Publicado em: 24 de setembro de 2026
Uma tentativa de biografia de Howard T. Odum e da eMergia, o conceito que resolveu medir o que o dinheiro finge não ver
Há uma pergunta que a economia ocidental cultiva com o cuidado de quem esconde uma ferida: quanto vale uma coisa antes de ela ser vendida? A pergunta parece simples, quase ingênua, de uma simplicidade desarmante — mas cada civilização a responde à sua maneira, e a nossa consistiu, durante três séculos, em desviar o olhar. Um contador de histórias de outra época teria dito que o valor nasce do trabalho; um economista neoclássico responde que nasce do encontro entre escassez e desejo; um financista, que nasce do que alguém está disposto a pagar, e ponto final. Nenhum deles, porém, consegue responder o que acontece com o valor de uma floresta quando ela é derrubada e ninguém está disposto a pagar por ela em pé. É aí que entram dois ilustres desconhecidos: um homem chamado Howard Thomas Odum e a palavra que ele inventou — eMergia, escrita com m, como quem deixa uma cicatriz na própria linguagem para que ninguém a confunda com a energia comum.
A injustiça da memória pública é caprichosa. Há cientistas cujos nomes viram sinônimo de suas descobertas e outros cujas descobertas desaparecem dentro de suas próprias obras, como rios que se afogam no mar. Odum pertence à segunda espécie, e ainda assim — ou talvez por isso — a sua ideia atravessa silenciosamente as fronteiras da ecologia, da economia e da física, contaminando debates que jamais citarão o seu nome. Este ensaio é uma tentativa de devolvê-lo à superfície, apoiando cada passo naquilo que ele mesmo escreveu: contar a história do homem, reconstituir a invenção, examinar seus usos e suas feridas e, ao final, perguntar por que uma teoria dos anos 1990 se tornou, contra todas as aparências, uma das mais urgentes do nosso tempo. É um ensaio sobre um contador que tentou abrir a caixa registradora em que a natureza entra como serviço gratuito — e sobre o escândalo que essa singela mudança de método provocou.
O filho da sociologia que decidiu escutar a floresta
Toda biografia tem um primeiro cômodo onde a luz acende. No caso de Howard Thomas Odum, esse cômodo foi a casa de Chapel Hill, na Carolina do Norte, onde ele nasceu em 1º de setembro de 1924. O pai, Howard Washington Odum, era professor de sociologia na Universidade da Carolina do Norte — um dos fundadores da sociologia regional norte-americana, homem que passou a vida estudando a organização das comunidades humanas do Sul dos Estados Unidos. O irmão mais velho, Eugene Pleasants Odum, viria a se tornar uma das figuras fundadoras da ecologia moderna, autor de manuais que formaram gerações de naturalistas. É difícil imaginar uma infância mais propícia ao destino que o aguardava: na mesa de jantar da família Odum, duas perguntas que raramente cabem na mesma sala se sentavam lado a lado — como se organiza uma sociedade? E como se organiza um ecossistema? Howard passaria a vida inteira tentando provar que são, no fundo, a mesma pergunta.
A prova mais comovente desse vínculo está no frontispício do livro que publicaria postumamente. A edição de 2007 de Environment, Power, and Society for the Twenty-First Century — revisão ampliada da obra de 1971, lançada pela Columbia University Press com assistência de Mark T. Brown na conclusão póstuma — traz na página de rosto uma dedicatória de uma linha: To Howard Washington Odum. Ao pai sociólogo, o filho ecólogo devolveu, no fim da vida, a pergunta que herdara da infância, selando-a na dedicatória do livro que a respondia. O prefácio, redigido quando o autor já contava setenta e seis anos, lembra que três décadas separavam a primeira edição desta segunda, e que nesse meio-tempo o mundo atravessara escassez de combustíveis, inflação, guerras e a revolução da informação — para Odum, variações sobre o mesmo tema: o embate entre os fluxos de energia que sustentam uma civilização e a contabilidade pública que se recusa a vê-los.
A Segunda Guerra Mundial o arrancou da biblioteca e o jogou nos trópicos. Treinado em meteorologia pela Força Aérea, serviu em contextos ligados ao Caribe e ao Panamá — onde chegou a desenvolver um sistema de previsão de furacões que lhe valeu reconhecimento presidencial —, aprendendo a ler o céu como quem lê um balanço: frentes, pressões, umidades, tempestades que nascem de diferenças minúsculas de temperatura. Há quem veja nesse episódio apenas uma nota de rodapé de currículo. Mas a meteorologia tropical ensina algo que os livros de zoologia não ensinam: que o comportamento de um sistema não se explica por uma causa única, que o todo impõe sua lógica às partes e que prever é uma forma nobre — e humilhante — de respeitar a complexidade. O jovem soldado que observava furacões carregava, sem saber, o germe de uma vocação: estudar sistemas inteiros, não organismos isolados.
De volta à vida civil, Odum fez zoologia na Carolina do Norte, formando-se em 1947, e seguiu para Yale, onde concluiu o doutorado em 1951, sob G. Evelyn Hutchinson, com uma dissertação sobre a biogeoquímica do ciclo global do estrôncio — antessala perfeita para a convicção que o acompanharia para sempre: a natureza não é uma coleção de espécies catalogadas em prateleiras, mas uma rede de fluxos que atravessam rochas, águas, tecidos vivos e atmosferas. Cada emprego seguinte foi uma nova escala de observação, e é impossível entender a obra sem percorrer essa geografia: na Flórida, entre 1950 e 1954, ensinou limnologia e pesquisou nascentes e estuários; em Duke (1955–1957), estudou microcosmos e aperfeiçoou a medição de processos aquáticos; entre 1956 e 1963 dirigiu o Institute of Marine Science da Universidade do Texas — a sobreposição dos últimos anos de Duke com os primeiros do Texas marcou a passagem da escala de laboratório para a escala costeira e marinha; em 1963 migrou para Porto Rico, onde trabalhou no Puerto Rico Nuclear Center e conduziu experimentos de irradiação em floresta tropical, incluindo um cilindro gigante e aberto para acompanhar o metabolismo do ecossistema (Odum & Pigeon, 1970); voltou a Chapel Hill entre 1966 e 1970; e, finalmente, assentou-se na Universidade da Flórida, onde passou as últimas três décadas de vida à frente do Center for Wetlands (fundado em 1973) e do Center for Environmental Policy (fundado em 1991).

Não era uma carreira de gabinete. Era uma peregrinação por zonas de contato: nascente e rio, continente e mar, floresta e radiação, laboratório e pântano, ciência e governo. A sequência desses endereços narra por si mesma a evolução do olhar: o jovem naturalista de Chapel Hill virou o limnólogo da Flórida, virou o teórico de sistemas de Duke, virou o oceanógrafo do Texas, virou o ecólogo tropical de Porto Rico, virou, por fim, o sábio que tentava transformar a ecologia em instrumento de decisão pública. O mesmo homem foi se tornando, ao longo de meio século, menos um especialista de um habitat particular e mais um tradutor entre escalas.
A vida privada acompanhou a arquitetura da obra com discrição. Casou-se com Virginia W. Odum, com quem teve duas filhas; depois da viuvez, casou-se com Elisabeth Chase Odum, que se tornaria sua colaboradora — juntos assinariam Energy Basis for Man and Nature (1976) e A Prosperous Way Down (2001), livros em que a mão da escritora se adivinha na clareza pedagógica. Os reconhecimentos chegaram com parcimônia, como convém a um pensador incômodo — embora não fossem poucos: o Prêmio Mercer (1955), o Prix de la Vie (1976), a eleição para a Real Academia Sueca de Ciências e, em 1987, o Prêmio Crafoord, compartilhado com o irmão Eugene — a distinção mais próxima de um Nobel que a ecologia já conheceu. Morreu em 11 de setembro de 2002, numa quarta-feira — o primeiro aniversário do atentado às Torres Gêmeas —, o dia que o mundo escolheu para lembrar de outra coisa. Mas a sua biografia permanece aberta, porque a contabilidade da biosfera, ao contrário da contabilidade empresarial, não fecha o balanço no fim do exercício.
Silver Springs, ou quando a água virou uma página de cálculo
Em meados dos anos 1950, Silver Springs, na Flórida, era simultaneamente paisagem turística, manancial monumental e laboratório natural. O sistema, um dos maiores e mais conhecidos do centro-norte do estado, despejava em média cerca de oitenta mil metros cúbicos de água por hora, brotados do calcário em fontes de uma limpidez quase irreal. Turistas desciam em barcos de fundo de vidro para admirar o espetáculo submerso; Odum desceu com outra intenção. Ele queria saber — e essa pergunta mudaria a história da ecologia — quanta energia entrava naquele trecho de rio, quanta energia era transformada pelas algas e plantas submersas, quanta energia era respirada pelos animais, quanta energia saía na corrente. Não queria catalogar espécies. Queria fazer o balanço energético do ecossistema inteiro, como quem faz o balanço de uma empresa: receita, custo, estoque, depreciação.
O método foi uma obra-prima de engenhosidade. Odum mediu o oxigênio dissolvido ao longo do dia e da noite, nos dois extremos do trecho estudado — cerca de 1,2 quilômetro a partir da grande nascente. A diferença entre a produção diurna e o consumo noturno permitia estimar a fotossíntese bruta; a queda noturna, a respiração total. O oxigênio, no método, deixa de ser um dado químico anônimo e se torna uma testemunha do trabalho conjunto de algas, plantas, animais, água e atmosfera — a paisagem passa a falar por diferenças de concentração e por curvas de tempo. O resultado, publicado em 1957 como monografia em Ecological Monographs (volume 27, número 1, páginas 55 a 112; Odum, 1957), é considerado pela literatura o primeiro balanço energético completo de um ecossistema natural: produção primária, consumo, respiração, biomassa e eficiência — tudo convertido em fluxos de energia, tudo somado e comparado (Kemp & Boynton, 2004).
A fidelidade de Odum ao episódio é reveladora da sua coerência: meio século depois, na edição de 2007 do seu livro de sistemas, Silver Springs ainda abre o capítulo sobre ecossistemas como estudo de caso-modelo — o capítulo ensina a selecionar fronteiras, a desenhar o modelo de sistemas de energia, a converter os fluxos em eMergia e transformidades e a comparar o quociente produção/respiração entre ecossistemas. O que em 1957 fora uma proeza solitária de medição tornara-se, em 2007, o primeiro exercício didático de uma disciplina. Há uma lição nesse percurso que transcende a ciência: Odum não arrancou as plantas para pesá-las; ele escutou a respiração da água. E quando mais tarde a mesma lógica seria aplicada a florestas, cidades e nações, a intuição permaneceria a mesma — antes de perguntar quanto uma paisagem rende, é preciso perguntar de que fluxos depende a sua possibilidade de render. A consequência política é incômoda: quando se mede apenas a venda do peixe, registra-se um fragmento; quando se mede o sistema, aparece o manancial, o oxigênio, a renovação e o trabalho anterior que tornou a venda possível. Meio século depois, essa ainda é a parte da história que o mercado prefere não ler.
O desenho como pensamento: o macroscópio e as cinco leis
Toda teoria precisa de uma língua. Nos anos que se seguiram a Silver Springs, Odum dedicou-se a construir a sua: um sistema de símbolos capaz de desenhar qualquer porção do mundo — um rio, uma floresta, uma fazenda, uma cidade, uma nação, o planeta — como uma rede de fontes, estoques, processos, consumidores, retroalimentações e sumidouros. Nasceu assim a linguagem dos sistemas de energia (a que alguns chamam “Energese”): círculos para as fontes externas, tanques para os estoques, retângulos para os processos, hexágonos para os consumidores, setas para os fluxos. Havia nisso uma elegância quase artesanal, e também uma teimosia epistemológica: antes de calcular, desenhar; antes de formular equações, contar a história do sistema em imagens. O diagrama não era ilustração do raciocínio — era o próprio raciocínio, uma matemática pictórica que podia ser convertida em equações diferenciais e simulações quando necessário.
Para ver o mundo dessa maneira, Odum inventou um instrumento conceitual que batizou de macroscópio. A palavra não designa um aparelho de metal e lente, mas uma atitude: depois de séculos refinando microscópios para ver o pequeno e telescópios para ver o longínquo, faltava à ciência um instrumento para enxergar o grande sistema por inteiro — a cidade como metabolismo, a biosfera como circuito, a economia como ramificação de uma árvore de energia. O macroscópio é os óculos invertidos de Odum: não aproxima as partes, afasta o olho para que o todo apareça. A edição especial de Ecological Modelling dedicada à sua herança, em 2004, chamou-se justamente Through the Macroscope. Quem lê a abertura de Environment, Power, and Society percebe que seu autor não está escrevendo um tratado de ecologia, mas um manifesto de percepção: aprender a ver fluxos onde se via apenas coisas é o primeiro passo para aprender a contá-los.
O livro de 2007 organiza as leis da energia com uma audácia que seus críticos nunca lhe perdoaram totalmente. As três primeiras são a herança clássica da termodinâmica: a conservação da energia, a degradação da energia (a segunda lei, a entropia) e a terceira lei, a ausência de calor no zero absoluto. A quarta, porém, é a sua: Odum propõe o princípio da máxima potência — a hipótese, herdada de Alfred Lotka (1922) e desenvolvida com Richard Pinkerton em 1955, de que os sistemas em competição tendem a se organizar para captar e processar o maior fluxo possível de energia disponível; não a máxima eficiência, mas o máximo fluxo total, equilibrando velocidade, crescimento, manutenção e capacidade de competir. Uma máquina perfeita pode aproveitar quase toda a energia que recebe, mas operar devagar demais para dominar uma paisagem; um organismo vivo dissipa parcela considerável da energia ingerida e, ainda assim, vence, porque cresce, reproduz-se e reorganiza seus fluxos. E há mais: no capítulo sobre a hierarquia da energia, Odum chega a propor uma quinta lei — a lei da hierarquia energética —, segundo a qual todos os sistemas do universo, dos átomos às galáxias, se auto-organizam em cadeias de transformação nas quais muitos joules difusos produzem poucos joules concentrados (Odum, 1988). É preciso, aqui, uma nota de prudência que o próprio Odum nem sempre ofereceu: chamar essas proposições de leis foi uma decisão retórica ambiciosa, e a crítica moderna tem razão em lembrar que uma hipótese de seleção e organização não tem o mesmo estatuto de necessidade das leis da termodinâmica clássica (Månsson & McGlade, 1993). Mas a ousadia é constitutiva do projeto: Odum preferia uma generalização discutível a uma especialização incontestável, porque acreditava que os problemas do século XXI — energia, clima, desigualdade — só se deixariam ver por quem aceitasse olhar o sistema inteiro.
Foi também nesse campo que amadureceu, desde os anos 1970, a noção de que os joules não são todos iguais. Em Energy Basis for Man and Nature (1976), escrito com Elisabeth, Odum já apresentava ao grande público a escala da qualidade energética com exemplos didáticos que se tornariam famosos: são necessárias cerca de mil Calorias de luz solar para produzir uma Caloria de madeira, e quatro Calorias de carvão para produzir uma Caloria de eletricidade. A luz do sol é diluída; a eletricidade é concentrada. Cada transformação ao longo da cadeia — sol, planta, alimento, combustível, eletricidade, informação — exige mais energia anterior, mais trabalho incorporado, e por isso cada joule produzido num degrau alto da hierarquia vale, em termos de herança energética, muito mais do que um joule produzido na base. O conceito ainda não tinha nome; Odum o chamava de “equivalentes de combustível fóssil”, e os anos seguintes seriam gastos na busca de uma unidade capaz de expressar essa qualidade com rigor contábil. A escala de 1976 é a infância da eMergia, e ler o livro é assistir ao conceito aprendendo a andar.
A invenção da memória: o que é a eMergia
Chegamos, enfim, à palavra. A eMergia nasceu de um gesto de contador meticuloso: Odum percebeu que a ciência estava confundindo dois tipos de informação sobre a energia e decidiu separá-los na própria grafia. Os joules medem a energia; a exergia mede a energia disponível, o trabalho que uma porção ainda pode realizar. Mas qualquer objeto do mundo carrega também a herança de toda a energia disponível que foi gasta, direta e indiretamente, para produzi-lo. A esse passado incorporado, Odum chamou emergy — eMergia, com m, de memory —, palavra cunhada nos anos 1980 (com colaboração decisiva do australiano David Scienceman, que condensou energy e memory e descreveu a eMergia como energy memory, memória energética (Scienceman, 1987)) para nunca mais ser confundida com a energia comum. A unidade é o emjoule (frequentemente o emjoule solar, seJ), e a definição operacional tornou-se clássica: eMergia é a quantidade de energia disponível de um tipo — em geral, a energia solar — usada, direta e indiretamente, para produzir um bem ou serviço (Odum, 1996; Brown & Ulgiati, 2004).
A melhor imagem continua sendo a da memória. A eMergia é a memória energética do mundo: o registro do trabalho passado que permanece manifesto no objeto presente. Uma árvore, nesse vocabulário, carrega a luz que absorveu, a chuva que a regou, a transpiração, o solo, a atividade microbiana, as transformações que a tornaram biomassa. Um litro de gasolina carrega, somados e condensados, milhões de anos de sol, de plâncton, de pressão geológica, de tempo profundo. Uma folha de papel carrega a árvore, a água, a indústria, a máquina, a estrada e a organização humana — não como uma simples soma de calorias, mas como uma genealogia de transformações, cada uma exigindo mais trabalho anterior de natureza e de sociedade do que a anterior. É a “dívida de tempo da Terra”: para fabricar um tanque de combustível, o planeta precisou trabalhar, ininterruptamente, durante milhares de anos — cobrando zero por essa mão de obra.
O conceito-irmão é a transformidade: a razão entre a eMergia necessária e a energia disponível produzida ou contida num bem, medida em emjoules por joule (seJ/J). Quanto maior a transformidade, maior a quantidade de trabalho energético anterior requerida para produzir uma unidade de energia naquele nível da hierarquia. Em O Declínio Próspero — o livro que Odum escreveu com Elisabeth e que Enrique Ortega, professor da Unicamp e discípulo do autor, verteu para o português na edição da Editora Vozes —, uma tabela inesquecível resume a escala: a luz do sol vale 1; o vento, 1.500; a matéria orgânica, 4.400; as águas em queda, 20.000; a energia hidrelétrica, 40.000; os combustíveis fósseis, 50.000; os alimentos em geral, 100.000; as proteínas, um milhão; os serviços humanos, 100 milhões de emcalorias solares por caloria — a informação humana, nessa contabilidade, a forma mais concentrada de memória já produzida (Abel, 2023). Do degrau mais baixo ao mais alto, da luz difusa ao trabalho da espécie, a tabela desenha a escada invisível da biosfera — e explica, de passagem, por que Odum formulou um princípio ético e prático que repete como um refrão: não utilize recursos de alta qualidade para finalidades de baixa qualidade. Usar eletricidade — a forma mais refinada de energia que conhecemos — para aquecer uma sala que o sol poderia aquecer é, nessa contabilidade, um desperdício de memória. (Vale a ressalva de que esses valores seguem a base global usada por Odum nos anos 1990; a literatura posterior atualizou essa base, de modo que as cifras são “de época”.)
É preciso, porém, resistir à tentação de romantizar a imagem. Uma memória precisa de um procedimento de leitura, e é aí que a eMergia mostra toda a sua fragilidade e toda a sua força. É necessário escolher fronteiras, fontes, escalas temporais, regras de atribuição e transformidades; se essas escolhas forem opacas, a memória vira narrativa de autoridade; se forem explícitas, a eMergia pode funcionar como uma contabilidade histórica da dependência. Odum nunca escondeu que a eMergia é uma medida de rede, não uma propriedade isolada de objetos: ela só faz sentido dentro de um sistema desenhado, com fronteiras declaradas e regras de adição auditáveis. Quem usa a eMergia como oráculo a trai; quem a usa como lupa — para ver o que o mercado não vê — a honra.
A contabilidade e o dinheiro: o fluxo secundário sobre o fluxo primário
Agora chegamos ao coração da heresia odumiana, e é aqui que os próprios livros de Odum se tornam testemunhas insubstituíveis. Em Environmental Accounting (1996, John Wiley), Odum consolidou a teoria, os procedimentos de cálculo e as aplicações da avaliação eMergética. Não é apenas um tratado sobre energia; é uma tentativa de reconstruir a contabilidade para que a natureza deixe de aparecer como entrada gratuita e inesgotável — o que os economistas chamam, com uma palavra que já é uma confissão, de externalidade.
O procedimento começa definindo a janela do sistema e desenhando o seu diagrama. Depois, cada fluxo é identificado: sol, chuva, vento, água, solo, biomassa, combustível, trabalho, dinheiro, informação, infraestrutura. A eMergia de cada entrada é rastreada até o ponto em que sua energia disponível é usada, e os resultados são somados segundo regras de rede. Para falar a língua dos administradores, Odum criou o emdólar: a conversão da eMergia numa unidade monetária aproximada, não porque a natureza tenha um preço natural escondido, mas porque um índice agregado permite comparar a contribuição biofísica com os fluxos monetários — e mostrar a diferença entre o que o mercado paga e o que o sistema ambiental sustenta. Dessa contabilidade nascem ainda índices como o Environmental Loading Ratio (ELR), que mede a pressão sobre o capital natural, e o Emergy Sustainability Index (ESI), que combina rendimento e carga ambiental — ferramentas práticas que a análise emergética oferece a gestores e formuladores de política.
Mas a heresia propriamente dita estava formulada vinte anos antes. Em Energy Basis for Man and Nature (1976), num capítulo que os leitores de economia deveriam ser obrigados a decorar, Odum explica com diagramas de fazenda e de cidade que o dinheiro circula em contracorrente à energia: o dinheiro só flui entre seres humanos, e toda moeda que um comprador entrega a um vendedor acompanha, na direção oposta, um fluxo de bens que só existem porque a natureza trabalhou primeiro. O exemplo é de uma eficácia brutal: nos Estados Unidos de 1973, cerca de 25.000 Calorias de energia circulavam por cada dólar transacionado. A inflação, nessa leitura, não é um mistério monetário: é o fenômeno de mais dinheiro circulando por menos energia — ou de menos trabalho entrando no sistema sem que a quantidade de moeda diminua. E há o corolário mais incômodo: quando os fluxos de energia são limitados, imprimir dinheiro não gera crescimento, gera apenas mais inflação. O PIB pode subir enquanto a base que o sustenta se dissolve, porque o mercado contabiliza a parte da história que passa pelas transações humanas e ignora o restante — que é, na escala da biosfera, quase tudo.
Trinta anos depois, na edição de 2007, Odum refinou a tese com a precisão de quem passou uma vida afiando a mesma lâmina: o dinheiro é, diz ele, uma forma especial de informação — e, mais especificamente, um seletor de recompensas em circuito, o mecanismo pelo qual uma sociedade decide quais fluxos merecem continuar existindo. A moeda, para Odum, é o sistema nervoso da economia: registra e recompensa apenas os fluxos que passam por seres humanos, e por isso é estruturalmente cega aos fluxos da natureza, que trabalham sem receber salário ou renda. Dessa cegueira nasce o que se convencionou chamar de intercâmbio ecológico desigual — e que Odum descreve, sem rodeios, como uma forma de capitalismo imperial: as nações ricas importam a memória energética barata do mundo (minérios, madeira, alimentos, trabalho) e exportam, em troca, o papel-moeda que só circula entre humanos (Foster & Holleman, 2014).
Aqui o leitor brasileiro encontra, para seu espanto, um dos documentos mais perturbadores de toda a obra: o diagrama do intercâmbio de eMergia entre os Estados Unidos e o Brasil, publicado em O Declínio Próspero. O cálculo é contundente: em cada dólar que o Brasil recebia pelas suas exportações iam embora cerca de 22,2 × 10¹¹ emcalorias solares de riqueza real; em cada dólar que o Brasil pagava pelas importações norte-americanas voltavam apenas 7,6 × 10¹¹. Em outras palavras, a balança comercial brasileira, lida na moeda da natureza, era dramaticamente deficitária: o país exportava memória e importava esquecimento. Odum não precisou mencionar dívida externa, FMI ou taxas de juros para explicar por que o empobrecimento persiste: na contabilidade eMergética, o empréstimo já vinha sendo pago, com juros, em cada contêiner que deixava o porto. A tabela de índices nacionais da edição de 2007 completa o retrato: o Brasil tinha um índice de eMergia por dólar de 20,0 (× 10¹¹ secal/dólar) contra 6,2 dos Estados Unidos e 1,2 do Japão — as nações industrializadas compram, com cada dólar, muito mais memória energética do que vendem (Odum, 2007, Tabela 10.1). Há economistas que consideram isso uma simplificação; há brasileiros que consideram isso, simplesmente, a descrição da sua história.
Georgescu-Roegen, a entropia e a riqueza verdadeira
Aqui se encontra o parentesco intelectual que o leitor atento talvez reconheça melhor: Odum completa Georgescu-Roegen. Nicholas Georgescu-Roegen, matemático e economista romeno radicado nos Estados Unidos, havia publicado em 1971 The Entropy Law and the Economic Process, obra que colocou a segunda lei da termodinâmica no centro da crítica ao pensamento econômico. Todo processo produtivo, argumentava, transforma matéria e energia de baixa entropia — concentrada, ordenada, útil — em formas degradadas; a economia é um subsistema da biosfera e não pode escapar das restrições biofísicas do mundo. Para Georgescu-Roegen, a lei da entropia é a raiz da escassez: não existe crescimento material infinito num planeta finito, e toda conversa sobre “substituição de recursos” ignora que alguns recursos são insubstituíveis por definição (Georgescu-Roegen, 1971; Cleveland & Ruth, 1997).
Odum partiu de uma direção próxima e tomou outro caminho. Em vez de concentrar a análise na irreversibilidade e na degradação — no que se perde —, desenvolveu diagramas, hierarquias, transformidades e balanços capazes de seguir o trabalho energético anterior de um sistema — no que se herda. A termodinâmica dava o horizonte; a ecologia de sistemas fornecia o mapa. Não por acaso, Georgescu-Roegen figura entre as “vozes de preocupação” que Odum convoca, no capítulo sobre o futuro, para a conversa sobre os limites — e a bibliografia do livro de 2007 o cita ao lado de Hubbert, Diamond, Catton e Ehrlich. O romeno provou que o processo econômico é entrópico; Odum mostrou como contabilizar a energia disponível (exergia) incorporada no que o mundo nos dá.
E há ainda uma tese que atravessa os três livros e que talvez seja a mais esquecida: a distinção entre riqueza verdadeira e dinheiro. Em O Declínio Próspero, o capítulo “A riqueza verdadeira e a economia” é uma pequena revolução de clareza: o dinheiro não é riqueza, é apenas um meio de troca; a riqueza verdadeira é o conjunto de coisas necessárias à vida — alimento, água, energia, estrutura, informação —, e a eMergia é a medida dessa riqueza. Um país pode ser monetariamente rico e eMergeticamente pobre, importando até a própria subsistência; outro pode ser monetariamente pobre e eMergeticamente rico, vivendo do sol e do solo sem que o PIB registre. Essa inversão de perspectiva — a riqueza medida pelo que a natureza e o trabalho realmente entregaram, e não pelo que os humanos concordaram em pagar — é o núcleo moral de toda a obra. O dinheiro circula sobre a energia como a espuma circula sobre a onda; quem confundir a espuma com a onda, diz Odum, está condenado a naufragar em águas calmas.
A floresta em pé e a floresta derrubada: dois balanços, uma ferida
É o momento de enfrentar o exemplo mais célebre e mais mal compreendido da obra de Odum: quanto vale, em energia incorporada, uma floresta em pé versus uma floresta derrubada? A pergunta tem a precisão cruel de uma adivinha. O mercado responde com facilidade brutal: a floresta em pé, salvo raras exceções de ecoturismo, vale aproximadamente nada — ela é um estoque que não gera fluxo monetário enquanto permanece intacta; a floresta derrubada vale a madeira vendida, o pasto plantado, o lucro realizado. A conta de Odum responde outra coisa, e é por isso que ela incomoda: derrubar não é uma troca entre uma paisagem improdutiva e uma mercadoria produtiva — é a conversão de um estoque e de uma rede em um fluxo concentrado, e todo o trabalho acumulado da biosfera, que levou séculos ou milênios para se organizar, entra no balanço como perda de capital, não como custo operacional.
É preciso honestidade intelectual: Odum nunca publicou uma tabela definitiva e numericamente fechada comparando a floresta em pé e a derrubada em todos os seus aspectos — e seria desonesto fabricar esse quadro como se fosse um resultado direto da sua obra. O que ele legou foi o aparato para formular a comparação: estoques, fluxos renováveis, energia incorporada, serviços, exportações, perdas e fronteiras temporais. E aplicou esse aparato em lugares inesperados, com números que o leitor pode verificar nas páginas de Environment, Power, and Society. Nas avaliações de Odum (1995) sobre florestas tropicais, uma árvore pequena foi estimada em cerca de 19 emdólares e uma árvore típica de clímax em aproximadamente 2.250 emdólares. A contabilidade eMergética de ecossistemas costeiros no Texas (a tabela de Corpus Christi, Odum, 2007, Tabela 12.2) e a do sistema de Florestas Nacionais dos Estados Unidos — que estimou 197 bilhões de emdólares em serviços ecossistêmicos e 24,3 trilhões de emdólares em capital natural (Campbell & Brown, 2012) — mostram a mesma operação em escala: tornar visível o que a administração pública trata como pano de fundo.
A floresta em pé aparece, nessa contabilidade, como estoque de capital natural e como processo: recebe radiação, chuva, vento e nutrientes; sustenta biomassa; regula a água; oferece habitat; armazena informação biológica; produz serviços que não chegam ao mercado. A floresta derrubada oferece um fluxo imediato de madeira, emprego e receita — mas esse fluxo precisa ser comparado com o estoque perdido, com os serviços interrompidos e com o tempo de recomposição da rede. Se a rede se recompuser, o balanço dependerá do horizonte; se não se recompor, o ganho imediato é uma antecipação de renda contra o futuro — um empréstimo tomado da própria paisagem, com juros compostos de extinção. A recomendação para políticas florestais é dupla e urgente: contabilizar a madeira, mas também contabilizar o que a madeira substitui; e jamais confundir uma cifra de emdólares com uma autorização automática para derrubar.
O capítulo sobre a parceria com a natureza acrescenta ainda uma dimensão prática que poucos associam a Odum: a engenharia ecológica. Longe de ser um contemplador de nascentes, ele desenhou e avaliou sistemas de tratamento de resíduos com pântanos artificiais, estudou a capacidade de manguezais e brejos salgados de absorver nutrientes urbanos, e participou da avaliação da Biosphere 2 — o experimento de três acres no deserto do Arizona, construído a um custo de cerca de US$ 150 milhões, que manteve oito pessoas vivas durante dois anos (1991–1993) e teve uma segunda missão abortada em 1994, provando, ao falhar parcialmente, que a auto-organização da biosfera é mais sutil do que qualquer fechadura de engenheiro (Marino & Odum, 1999). Até o espaço, para Odum, é uma questão de contabilidade: a tabela de suporte humano da edição de 2007 registra que uma pessoa numa cápsula espacial apoiada pela Terra consome uma densidade de eMergia da ordem de 1,9 × 10⁹ vezes a de um pigmeu na floresta profunda. O homem moderno, diz Odum com ironia fúnebre, já vive numa cápsula — só que a cápsula se chama planeta, e ninguém cobra o aluguel até ser tarde demais.
Os críticos, a ética e o fantasma da pseudociência
Nenhuma teoria ambiciosa escapa impune do tribunal de seus pares, e a eMergia não é exceção — nem deveria ser. A história da recepção do pensamento de Odum é a história de uma tensão produtiva entre a ousadia e a auditoria, e qualquer ensaio que se pretenda honesto precisa dar voz aos dois lados.
A primeira linha de crítica é metodológica e concreta. Uma avaliação eMergética precisa decidir quando um produto está formado, qual é a fronteira espacial, qual horizonte temporal incluir, como alocar fluxos compartilhados entre coprodutos e como evitar a dupla contagem. Os críticos apontam que essas decisões envolvem convenções que não têm a mesma necessidade das leis termodinâmicas, e que diferentes escolhas podem produzir resultados diferentes para o mesmo sistema. Uma revisão de 2016 concluiu, com elegância cética, que a eMergia é um conceito relativamente novo cuja aceitação dentro e fora do mundo acadêmico ainda enfrenta desafios e críticas; estudos recentes pedem regras mais explícitas — fronteiras declaradas, consistência interna, reprodutibilidade — e reconhecem que o campo ainda não está consolidado na medida que seus defensores gostariam (Chen et al., 2016). A discussão entre os praticantes de exergia (foco no presente, no receptor) e os de eMergia (foco no passado, no doador) ilustra bem essa tensão metodológica ainda não resolvida (Sciubba & Ulgiati, 2005).
A segunda linha é filosófica e mais profunda. Alf Hornborg, figura central da economia ecológica contemporânea, acusa o quadro eMergético de reducionismo biofísico: ao converter valor de uso, exploração e desigualdade em discrepâncias entre eMergia e preço, Odum confundiria física com economia, naturalizando hierarquias sociais e coloniais como se fossem fluxos físicos (Hornborg, 1996). Para Hornborg, o valor de uso é cultural e não pode ser medido em joules ou equivalentes solares; uma mina, uma plantação ou uma hidrelétrica podem ser “eficientes” num balanço energético e profundamente injustas na distribuição de terra, risco e renda. É uma objeção que a eMergia não deveria tentar eliminar com uma fórmula — é um lembrete de que nenhuma métrica dispensa a pergunta sobre quem decide, quem trabalha, quem sofre e quem ganha. A palavra certa para a eMergia, diante desse tribunal, não é pseudociência; é ciência juvenil — promissora, imperfeita, em disputa, precisamente no estágio em que a criatividade e a padronização brigam pelo controle do método.
Há, contudo, um elemento da obra que desarma os críticos mais apressados: Odum não era ingênuo quanto aos perigos da sua própria linguagem. No capítulo sobre a organização energética da sociedade, ele dedica páginas aos pecados da dissipação de energia — o desperdício, o vício, a violência, o esporte-espetáculo, o culto às celebridades como formas de drenar os fluxos que sustentam o tecido social. Em O Declínio Próspero, ele não hesita em discutir, com a frieza de um gestor de patrimônio, a interrupção da vida em estágio terminal, o controle da população, o salário mínimo internacional. E no fim da edição de 2007 há uma tabela que vale por um tratado de ética: quinze mandamentos da “ética dos sistemas de energia para todas as escalas” — entre eles, buscar satisfação na contribuição útil, não desperdiçar energia de alta qualidade em tarefas de baixa qualidade e ter fé na auto-organização. Odum sabia que a memória energética podia ser usada para justificar o injustificável; por isso insistia, como um escriba, em registrá-la ao lado de princípios de prudência e humildade. A ambição de medir o mundo não o cegou para a verdade elementar de que o mundo não cabe numa medida.
O porquê do isolamento: uma teoria que o mercado não consegue comprar
Há ainda uma terceira explicação para a marginalização da eMergia, menos filosófica e mais sociológica — e talvez a mais reveladora do nosso tempo. A eMergia não foi escanteada apenas por críticos acadêmicos; foi escanteada pelo próprio mercado da sustentabilidade. Enquanto a Pegada de Carbono prosperou porque pôde ser convertida num produto transacionável — o crédito de carbono — e a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) prosperou porque foi normatizada pelas normas ISO 14040/14044, a eMergia nunca gerou um ativo financeiro nem ganhou um selo internacional. Ela diz a uma empresa que o seu uso do solo é insustentável a longo prazo, mesmo que ela zere as emissões de carbono — uma resposta intragável para investidores e fundos ESG. O movimento ambientalista global, concentrado quase exclusivamente no combate às mudanças climáticas, criou o que os ecologistas sistêmicos chamam de “visão de túnel do carbono”: uma usina hidrelétrica que não emite CO₂ é celebrada como “100% sustentável”, ainda que a análise emergética revele o imenso custo biofísico do represamento, do solo inundado e do cimento. A eMergia tornou-se, assim, “científica demais para os políticos e radical demais para os financistas da economia verde”. Redes como a International Emergy Society buscam hoje padronizar os modelos de cálculo, mas o caminho é lento — um balanço recente do lugar de Odum no debate sobre o desenvolvimento sustentável retoma exatamente essa pergunta (Grönlund, 2025). É a ferramenta que diz verdades inconvenientes que nem mesmo o mercado da sustentabilidade está pronto para ouvir.
Declínio próspero: a construção da descida
O último Odum — o de A Prosperous Way Down (2001), publicado no Brasil como O Declínio Próspero pela Editora Vozes, com tradução de Enrique Ortega — é talvez o mais ousado e o mais mal lido de todos. A tese vale a pena ser enunciada na sua plenitude, porque a fórmula parece paradoxal: a civilização industrial, alimentada por combustíveis fósseis, atingiu o seu clímax; a fase seguinte não é o crescimento contínuo que os manuais prometem, mas um declínio inevitável; e o declínio pode ser próspero — negociado, planejado, digno — em vez de um colapso apocalíptico. O livro é, do começo ao fim, um manual técnico-moral de como descer uma montanha sem quebrar a perna.
O argumento apoia-se no paradigma do pulso, herdado da observação dos ecossistemas: os sistemas não crescem para sempre, nem se estabilizam suavemente — eles pulsam. Crescimento, clímax, declínio e restauração de baixa energia: quatro fases que Odum vê repetidas em florestas, civilizações e mercados financeiros. A fase de restauração é a mais ignorada e a mais importante: é nela que o sistema, alimentado apenas pelas fontes renováveis, recompõe os estoques que o surto consumiu. “A civilização vista como um surto de crescimento” é o título de uma seção que resume a ambição do livro: ver os últimos dois séculos como um pulso excepcional — o pulso dos combustíveis fósseis — e o futuro como a descida inevitável desse pulso em direção à linha de base solar.
As políticas que Odum prescreve para a descida compõem um programa de uma radicalidade que a esquerda e a direita contemporâneas teriam dificuldade de classificar: reduzir voluntariamente a população; reorganizar as cidades para viver da região em vez do petróleo; recuperar as águas e os ecossistemas; dar uma reviravolta na agricultura, abandonando a agricultura industrial subsidiada por fósseis em favor de sistemas agroflorestais e rotação de terras; reformar a universidade para preservar conhecimento em vez de produzir diplomas; preparar as pessoas para trabalhar menos, viver melhor e desejar menos; e ensinar os filhos a não temer a palavra declínio. No capítulo sobre o clímax e a descida da edição de 2007, as opções são apresentadas com a nitidez de um mapa rodoviário: a descida gradual, o declínio próspero e o colapso e reinício. Odum desenha até o destino final do cenário ruim: a Ilha de Páscoa, com seus moais de pedra erguidos por uma civilização que cortou a última árvore, aparece na figura que fecha o capítulo como o monumento da extinção. O exemplo tem a força de uma parábola: uma sociedade inteira dedicada a erguer estátuas monumentais — gastando a memória energética da ilha em pedra — e incapaz de ver que as árvores que a sustentavam acabavam ali, na última fogueira.
É aqui que a formação meteorológica de Odum — o jovem que aprendeu a prever furacões — encontra o velho sábio que aprendeu a prever a decadência. Os modelos computacionais do capítulo final não prometem salvação tecnológica; oferecem, em vez disso, uma pergunta estratégica: quando, e com que rapidez, deveríamos iniciar a descida? Na resposta de Odum, a pressa é a única forma de generosidade com o futuro: quanto mais cedo a humanidade aceitar o declínio e planejá-lo, menos violenta será a queda — e mais memória — conhecimento, solo, água, biodiversidade, cultura — restará para transmitir às gerações que virão depois do pulso. Trinta anos antes, em Energy Basis for Man and Nature, ele já havia dado ao século XX o seu epitáfio energético: o incêndio relâmpago do século vinte — the flash fire of the twentieth century. O crescimento industrial foi isso: uma chama rápida e espetacular queimando o estoque geológico de milhões de anos. O fogo apaga; a pergunta é o que sobra.
Conclusão: a memória que desorganiza a conta
Chegamos ao fim, e talvez seja hora de confessar que este ensaio começou com uma provocação e termina com uma tese. A provocação: Howard Thomas Odum e a eMergia são dois ilustres desconhecidos — o homem sumiu da memória pública; a palavra sobrevive nos anais da ecologia de sistemas sem que o grande público saiba pronunciá-la. A tese: Odum não inventou uma moeda capaz de comprar a natureza. Inventou uma pergunta capaz de desorganizar a ilusão de que a natureza era grátis.
Toda a sua obra foi uma campanha obstinada contra a invisibilidade. Em Silver Springs, tornou visível a respiração da água; nos diagramas, a arquitetura dos fluxos; na eMergia, a memória energética das coisas — o tempo profundo condensado em cada estoque que a economia consome sem pagar. Ao mostrar que o dinheiro é um fluxo secundário circulando sobre o fluxo primário da energia, completou o caminho que Georgescu-Roegen havia aberto. Não se trata, porém, de pedir ao leitor que abandone o mercado para pensar em emjoules: trocar um fundamentalismo por outro não era o seu projeto. Odum pede menos e mais ao mesmo tempo — que nenhuma planilha que pretenda falar de riqueza possa, daqui em diante, omitir a nascente, o solo, a floresta, o trabalho, o mineral e o tempo. A eMergia permanece relevante não porque conquistou o direito de ser a única língua da economia, mas porque tornou moral e cientificamente difícil falar de riqueza sem falar de suporte. Uma plantação mostra toneladas; uma cidade mostra PIB; uma usina mostra megawatts; um governo mostra arrecadação. Todos mostram saídas. Falta mostrar entradas. Falta mostrar a memória.
No dia 11 de setembro de 2002, enquanto o Ocidente lembrava, em cerimônias, as torres em chamas do ano anterior, um homem de setenta e oito anos morria numa casa da Flórida, cercado de diagramas. A coincidência das datas tem qualquer coisa de alegoria: o mundo inteiro olhava para um símbolo do poder finito, enquanto morria, silenciosamente, o homem que dedicou a vida a medir a finitude de todas as coisas — inclusive das torres, que não valem o aço, o concreto, o trabalho e o sol que as ergueram, mas valem a rede inteira de dependências que as sustentava. Odum sabia que nenhuma cifra captura o mundo; mas sabia também que o mundo sem cifra é invisível, e que a invisibilidade é a forma mais eficiente de destruição que a espécie humana já inventou. A sua memória solar é, antes de tudo, uma memória crítica: a conta que não fecha, a pergunta que não sossega, o desconforto que a civilização do crescimento carrega como um osso atravessado na garganta. Que ela continue — ilustre e desconhecida — nos lembrando, todos os dias, de que nada vem do nada.
Nota: Agradeço, com admiração sincera, ao Prof. Dr. Biagio F. Giannetti, a quem devo o privilégio de ter sido apresentado ao pensamento de Howard T. Odum e ao universo da eMergia: foram dele as primeiras palavras sobre o tema, ditas com a clareza de quem o domina e a generosidade de quem partilha. Foi a partir desse primeiro encontro que pude conhecer, estudar e, enfim, escrever este ensaio — que nasce, assim, de um caminho que começou com ele.
Referências
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Foto em destaque: O ecologista Howard T. Odum num ecossistema de pântano na Flórida. (Dr. Robert Knight / Florida Springs Institute).
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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