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O destino das nações não se mede apenas pela extensão de suas riquezas, pela estabilidade de suas instituições ou pela força de sua economia. Há povos cuja maior contribuição à humanidade reside na capacidade de fecundar o pensamento, de inaugurar novas formas de compreender as múltiplas relações que tecem a aventura humana sobre a Terra. Entre essas nações, a Noruega ocupa um lugar singular. Dela emergiram pensadores cujas reflexões atravessaram fronteiras, disciplinas e culturas, revelando que os grandes desafios do nosso tempo não podem ser compreendidos por conhecimentos fragmentados. Arne Næss e Johan Galtung pertencem a essa tradição intelectual que recusa as simplificações e convida à compreensão da complexidade do mundo.

À primeira vista, seus percursos parecem distintos: um dedica-se à filosofia da natureza; o outro, à investigação da paz. Contudo, essa distinção dissolve-se quando percebemos que ambos reconhecem a mesma trama de interdependências que constitui a condição humana. Não existe natureza separada da sociedade, assim como não existe paz dissociada da justiça. O ser humano, os ecossistemas, as instituições, a cultura e a história compõem um tecido vivo, no qual cada parte modifica o todo e, simultaneamente, é por ele transformada.

A verdadeira sustentabilidade não nasce da simples administração dos recursos naturais, assim como a paz não se limita à ausência de guerras. Ambas exigem uma reforma do pensamento capaz de superar a fragmentação do conhecimento e reconhecer que a vida se organiza em redes de solidariedade, reciprocidade e responsabilidade. É nesse horizonte que o legado de Arne Næss e Johan Galtung permanece atual: ambos nos recordam que compreender o mundo significa, antes de tudo, compreender as relações que unem a humanidade a si mesma, aos outros e ao planeta que partilha.

Toda civilização que pretende atravessar o tempo sem sucumbir às próprias contradições precisa compreender uma verdade elementar: não existe prosperidade onde a Terra é reduzida a mercadoria, nem existe paz onde a dignidade humana é fragmentada pela desigualdade. Essa não é apenas uma hipótese filosófica; é uma conclusão construída pela observação persistente da história. Cada sociedade que rompeu seus vínculos com a natureza terminou por comprometer sua própria sobrevivência. Cada sociedade que naturalizou a injustiça acabou descobrindo que a violência nunca desaparece: apenas muda de linguagem.

É nesse horizonte que convergem as reflexões de Arne Næss e Johan Galtung. Embora tenham partido de campos distintos do conhecimento, ambos recusaram uma das ilusões mais persistentes da modernidade: a crença de que o ser humano ocupa um lugar exterior ao mundo que habita e superior às relações que o constituem.

Ao formular a Ecologia Profunda, Arne Næss deslocou o eixo da reflexão ética. A natureza deixa de existir para servir ao ser humano; passa a existir porque possui dignidade em si mesma. Rios não são apenas reservas hídricas. Florestas não são apenas estoques de madeira. Montanhas não representam apenas potencial mineral. Animais não constituem simples recursos biológicos. Todos participam de uma comunidade da vida cuja existência independe do valor econômico que lhes seja atribuído. Essa mudança de perspectiva exige, antes de tudo, uma transformação da consciência: abandonar a lógica da apropriação para reconhecer a ética da coexistência.

Poucos países tornam essa reflexão tão urgente quanto o Brasil. A Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica e os demais biomas revelam, diariamente, que nenhuma devastação permanece confinada ao lugar onde ocorre. A destruição de uma floresta altera o regime das águas, modifica o clima, intensifica desigualdades, desloca populações, amplia vulnerabilidades econômicas e compromete o futuro de gerações que sequer participaram das decisões do presente. A experiência concreta conduz a uma conclusão inequívoca: preservar a natureza não representa um custo do desenvolvimento; constitui a própria condição de sua existência.

Johan Galtung realizou movimento semelhante ao desafiar outra simplificação histórica: a de identificar paz com silêncio das armas. Seu conceito de violência estrutural revelou que uma sociedade pode parecer estável enquanto produz sofrimento cotidiano por meio da exclusão, da pobreza, da discriminação, da concentração de poder e da negação sistemática de direitos. Existem guerras que não aparecem nos mapas militares, mas se manifestam na fome, na ausência de escolas, na precarização do trabalho, na invisibilidade social e na desigual distribuição das oportunidades.

Os fatos confirmam essa percepção. Sempre que comunidades inteiras são privadas de educação, saúde, trabalho digno e participação democrática, instala-se um ambiente em que o conflito deixa de ser exceção para tornar-se consequência previsível. Não se trata de fatalidade histórica, mas de escolhas políticas. A paz verdadeira não nasce da contenção da violência; nasce da superação das estruturas que continuamente a produzem.

Arne Næss inaugurou um novo paradigma da filosofia ambiental, enquanto Johan Galtung estabeleceu as bases contemporâneas dos Estudos para a Paz. Essa constatação pertence ao domínio dos fatos históricos. Suas obras alcançam dimensão ainda mais profunda. Ambos recusaram a neutralidade diante das formas de dominação que se apresentam como inevitáveis. Ambos demonstraram que pensar também é um ato de responsabilidade ética. Quando Næss devolve valor intrínseco à natureza, questiona a lógica que transforma toda forma de vida em objeto de exploração. Quando Galtung revela as engrenagens invisíveis da violência, denuncia a falsa normalidade das injustiças institucionalizadas.

Suas reflexões encontram-se precisamente porque a realidade não reconhece as fronteiras artificiais impostas pelas disciplinas acadêmicas. A devastação ambiental intensifica desigualdades sociais; estas alimentam conflitos; os conflitos aceleram novas formas de destruição da natureza, formando um ciclo que ameaça tanto os ecossistemas quanto a própria democracia. Separar essas questões significa compreender apenas fragmentos de um mesmo fenômeno.

Talvez esse seja o legado mais duradouro desses dois pensadores noruegueses: recordar que a humanidade não enfrenta crises isoladas, mas uma única crise das relações que estabelece consigo mesma, com os outros seres humanos e com a Terra. Enquanto insistirmos em tratar essas dimensões como problemas independentes, permaneceremos administrando consequências em vez de transformar causas. Somente quando reconhecermos que justiça, paz e equilíbrio ecológico pertencem à mesma arquitetura civilizatória será possível construir um futuro que mereça, verdadeiramente, o nome de humano.

O legado de Arne Næss e Johan Galtung permanece extraordinariamente atual diante dos desafios do século XXI. Em um mundo confrontado pelas mudanças climáticas, pelas desigualdades crescentes e pelas tensões internacionais, suas reflexões oferecem não apenas diagnósticos consistentes, mas também caminhos concretos para a construção de sociedades mais justas, sustentáveis e solidárias.

Para o Brasil, país que reúne uma das maiores biodiversidades do planeta e uma sociedade marcada por grandes contrastes sociais, essas contribuições possuem especial relevância. Elas recordam que preservar a natureza significa preservar a própria vida e que promover a paz implica enfrentar as causas profundas das injustiças.

Mais do que filósofos ou cientistas sociais, Arne Næss e Johan Galtung legaram à humanidade uma visão ética capaz de unir consciência ambiental, justiça social e cultura da paz. Seu pensamento continua a inspirar aqueles que acreditam que um futuro melhor nasce quando o respeito à Terra caminha lado a lado com o respeito às pessoas.

REFERÊNCIAS

GALTUNG, Johan. Violência, paz e pesquisa para a paz. Tradução para o português. Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n. 308, p. 27-63, 2009. (Tradução do artigo clássico Violence, Peace, and Peace Research, publicado originalmente em 1969.)

GALTUNG, Johan. Peace by Peaceful Means: Peace and Conflict, Development and Civilization. London: Sage Publications, 1996.

GALTUNG, Johan. Violence, Peace, and Peace ResearchJournal of Peace Research, Oslo, v. 6, n. 3, p. 167-191, 1969.

HOEFEL, João Luiz. Arne Naess e os oito pontos da ecologia profundaTemáticas, Campinas, v. 4, n. 7, p. 69-89, 1996. Disponível em: https://doi.org/10.20396/tematicas.v4i7.12404. Acesso em: 8 jul. 2026.

NÆSS, Arne; SESSIONS, George. Manifesto da Ecologia Profunda. Tradução para a língua portuguesa. Koinonia – Serviços de Comunicação, 2010. Disponível em: http://www.servicioskoinonia.org/agenda/archivo/portugues/obra.php?ncodigo=304. Acesso em: 8 jul. 2026.

NÆSS, Arne. Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Tradução de David Rothenberg. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.

NÆSS, Arne. The Ecology of Wisdom: Writings by Arne Næss. Berkeley: Counterpoint Press, 2008.

ROTHENBERG, David (org.). The Selected Works of Arne Næss. Dordrecht: Springer, 2005.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Staël Sena
Stael Sena é advogado pós-graduado em Direito (UFPA) e presidente da Comissão Estadual de Defesa da Liberdade de Imprensa da OAB-PA.

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