Publicado em: 14 de julho de 2026
No dia 27 de junho, seria aniversário de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores da língua portuguesa e uma das figuras centrais da literatura brasileira do século XX. Diplomata, médico e poliglota, transformou profundamente a prosa brasileira ao reinventar a linguagem literária, aproximando-a da oralidade popular, dos regionalismos e da invenção vocabular.
Parei um pouco para pensar que alguns escritores pertencem a uma geografia essencial. Graciliano Ramos, por exemplo, pertence à secura. Jorge Amado, ao sal. João Cabral de Melo Neto, à pedra. Guimarães Rosa, ao sertão. Ao sertão cartográfico de Minas Gerais apenas e ao sertão metafísico: território em que a linguagem vacila diante da vastidão do mundo.
Agora imagine se o Rosa tivesse nascido à margem de um grande rio amazônico. Menino ainda, diante do Amazonas pela primeira vez, contemplando aquela água sem horizonte fixo, aquela superfície imóvel em aparência e infinita em profundidade. O Amazonas, por exemplo, além de um rio, seria uma dimensão líquida do tempo.
Parte da literatura brasileira talvez tivesse mudado de curso sobre o dorso lento das águas do gigante amarelo. Rosa perceberia imediatamente um dado fundamental da Amazônia: aqui, a realidade nunca se encerra naquilo que mostra. A floresta produz excesso: de água, de silêncio, de vozes, de sombra, de nomes. Tudo transbordaria a própria forma. O rio não constitui meramente paisagem, mas destino, memória, alimento, ameaça, calendário. A chuva cai e reorganiza existências. A água infiltra o chão, o ar, a madeira das casas, a respiração humana. Em certos lugares à margem do rio, até o silêncio parece úmido.
Guimarães Rosa amaria esse excesso vital. Ele já escrevia como quem suspeitava da insuficiência das palavras comuns. Na Amazônia, encontraria um universo linguísticoaquático e úmido inesgotável. Igarapés, paranás, ressacas, furos, beiradões: a própria geografia amazônica parece nascer em estado de invenção verbal. Também os peixes carregam densidade narrativa nos nomes: tambaqui, pirarucu, mapará, tucunaré,palavras sonoras, antigas, quase míticas.
Não demoraria para que Rosa percebesse que a Amazônia já possuía uma tradição literária própria, construída por escritores que transformaram rios, florestas e populações ribeirinhas em matéria de criação estética. Encontraria em Inglês de Sousaum dos pioneiros da representação ficcional da região, cuja observação da vida amazônica inaugurou um naturalismo profundamente marcado pelas águas e pela floresta; em Dalcídio Jurandir, a humanidade silenciosa e complexa das ilhas do Marajó; em Leandro Tocantins, a interpretação da civilização amazônica em uma cultura moldada pelos rios; e em Benedicto Monteiro, a oralidade cabocla convertida em literatura de alta densidade poética.
Rosa provavelmente não competiria com essa tradição; dialogaria com ela, oferecendo sua extraordinária capacidade de reinventar a língua portuguesa. O resultado seria uma Amazônia menos descrita do que recriada, em que a floresta deixaria de ser apenas paisagem para tornar-se linguagem, filosofia e destino.
Rosa ouviria os canoeiros soturnos e ensimesmados como quem escuta filósofos ancestrais. O amazônida não descreve o rio como elemento exterior, porque o rio participa da pessoa: ele organiza o humor, a infância, a economia doméstica, a saudade. Quem nasce na Amazônia aprende cedo a instabilidade do espaço. A água sobe, invade, recua, altera caminhos, desfaz limites. Há comunidades parcialmente submersas durante meses. Casas aprendem a flutuar e homens conhecem correntes com a intimidade de quem conhece ruas labirínticas.
Isso fascinaria o Rosa: uma civilização erguida em negociação permanente com a natureza líquida, úmida e infinita. No sertão mineiro, seus personagens atravessam veredas secas e enfrentam a dureza mineral da terra. Na Amazônia, atravessariam rios intermináveis em embarcações estreitas movidas por motores fatigados de resignação paciente. O jagunço rosiano se transformaria em piloto de rabeta, cortando os remansos d’água. O cavalo daria lugar à canoa. O diabo deixaria as encruzilhadas poeirentas para surgir silenciosamente na curva de um igarapé ao entardecer.
Rosa perceberia outra característica decisiva da Amazônia: aqui, o sobrenatural jamais abandonou inteiramente a vida cotidiana, porque faz parte dela. A matinta, o boto, a cobra-grande e os encantados coexistem com a rotina sem ruptura visível. O fantástico não interrompe a realidade; integra sua estrutura profunda. Essa convivência entre mistério e cotidiano dialogaria intensamente com a escrita rosiana, sempre atraída pelas regiões ambíguas da existência. Rosa encontraria na Amazônia uma imaginação ainda não inteiramente submetida ao racionalismo urbano. Um mundo em que o invisível continua produzindo consequências concretas.
Também os mercados o encantariam. É difícil imaginar Rosa atravessando o Ver-o-Peso, lá na capital do Pará, sem reconhecer ali uma síntese sensorial do Brasil. O cheiro do tucupi, a densidade escura do açaí, as ervas medicinais, os peixes expostos como criaturas arcaicas, o vocabulário popular circulando entre bancas e embarcações… Tudolhe pareceria linguagem em estado puro.
Ele escreveria páginas inteiras sobre a farinha, por excentricidade gastronômica e por perceber sua centralidade simbólica. A farinha amazônica organiza hábitos, ritmos, pertencimentos. Existe algo profundamente amazônico no gesto de lançá-la sobre o peixe, sobre o açaí, sobre quase tudo. Rosa transformaria esse gesto em imagem de permanência: a tentativa humana de criar estabilidade em meio à fluidez incessante das águas, mas não como José Veríssimo, que descrevia o homem da Amazônia naturalisticamente comendo a farinha de arremesso. À sua maneira inventiva própria.
Sobretudo, Rosa traduziria a Amazônia por alguma linguagem insólita.. A floresta, os rios e as populações ribeirinhas apareceriam nas formas brasileiras de pensamento. Não cenário distante, mas inteligência do mundo. Rosa perceberia filosofias inteiras escondidas na oralidade amazônica: uma ética da convivência com a natureza, uma ciência intuitiva das águas, uma percepção temporal avessa à ansiedade urbana.
Na Amazônia profunda, ninguém imporia urgência ao rio. O rio ignoraria relógios humanos. Talvez resida aí a proximidade profunda entre o sertão rosiano e a Amazônia. Ambos permanecem vastos o suficiente para relativizar o homem. Ambos preservam linguagens ainda vivas, inventivas, parcialmente indomáveis. Ambos obrigam o ser humano a confrontar aquilo que nele existe de provisório, pequeno e misterioso.
No fundo, Rosa descobriria que sertão e Amazônia compartilham a mesma vocação para o infinito. Um infinito de terra e silêncio mineral. Outro de água, sombra e excesso.Diante do Amazonas, talvez dissesse apenas o essencial: o rio não passa. É a gente que passa dentro dele.
REFERÊNCIAS
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 52. ed. São Paulo: Cultrix, 2017.
CANDIDO, Antonio. Tese e antítese. 6. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 6. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.
COUTINHO, Eduardo F. (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
JURANDIR, Dalcídio. Chove nos campos de Cachoeira. Belém: EDUFPA, 1995.
MONTEIRO, Benedicto. Verde vagomundo. Belém: Cejup, 1972.
NUNES, Benedito. O dorso do tigre. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.
SOUZA, Inglês de. Contos amazônicos. Belém: EDUFPA, 2004.
TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia. 9. ed. Manaus: Valer, 2000.
VERÍSSIMO, José. Cenas da vida amazônica. Belém: EDUFPA, 2007.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista







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