Publicado em: 6 de julho de 2026
Houve um tempo em que a Copa do Mundo tinha cheiro de infância. As ruas amanheciam pintadas de verde e amarelo, as bandeiras ocupavam as janelas, as famílias se reuniam diante da televisão e o país parecia esquecer, por alguns instantes, todas as suas diferenças. A Seleção Brasileira representava um sentimento raro de pertencimento. Ela nos fazia acreditar que existia algo maior do que as disputas do cotidiano. Eu torcia porque via naquela camisa um símbolo de identidade, esperança e alegria coletiva.
Hoje, confesso, não consegui torcer. Minha decisão não nasceu dos resultados em campo nem da qualidade do futebol, mas de um incômodo que se acumulou ao longo dos últimos anos. Passei a enxergar a seleção inserida em um ambiente profundamente dominado pela indústria das apostas esportivas. O futebol continua despertando paixão, mas essa paixão passou a ser utilizada como instrumento para impulsionar um mercado bilionário que depende da ampliação constante do número de apostadores e da circulação crescente de apostas.
Os números mostram a dimensão dessa transformação. Em 2025, os clubes da Série A receberam mais de R$ 1 bilhão em patrocínios de empresas de apostas esportivas. Durante grande parte do campeonato, dezoito dos vinte clubes da primeira divisão estampavam marcas de casas de apostas como patrocinadoras principais. O setor passou a ocupar as camisas dos jogadores, os estádios, as transmissões, os programas esportivos e praticamente todos os espaços de divulgação relacionados ao futebol. O gramado tornou-se também uma vitrine permanente da jogatina.
Esse movimento alcançou personagens que marcaram gerações. Vinícius Júnior tornou-se embaixador da Betnacional. Galvão Bueno, cuja voz acompanhou algumas das maiores conquistas da Seleção Brasileira, também passou a participar de campanhas publicitárias da mesma empresa. Ex-jogadores e outras personalidades do futebol seguiram o mesmo caminho, emprestando sua credibilidade para promover plataformas de apostas e contribuindo para a normalização de uma atividade que pode provocar graves consequências, sobretudo entre pessoas vulneráveis.
Não questiono a legalidade desses contratos nem faço um julgamento individual sobre quem os aceita. O que me preocupa é a normalização de um modelo de negócios cuja lucratividade depende, em termos estatísticos, de que os apostadores, como conjunto, percam mais do que ganhem. Quanto maior o volume de apostas, maior tende a ser o faturamento das plataformas. Nesse processo, milhões de brasileiros são estimulados diariamente a transformar o futebol em uma esperança ilusória de renda, quando a matemática do sistema favorece, de forma permanente, a banca.
Essa realidade produz consequências que não aparecem nas campanhas publicitárias. Diversos estudos e levantamentos vêm registrando o crescimento de casos de endividamento, destruição de patrimônios, conflitos familiares, adoecimento psicológico e dependência comportamental associados ao avanço das apostas esportivas. Enquanto a publicidade vende diversão e emoção, muitas pessoas pagam um preço silencioso, alto e permanente pela ludomania.
Foi nesse momento que percebi que já não conseguia olhar para a Seleção Brasileira com os mesmos olhos. A camisa continuava amarela, mas seu significado havia mudado. Ela já não despertava apenas lembranças de conquistas, craques e Copas inesquecíveis. Aos poucos, passou também a refletir um sistema que transforma paixão em estratégia comercial e torcedores em consumidores permanentes. Ali começava a surgir uma mancha que nenhuma vitória em campo seria capaz de esconder.
Por isso, desta vez, escolhi não torcer. Não foi um gesto contra os jogadores nem contra o Brasil. Foi uma escolha de consciência.
A seleção que um dia representou a esperança de um povo hoje também serve como vitrine de uma indústria que prospera à medida que milhões de brasileiros apostam cada vez mais. Cada campanha publicitária, cada contrato milionário e cada novo embaixador ajudam a conferir legitimidade social a esse mercado, enquanto inúmeras famílias enfrentam dívidas, pessoas adoecem e vidas são atravessadas pela compulsão do jogo.
Talvez essa seja a derrota mais dolorosa do futebol brasileiro. Ela não acontece dentro das quatro linhas, masquando a camisa mais pesada da nossa história deixa de carregar apenas cinco estrelas e passa a conduzir, ainda que simbolicamente, a marca de um modelo econômico construído sobre perdas humanas.
Foi por isso que, pela primeira vez, o meu silêncio falou mais alto do que a minha torcida. E enquanto essa mancha continuar mais visível aos meus olhos do que o verde do gramado, receio que eu já não consiga ver aquela camisa com o mesmo orgulho de antes.
Te amo, Brasil, mas não dá.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




Comments