0
 

Um museu não é feito apenas de objetos antigos, documentos e fotografias. É também um lugar de pessoas, histórias e diferentes maneiras de enxergar o passado. Foi a partir dessa perspectiva que o Museu Judiciário Desembargador Agnano de Moura Monteiro Lopes, em Belém, realizou, ontem, 24, e hoje, 25, a programação da 20ª Primavera dos Museus.

Promovida anualmente pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), a Primavera dos Museus reúne instituições de todo o país para aproximar os espaços museais da sociedade. Em sua 20ª edição, que segue até este domingo, 27, sob o tema “Museus para Todas as Pessoas”, a iniciativa promove atividades voltadas à valorização do patrimônio cultural, à ampliação do acesso à cultura e à reflexão sobre diversidade, inclusão e pertencimento.

Realizada no espaço do Museu Judiciário, a programação colocou em discussão um tema que ainda representa um desafio para os espaços de memória: como fazer com que os museus sejam, de fato, acessíveis. O tema “Museus para todas as pessoas: reconhecendo direitos, memórias, patrimônios e identidades” ensejou debates sobre neurodiversidade, envelhecimento, acessibilidade e direito à cultura. Também houve música, dança e uma exposição dedicada à história e à religiosidade amazônica.

Na abertura, a presidente da Comissão de Gestão da Memória do Tribunal de Justiça do Pará, desembargadora Vania Valente do Couto Fortes Bitar da Cunha, chamou atenção para um aspecto que vai além das adaptações físicas.

“Quando falamos em acessibilidade, precisamos pensar também nas barreiras que não são visíveis. Como instituição pública, o Judiciário também tem o papel de trazer essa discussão para o espaço da memória e ampliar o diálogo com a sociedade. Um museu para todas as pessoas precisa acolher a criança, a pessoa idosa, a pessoa com deficiência, a pessoa neurodivergente, o pesquisador e também quem nunca teve contato com um espaço de memória”, afirmou, aduzindo que a questão passa por uma mudança na própria maneira de pensar os museus. “Não basta simplesmente abrir as portas. É preciso criar condições para que as pessoas se reconheçam nesses espaços e percebam que a memória também pertence a elas”.

Entre documentos históricos e objetos que ajudam a contar a trajetória do Judiciário paraense, está aberta a exposição “Amazônia, nos caminhos de Plácido”, do artista Apolo Neves, que propõe um olhar sobre a Amazônia antes do encontro da imagem de Nossa Senhora de Nazaré pelo caboclo Plácido, marco que deu origem a uma das maiores manifestações religiosas do país.

As obras retratam aspectos da vida amazônica daquele período, com destaque para o cotidiano do caboclo, a floresta, os rios, a pesca, o extrativismo, a produção de farinha e as diferentes formas de relação das populações com o território. A mostra permanece, de segunda a sexta-feira, até o final de outubro.

Quando o museu sai das paredes internas e externas

A programação também provocou uma reflexão sobre quem frequenta os museus – e, principalmente, sobre quem ainda não consegue chegar até eles. A servidora do TJPA, bibliotecária e bacharela em Direito Josiane Neves, que proferiu uma palestra sobre direitos, memórias, patrimônios e identidades, defendeu que os espaços de memória precisam ampliar o diálogo com novos públicos. Para ela, o acesso à cultura e ao patrimônio está diretamente relacionado à dignidade humana. Nesse sentido, os museus não devem se limitar às suas próprias estruturas físicas, mas também ocupar escolas, espaços de convivência de idosos, centros comunitários e outros locais onde as pessoas estão.

A gerente do Museu e Documentação Histórica do TJPA, Leiliane S. Rabelo, resumiu o desafio a partir de uma pergunta: quem entra nos museus e quem ainda permanece do lado de fora? A reflexão exige que as instituições identifiquem obstáculos que muitas vezes passam despercebidos. Leiliane destacou que ainda existem pessoas que não reconhecem o museu como um espaço que também lhes pertence e defendeu que ampliar a acessibilidade passa justamente por identificar essas barreiras e criar estratégias para superá-las.

O secretário judiciário do TJPA, Jonas Libório Vieira, destacou a importância de aproximar o patrimônio histórico do público e de fortalecer a relação da sociedade com a memória do Poder Judiciário. Para ele, iniciativas como o Museu Criança ajudam a mostrar que a preservação da história institucional também demanda a formação de novos públicos.

O coordenador de Documentação e Informação do TJPA, Rodolfo Marques, ressaltou que levar crianças ao espaço museal contribui para despertar, desde cedo, o interesse pela história e pela preservação da memória. Segundo ele, o contato com o acervo e com o próprio ambiente do museu permite que as novas gerações compreendam que o patrimônio preservado pertence à sociedade e deve ser conhecido e valorizado por todos.

Memória também tem nome e sobrenome

A discussão sobre patrimônio ganhou dimensão pessoal com o depoimento da servidora aposentada do TJPA, Cacilda Pinto, que dedicou quase três décadas à preservação do acervo do Judiciário paraense e avalia que, embora documentos e objetos sejam fundamentais, são as memórias das pessoas – de servidores, servidoras, magistrados e magistradas – que dão significado ao patrimônio preservado. Cacilda também acentuou a importância da continuidade desse trabalho e disse considerar gratificante acompanhar a evolução do espaço e perceber que novas pessoas estão assumindo a responsabilidade pela preservação da memória institucional.

O juiz Diego Cintra, membro da Comissão de Gestão da Memória e titular da 1ª Vara de Família de Ananindeua, também enfatizou a relação entre memória e cidadania, realçando que o museu estabelece uma conexão entre passado, presente e futuro e, ao abrir o patrimônio do Tribunal para diferentes públicos, contribui para aproximar a população do Poder Judiciário.

Marapanim leva carimbó inclusivo para dentro do Museu

A tradição cultural paraense também marcou o evento com o Carimbó Inclusivo, protagonizado por crianças e adolescentes da Escola de Ensino Fundamental Professora Zarah Trindade, de Marapanim, no nordeste do Pará. Com ritmo, dança e cores, o carimbó, uma das expressões mais representativas da identidade cultural amazônica, reforçou a proposta da Primavera dos Museus de aproximar diferentes públicos dos espaços de memória, mostrando que inclusão, patrimônio e preservação cultural podem caminhar juntos.

Crianças encerram programação

Nesta sexta-feira as atividades foram voltadas ao público infantil. Das 8h30 às 11h, o Museu Judiciário recebeu o projeto Museu Criança, com a participação de alunos e alunas do Instituto Felipe Smaldone. A presença das crianças salientou a importância de aproximar as novas gerações dos espaços de memória e de criar vínculos com o patrimônio preservado.Ao longo dos dois dias, a Casa Amarela II reuniu diferentes públicos e linguagens, colocando em diálogo documentos, obras de arte e manifestações culturais.* Com informações e fotos da equipe do Museu Judiciário.

Prefeita de Abaetetuba e sua filha sofrem ataque público

Previous article

STF barra “prompt injection” em recurso sob relatoria de Zanin

Next article

You may also like

Comments