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Dois documentários feitos por jovens das periferias de Marabá saem da ilha de edição neste mês e devem ser exibidos entre os dias 25 e 30 de setembro, em Marabá e em Belém. “Marabela” e “Cabelo Seco” foram pensados, roteirizados e produzidos pelas turmas do Perifa.Doc, projeto de formação em audiovisual que combina oficinas práticas, aulas teóricas, cineclubes e saídas de campo.

Os dois filmes partem de questões diferentes e chegam ao mesmo lugar, o de olhar para Marabá de dentro. Em vez de descrever a cidade a partir do que já se diz sobre ela, as equipes foram atrás de quem vive esses espaços para discutir quais histórias circulam sobre o território e quem tem o direito de contá-las.

“Marabela” nasceu do encontro da turma com o poema de mesmo nome, escrito pela professora Eliane Soares. Do texto veio a imagem que organiza o filme, a passagem de “MaraBala” para “MaraBela”, duas leituras que convivem quando se fala do município, que soma 113 anos de emancipação política. A equipe optou por não escolher entre elas. O documentário trabalha a coexistência das duas, mostrando como a desigualdade e a experiência da periferia dividem espaço com a produção cultural, as paisagens e os vínculos construídos pelas moradoras.

“Esperamos que o público reflita sobre os desafios sociais presentes em Marabá, compreendendo que a dicotomia entre beleza e caos pode coexistir historicamente em um mesmo território, assim como em diversos lugares do país. Ao mesmo tempo, reflitam que as riquezas culturais permanecem vivas por meio da dança, da música, das paisagens, dos afetos e das formas de pertencimento construídas pelos moradores”, afirma o grupo responsável pela obra.

A escuta acabou mudando o filme. No início, a turma esperava encontrar personagens que se identificassem mais com a “MaraBala” ou mais com a “MaraBela”. A conversa com as moradoras desfez a divisão. As duas experiências apareciam com frequência na trajetória de uma mesma pessoa, o que tornou a narrativa mais complexa do que a equipe imaginava.

“Também esperamos que os termos Marabala e Marabela despertem uma reflexão linguística e pedagógica sobre o próprio território e as narrativas construídas acerca da cidade. Não queremos cristalizar a interpretação dos espectadores sobre Marabá. Por respeitarmos tanto as histórias marcadas por violências quanto aquelas atravessadas pelas belezas naturais e culturais, o documentário apresentará essas duas perspectivas, esperando que cada espectador construa sua própria percepção acerca da cidade”, completa a turma.

Já “Cabelo Seco” começa pelo nome da comunidade. O apelido carrega uma história de estigma, atravessada pelo preconceito racial e pela desvalorização das mulheres negras. Ao entrar no território, as realizadoras encontraram outra coisa, mulheres que guardam memórias, sustentam vínculos comunitários e tocam iniciativas culturais, entre elas o coletivo Raízes do Cabelo Seco e o Dança Longevo.

O contraste virou a pergunta central da obra. Se o nome foi carregado de significados ao longo do tempo, o que acontece quando a própria comunidade assume o direito de contar sua história? O filme responde colocando as mulheres no centro da narrativa e abrindo espaço para que elas falem de suas memórias, de seus gestos e da relação que mantêm com o lugar. A ressignificação que o documentário acompanha não é proposta pela produção, já está em curso ali.

“Esperamos que Cabelo Seco desperte um novo olhar sobre as histórias que carregamos e sobre o poder que as palavras têm de construir, mas também de transformar identidades. Para quem assistir ao documentário, desejamos que fique a reflexão de que toda comunidade tem o direito de contar sua própria história e de ressignificar as narrativas que lhe foram impostas. Para a comunidade, esperamos que o filme seja um gesto de reconhecimento, pertencimento e fortalecimento, reafirmando que sua memória, sua cultura e, principalmente, suas mulheres são as verdadeiras protagonistas dessa história. Se o documentário contribuir para que o nome Cabelo Seco passe a ser visto como um símbolo de identidade, potência e orgulho, teremos alcançado nosso principal objetivo”, destaca o grupo do filme.

O Perifa.Doc forma realizadoras das periferias para transformar as próprias vivências em audiovisual. Nas duas produções, o território não aparece como cenário, mas como parte da história contada.

A exibição de setembro reúne “Marabela”, “Cabelo Seco” e outras produções do projeto nas duas cidades.

Fichas técnicas:

“Marabela”, realizado por Daniele Mousinho, Pedro Kauê Negreiros, Lucas Fernandes, Layanni Pompeu, Tayllon Fonteneles, Adrian Santos, Marcos Landin, Débora Melo, Marcos Riper, Carine Santos, Fernando Fernandes, Sarah Lima e Felismar Rodrigues.

“Cabelo Seco”, realizado por Bárbara Lopes, Vitória Monteiro, Madu, Grazi Azevedo, Gabriel Dias, Beatriz Rocha, Maria Eduarda, Alyne Pacheco e Aline Veríssimo.

Serviço:

Exibição dos documentários do Perifa.Doc

Data: de 25 a 30 de setembro de 2026

Locais: Marabá e Belém (PA)

Realização: Pressa Filmes e Ministério da Cultura

Co-realização: estúdio UM.BA.RA.KÁ

Patrocínio: Vale, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura

Apoio: Instituto Rolé, Tuntum Cultura e Horus Planejamento e Gestão

Foto em destaque: Paulo Fávaro

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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