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Em razão da minha formação acadêmica aprendi que testemunha, em sentido técnico, é a pessoa chamada a prestar declarações sobre fatos que presenciou ou dos quais teve ciência, no intuito de contribuir para a formação do convencimento da autoridade policial, administrativa ou judicial. Usualmente é um terceiro em relação ao que se apura, não é parte e não pode ter interesse neste ou naquele resultado. Seu papel é auxiliar com isenção o ente público a elucidar a verdade real.

Tantos anos depois do dia em que me fiz bacharel, já não preservo a mesma fé ingênua e pueril no direito e na justiça, e não é essa a definição que me vem à mente quando penso nas testemunhas que me são caras. Mais importantes, hoje, são aquelas que vivenciaram comigo fatos relevantes da vida, acontecimentos que correm o risco de desaparecer conforme o tempo passa e essas pessoas vão nos deixando, afinal quem poderá assegurarque são verdadeiras as minhas memórias quando não houver entre nós quem as possa atestar? Quem reconhecerá como verossímeis as minhas lembranças se já não houver quem delas possa dar fé por tê-las dividido comigo? Quem poderá afirmar que momentos preciosos da minha história pessoal não foram apenas sonhos ou ficções, se ausentes os seus partícipes ou espectadores?

Um dia fui criança e acampei com meu pai no jardim da nossa casa na Ilha do Mosqueiro. Um dia fui adolescente e participei com ele de torneios de tiro no estande do Círculo Militar. Noutro dia, já adulto, segurei sua mão e disse-lhe que estava tudo bem, que entre nós não havia mágoas, minutos antes dele ser levado ao Centro Cirúrgico do Hospital do Coração, em São Paulo, de onde não sabíamos se voltaria, tantas eram as pontes que lhe deveriam erguer no peito obstruído pela nicotina, pelo alcatrão e pela teimosia em esconder emoções que jamais deveria ter escondido.

Meu pai já não está aqui, e me pergunto se tudo isso realmente ocorreu como recordo, se desvirtuei inadvertidamente um detalhe ou outro, se não são relatos mais emotivos e menos verídicos. Não sei, não há quem saiba, só o sabíamos nós dois, daí porque tais memórias integram hoje um mundo onírico, não porque sejam falsas, e sim porque não possuem mais testemunhas. Nelas há uma realidade objetiva, mas lhes falta a realidade compartilhada, enfraquecendo a dimensão coletiva da identidade – não somos apenas aquilo que vivemos e experimentamos; somos também o que os outros lembram a nosso respeito, e cada um que parte leva consigo um pedaço da nossa existência.

Nossa biografia está espalhada naqueles que amamos, nos que conosco convivem, e a ausência que nos impõem ao morrer lança às sombras registros históricos de quem somos e quem fomos. Sem estas pessoas, nossas memórias adquirem a consistência dos sonhos, tornam-se fluidas e distantes, fugazes como inscrições na areia.

Enquanto estão vivos, nossos pais guardam de nós memórias anteriores à nossa própria consciência. Lembram de fatos, atos, momentos e vivências das quais somos incapazes de lembrar. E quando morrem, levam imagens concretas de um arquivo pessoal que nunca nos pertenceu, embora nos diga respeito. Isso prossegue com os irmãos, os amigos, os colegas de trabalho, cada um guardando de nós um pouco do que nos formou ao longo da vida.

Talvez seja por isso que os mais velhos, mesmo rodeados de filhos e netos, aparentam sentir uma solidão tão acutilante, aumentada a cada vez que têm notícia da perda de um contemporâneo. Talvez seu maior medo não seja esquecer o que viveram, e sim tornarem-se os únicos que ainda lembram. Sobre isso, aliás, sempre me ocorre um trecho de Último Olhar, do escritor português Miguel Sousa Tavares. Nele o pai idoso relata à filha ainda moça a tristeza pelo falecimento de mais um parceiro: “Sabes filha? Uma das coisas mais tristes de envelhecer é quando morrem os amigos e temos de apagar os nomes deles no telemóvel. Aí, mais do que no próprio enterro, é que percebemos mesmo que morreram: que nunca mais nos vão telefonar.”

É a morte compreendida sob um outro ângulo: com ela não surge apenas a saudade de quem partiu; nasce também a solidão particular de quem ficou. Em contraposição a ter alguém de quem lembrar, perde-se alguém com quem lembrar, com quem confirmar que foram verdadeiros os fatos, reais as histórias, autênticas as experiências que nos distinguem. A primeira hipótese é solitária e melancólica; a segunda enche a vida de partilha e afeto.

E porque partilha e afeto são combustíveis da humanidade, o engenho humano sentiu a necessidade de tornar perene a memória, de fazê-la atravessar gerações, vencendo a morte para perpetuar o conhecimento, a emoção e a sabedoria que não se poderiam perder com o apagar de uma vida. Era preciso evitar que os mortos morressem inteiramente, urgia manter deles, com um legado coletivo, a contribuição dada ao aprimoramento da espécie, ao progresso da ciência, à melhor compreensão da alma e do espírito. Era, enfim, imprescindível encontrar algo maior que a vida: a arte, e assim surgiu a literatura. 

Contar histórias, fazendo-as sobreviver a quem as protagonizou ou presenciou, é exatamente o artifício inventado pelo homem em reação à fragilidade da testemunha humana. A literatura, nesse sentido, possibilita que o que desapareceu fisicamente siga irrompendo pela memória. Por meio dela os mortos podem falar, e nós podemos continuar conversando com eles – a literatura funciona, portanto, como um profícuo e eficaz diálogo com a ausência.

E se, como dito acima, nossa biografia está espalhada entre quem nos rodeia, os escritores ampliam o alcance desse espalhamento, diluindo a própria vida entre centenas, milhares, ocasionalmente milhões de leitores. Não para produzir um relato estático do passado, mas para construir sentido e significado a partir de fragmentos valiosos da experiência humana.

Isso parece responder ao questionamento inicial desta reflexão: quem confirmará as lembranças de uma pessoa quando morrerem aqueles que com ela conviveram? Vem então a literatura e responde de maneira inesperada, operando um milagre de transcendência: pessoas que nunca estiveram com ela, mas que se mostraram dispostas a ler, e portanto a perenizar, os relatos contados no papel.

Talvez seja isso a literatura. Não uma vitória sobre a morte — nenhuma palavra conseguiria tanto —, mas uma singela insubordinação contra o esquecimento. Alguém viveu, alguém amou, alguém promoveu grandes conquistas. Houve um dia uma casa, um entardecer, um momento de revelação. Enquanto houver alguém disposto a ler a história, jamais estaremos inteiramente sozinhos com nossas lembranças.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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