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Fogo na Babilônia! Andrei Rodrigues caiu do comando da Polícia Federal nesta terça-feira (8), e não foi o presidente da República, que é quem nomeia e quem exonera o diretor-geral da corporação, quem mandou. Foi André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal. Rodrigues é o primeiro diretor-geral da PF em exercício a ser afastado por decisão do Supremo.

O afastamento foi ao plenário virtual da Segunda Turma às 10h desta terça-feira (8), para receber o aval dos outros ministros. Em nove minutos, três já tinham votado com Mendonça. Gilmar Mendes, o decano, pediu mais tempo para analisar e congelou o julgamento. A ordem segue valendo enquanto o caso está parado.

Quem responde pela PF nesse intervalo é William Marcel Murad, diretor-executivo da corporação desde janeiro de 2025 e número dois da estrutura. Ele assumiu porque o regimento interno manda o diretor-executivo substituir o diretor-geral nas ausências e nos impedimentos.

Para entender como um ministro do Supremo chegou ao ponto de mexer no comando da polícia é preciso voltar uma semana, quando Mendonça abriu um relatório que estava sob sigilo e o país inteiro pôde olhar para dentro. Antes disso, vale saber quem é quem nessa briga.

Quem tá na roda

De um lado, André Mendonça, ministro do STF. É ele quem hoje comanda a investigação sobre o Banco Master, aquele que quebrou e deixou um rombo estimado em quase R$ 40 bilhões.

Do outro, Alexandre de Moraes, também ministro do STF, colega de Mendonça na mesma Segunda Turma. Os dois se sentam na mesma mesa e estão trocando acusações públicas.

No meio, Andrei Rodrigues, delegado de carreira, chefe da Polícia Federal desde janeiro de 2023, homem de confiança do governo Lula. Foi ele quem levou a voadora.

Ao fundo, Daniel Vorcaro, banqueiro, dono do Master, preso preventivamente. É por causa da investigação sobre ele que a casa pegou fogo.

E tentando apagar o incêndio, Edson Fachin, presidente do STF.

O que fez o negócio feder

Dia 1º de setembro, Mendonça tirou o sigilo de um relatório de 218 páginas que a Polícia Federal tinha entregue no fim de agosto. Dentro dele estava a reconstituição da relação entre Vorcaro e Xandão. Jantar com as esposas em fevereiro de 2024, encontros em novembro do mesmo ano, conversas de WhatsApp em boa parte apagadas pelo modo de visualização única. No mesmo pacote aparecem os contratos milionários que o grupo do banqueiro assinou com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, casada com o ministro.

Vale reparar que o relatório tem 218 páginas, e o que Mendonça abriu é quase todo sobre um nome só. São 181 páginas a respeito do contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA” e outras 18 sobre o procurador-geral Paulo Gonet e o próprio Andrei Rodrigues, segundo levantamento da Agência Pública. O que diz respeito às demais autoridades citadas na apuração seguiu sob sigilo. É esse recorte que a Procuradoria-Geral da República contesta ao pedir a nulidade do relatório, e é sobre ele que pesa a pergunta levantada pela Pública, a de por que esse pedido foi feito agora, a um mês das eleições.

O caso Master alcança o entorno de Jair Bolsonaro. Um relatório do Coaf revelado pela revista piauí em 1º de setembro aponta pelo menos sete remessas de Vorcaro somando US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 65 milhões, ao fundo estadunidense Havengate, administrado por Eduardo Bolsonaro, que financiou o longa Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente. Flávio Bolsonaro afirmava publicamente que os repasses tinham cessado em maio de 2025, e os registros apontam transferências em setembro e outubro daquele ano, uma delas oito dias depois de uma conversa entre o banqueiro e o senador. Até agora não foi estabelecida relação das investigações que correm sobre Flávio com o esquema do Master, como já registrou decisão da 16ª Vara Cível de Brasília.

O troco veio num tapa

Na quinta-feira, Alexandre de Moraes revidou. Pediu que Mendonça fosse investigado, com base em relatórios de inteligência da própria Polícia Federal que, segundo ele, apontavam irregularidade na conduta do colega. A acusação não é pequena. Os textos falam em tomar para si a direção das investigações, conduzir de forma irregular as tratativas de delação premiada e direcionar apuração por interesse pessoal e político. Moraes apontou indícios de crime de responsabilidade, abuso de poder e improbidade administrativa.

Tem um detalhe nessa onda. Esses relatórios não têm assinatura nem brasão oficial da PF. São papéis sem carimbo. Moraes disse que não mandou produzir nada, que apenas soube que existiam e determinou o envio, sem contar como ficou sabendo.

Na sequência, Moraes colocou Mendonça dentro do inquérito das fake news. Fachin desfez a medida logo depois.

O império contra-ataca

Foi aí que Mendonça foi para o tudo ou nada. Ele afirma que descobriu ter sido vigiado pela área de inteligência da PF por mais de trinta dias. São seis relatórios produzidos entre 3 e 31 de agosto, acompanhando a atuação dele e a relação dele com o advogado-geral da União, Jorge Messias, que também aparece nos documentos.

“Trata-se de monitoramento ilícito de Ministro da Suprema Corte do país, o que por si só revela a gravidade da situação”, escreveu.

Um dos relatórios levantava a suposição de que Messias teria deixado de recorrer em certo processo para preservar a relação política com Mendonça. O próprio documento admitia que a confiança nessa linha de raciocínio era baixa. Mesmo assim, autorizava por escrito “monitoramento e coleta dirigida”, a expressão que Mendonça usou para sustentar que houve, sim, vigilância sobre ele.

Com esse argumento, tirou Andrei Rodrigues do cargo, afastou o diretor de Inteligência Policial da PF, Leandro Almada da Costa, e mandou a corregedoria da corporação descobrir quem escreveu os tais relatórios e quando.

Mendonça mandou suspender a produção, a elaboração e o compartilhamento, mesmo interno, de qualquer relatório de inteligência que trate da conduta de ministras e ministros do STF. A ordem alcança também o que diga respeito ao advogado-geral da União.

Na decisão, o ministro escreveu que a “ascendência hierárquica” de Rodrigues dentro da corporação “tem grande potencial de influir nas apurações internas”. Ele decidiu sem ouvir antes a Procuradoria-Geral da República, que costuma se manifestar em medidas desse porte. A PGR só foi comunicada depois.

O julgamento the flash

A decisão de um ministro sozinho precisa passar pelo aval da turma. Foi o que aconteceu na manhã desta terça, no plenário virtual, que é aquele sistema em que quem julga vota por escrito, sem sessão presencial e sem debate ao vivo.

Às 10h, Mendonça votou para manter a própria decisão. Gilmar Mendes pediu vista logo em seguida, que é o direito de levar o processo para casa e estudar com calma. Isso trava o julgamento. Luiz Fux e Kassio Nunes Marques votaram assim mesmo, os dois acompanhando Mendonça. Tudo isso em nove minutos.

Deu três a zero, mas placar travado não vale. Gilmar tem até 90 dias para devolver o caso. Quando devolver, quem já votou pode até mudar de ideia. Falta ainda Dias Toffoli, que foi relator do caso Master até fevereiro e vem se declarando impedido em tudo que envolve a investigação desde que largou a relatoria.

Os dois que votaram com Mendonça

O placar não se formou por acaso. Fux, Nunes Marques e Mendonça vêm votando juntos nos casos de maior temperatura política do Supremo.

Luiz Fux foi indicado por Dilma Rousseff em 2011 e passou anos na Primeira Turma, a que julgou a trama golpista. No julgamento de setembro de 2025, foi o único dos cinco a votar pela absolvição de Jair Bolsonaro. Os outros quatro condenaram. Em outubro daquele ano, pediu para trocar de turma, autorizado por Fachin, e desembarcou justamente na Segunda, onde já estavam Mendonça e Nunes Marques.

Kassio Nunes Marques foi a primeira indicação de Bolsonaro ao Supremo, em 2020. É voto recorrente na ala que diverge de Moraes nos processos do 8 de janeiro.

O exemplo mais recente da trinca é de maio deste ano. Em sessão virtual encerrada no dia 13, Fux, Nunes Marques e Mendonça votaram pela absolvição de 20 réus do 8 de janeiro, sustentando que faltava individualização das condutas e que o caso nem deveria estar no STF. Ficaram vencidos por 7 a 3 no plenário.

E pode isso?

Aqui está o nó da história. Quem nomeia e quem demite o chefe da Polícia Federal é o presidente da República. Está na Constituição. A PF é órgão do Poder Executivo, e o STF é outro poder.

O que o Judiciário já tinha feito antes foi barrar uma nomeação. Em 29 de abril de 2020, Moraes suspendeu a posse de Alexandre Ramagem no comando da PF, horas antes da cerimônia, apontando possível desvio de finalidade na escolha feita por Jair Bolsonaro. Bolsonaro recuou e tornou a nomeação sem efeito.

Só que impedir alguém de entrar é uma coisa. Tirar do cargo quem já está lá dentro, empossado e trabalhando, é outra bem diferente. Andrei Rodrigues é o primeiro diretor-geral da PF em exercício afastado por decisão do STF.

A medida está sendo contestada no campo jurídico. O jurista Wálter Fanganiello Maierovitch, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, classificou a decisão como “perigosa”, “inconstitucional”, “arbitrária” e “ilegal”. O argumento dele é o da separação de poderes. A Polícia Federal funciona como polícia judiciária e auxilia o Judiciário, mas pertence ao Executivo e não é subordinada a juízas e juízes.

A Advocacia-Geral da União já anunciou que vai recorrer. O argumento é o mesmo, de que Mendonça invadiu competência que pertence só ao presidente da República. Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de Lula em São Paulo, chegou a defender que o governo recorra antes de cumprir a decisão e sugeriu avaliar a convocação do Conselho da República. Ainda não sabemos se o Planalto já decidiu o que vai fazer.

A PGR no meio do rock doido

A Procuradoria-Geral da República não ficou nem com um lado nem com o outro. Paulo Gonet pediu a nulidade do relatório da PF, sustentando que a investigação não podia ter andado daquele jeito sem pedido do Ministério Público. Disse também que percebeu esforço para buscar indicativos de envolvimento de Moraes em ilícitos.

No que isso vai dar

Três coisas ficaram em aberto. A primeira é o pedido de vista de Gilmar Mendes, que pode segurar o caso por até 90 dias. A segunda é o recurso que a AGU vai apresentar. A terceira é a apuração que Fachin conduz sobre o conflito entre os dois ministros.

Na semana passada, Fachin abriu prazo para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e Andrei Rodrigues se manifestem sobre o episódio. Na sexta-feira (4), em evento no Palácio do Planalto, disse que a resposta institucional será “firme e rigorosa”. Essa apuração começou antes do afastamento.

“Nenhuma autoridade está acima da Constituição. Nenhum Poder está acima da lei. Nenhum interesse circunstancial pode se sobrepor à integridade do Estado democrático de direito”, disse.

Vorcaro segue preso preventivamente. O Banco Central liquidou o Master em 18 de novembro de 2025, um dia depois de a PF prender o banqueiro no aeroporto de Guarulhos. A Operação Compliance Zero apura a venda de carteiras de crédito sem lastro ao Banco de Brasília. Ele ainda não é réu em nenhuma ação penal.

Capítulos novos não param de chegar

Onze das quinze diretorias da Polícia Federal divulgaram nota de apoio a Andrei Rodrigues e a Leandro Almada e colocaram os cargos à disposição de William Marcel Murad. O documento trata as acusações contra os dois como ataques injustificados. “Para que fique absolutamente claro, repudiamos toda e qualquer tentativa de imputar a eles ou à Polícia Federal uma atuação não republicana. Tais acusações, desprovidas de fundamento, afrontam a história, a credibilidade e o compromisso institucional que sempre pautaram suas condutas. Neste ato, colocamos nossos cargos à disposição do Diretor-Geral substituto”, diz o texto.

Assinam Dennis Cali, do combate ao crime organizado e à corrupção, Fabrício Schommer Kerber, da polícia administrativa, Otavio Margonari Russo, dos crimes cibernéticos, Felipe Tavares Seixas, da cooperação internacional, Helena de Rezende, da gestão de pessoas, Roberto Reis Monteiro Neto, da diretoria técnico-científica, André Luis Lima Carmo, da administração e logística, Christiane Correa Machado, do ensino na Academia Nacional de Polícia, Alexsander Castro de Oliveira, da proteção à pessoa, Ademir Dias Cardoso Júnior, da tecnologia da informação, e Humberto Freire de Barros, da diretoria da Amazônia e Meio Ambiente. Ficaram de fora da lista a corregedora-geral, Aletea Vega Marona Kunde, e o próprio Murad, além dos dois afastados.

É, galera. Quem for podre que se quebre.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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