acontecimento. A violência cotidiana permanece dispersa, silenciosa e muitas vezes invisível.
A civilização construiu leis, tribunais, códigos e instituições para conter a violência. Desenvolveu conceitos destinados a distinguir justiça, vingança e punição. Criou procedimentos para estabelecer responsabilidades e limites. Esse longo processo civilizatório também convive com heranças profundas de uma cultura que, durante séculos, tolerou a violência praticada contra mulheres dentro das relações familiares.
A violência doméstica possui uma perversidade particular. Ela acontece dentro do espaço destinado à intimidade e à proteção. O agressor já está dentro da casa. Muitas vezes, a primeira violência sequer deixa marcas visíveis. Ela aparece no controle do telefone, na vigilância, no isolamento, na ameaça, na humilhação, no dinheiro controlado, na amizade proibida, na roupa criticada e na destruição gradual da autoestima.
Quando finalmente surge a agressão física, uma longa história já aconteceu. O corpo recebe a marca de uma violência que começou muito antes. A mulher frequentemente aprendeu a reconhecer pequenas alterações de comportamento, mudanças de voz, portas batendo, objetos quebrados, ameaças disfarçadas de brincadeira e pedidos de desculpa acompanhados pela promessa de mudança.
Discutir casos como o de Elize Matsunaga exige atenção às circunstâncias concretas do homicídio. O que aconteceu antes? Qual era a relação entre aquelas pessoas? Existia violência anterior? Houve planejamento? Quais foram as circunstâncias daquele momento? Quais escolhas foram feitas? Essas perguntas pertencem à Justiça, que deve examinar fatos, provas, circunstâncias e responsabilidades.
Existe também uma pergunta dirigida à sociedade. Por que algumas formas de violência permanecem tão presentes no imaginário coletivo? A violência masculina possui uma longa história cultural. A violência feminina é uma transgressão de expectativas profundamente arraigadas. O homem violento ocupa um personagem conhecido. A mulher violenta provoca uma ruptura na imagem tradicional da feminilidade.
A mulher que mata desperta curiosidade porque atravessa uma fronteira cultural. A expectativa social associada à feminilidade foi construída em torno do cuidado, da proteção, da maternidade, da conciliação e da capacidade de suportar. A violência rompe essa representação. O choque nasce também dessa ruptura.
A história de Elize Matsunaga não precisa ser transformada em uma narrativa de vingança e talião. A mulher que sofre violência continua responsável por suas escolhas. A violência sofrida continua merecendo reconhecimento. As duas dimensões pertencem à mesma história e precisam ser examinadas com seriedade.
A realidade humana possui muitas camadas. Uma pessoa pode sofrer e causar sofrimento. Pode carregar medo, ressentimento, amor, dependência, raiva e desespero dentro da mesma experiência. A vida não oferece personagens perfeitamente definidos. Existem trajetórias marcadas por contradições, relações de poder e decisões tomadas em momentos extremos.
O espetáculo prefere personagens simples e maniqueístas. A sociedade encontra conforto em histórias com culpados e inocentes perfeitamente identificados. A realidade oferece pessoas. Pessoas feridas, contraditórias, capazes de amor e crueldade, medo e coragem, submissão e violência. A complexidade desaparece quando uma vida real é transformada em espetáculo.
É por isso que histórias como a de Elize Matsunaga permanecem durante tanto tempo na imaginação coletiva. O caso reúne dinheiro, poder, intimidade, violência, crime, gênero e mistério. A mulher que mata um homem torna-se uma personagem cultural. Sua história passa a ser contada, reinterpretada e consumida por diferentes gerações.
O feminicídio continua acontecendo longe das câmeras. Acontece na cozinha, no quarto, na rua, no carro, no apartamento. Acontece diante dos filhos. Acontece depois de ameaças ignoradas, depois de pedidos de ajuda, depois de boletins de ocorrência. Muitas vezes acontece depois de anos de violência.
No dia seguinte, o mundo continua. O café abre, os carros circulam, as pessoas trabalham, as escolas funcionam, as telas exibem novas notícias. A morte de uma mulher é absorvida rapidamente pelo movimento cotidiano. O silêncio volta a ocupar o espaço deixado pela notícia.
Essa familiaridade merece atenção. A sociedade aprendeu a conviver com determinadas formas de violência como quem ignora um ruído permanente e se torna indiferente ao incômodo. O feminicídio continua produzindo dor, mas sua repetição reduz sua capacidade de interromper a rotina. Cada caso recebe um nome, uma fotografia, uma manchete, algumas horas de atenção e um número na estatística.
O avanço civilizatório está na capacidade de impedir que mulheres cheguem ao limite da violência. Uma sociedade madura precisa reconhecer os sinais anteriores ao crime, proteger as vítimas, responsabilizar os agressores e criar caminhos reais para que uma mulher consiga abandonar uma relação violenta.
Imagino aqui um roteiro para a história que merece ocupar o centro da nossa atenção: a história da mulher que consegue sair antes do episódio letal, a história da denúncia que encontra resposta, da ameaça que é levada a sério, da vítima que recebe proteção, da criança que cresce sem aprender a confundir amor com medo.
Essa história produz menos espetáculo. Possui menos sangue, menos audiência e menos fascínio. Possui, porém, aquilo que uma sociedade deveria buscar quando fala de violência: a possibilidade de interrompê-la.
Elize Matsunaga permanece no imaginário coletivo. A mulher que matou um homem. Ao redor dessa história existe uma pergunta maior sobre a maneira como a sociedade olha para a violência, para as mulheres, para os homens e para os limites daquilo que considera excepcional. O feminicídio de todos os dias permanece esperando que essa pergunta seja levada a sério.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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