0
 

A disputa pelo terceiro lugar da Copa do Mundo de 2026, neste sábado (18), em Miami, entregou exatamente aquilo que muitos não esperavam de uma partida de consolação: um espetáculo. Em um confronto eletrizante, a Inglaterra derrotou a França por 6 a 4, em um duelo de dez gols que entrou para a história como um dos jogos mais emocionantes já realizados nessa fase do Mundial. 

A Inglaterra parecia determinada a responder imediatamente às críticas recebidas após a eliminação para a Argentina na semifinal. Thomas Tuchel foi bastante questionado pela postura excessivamente conservadora diante dos argentinos, quando abriu mão de atacar para defender uma vantagem mínima e acabou sofrendo a virada. Em Miami, o roteiro foi completamente diferente. Os ingleses atropelaram a França na etapa inicial, abriram 4 a 0 ainda antes do intervalo e apresentaram um futebol agressivo, intenso e vertical. O grande símbolo dessa mudança foi Bukayo Saka. Depois de sequer ser utilizado na semifinal, o atacante respondeu da maneira mais contundente possível: marcou três vezes – inclusive, o quinto go inglês, de pênalti, na reta final – e assinou um dos grandes desempenhos individuais desta Copa. 

Nem mesmo uma vantagem tão confortável foi suficiente para eliminar o drama. A França voltou transformada para o segundo tempo e encontrou em Kylian Mbappé o combustível para uma reação impressionante. O camisa 10 marcou duas vezes, comandou a pressão francesa e alcançou um novo feito: chegou a 22 gols em 21 partidas disputadas nas Copas de 2018, 2022 e 2026, tornando-se, provisoriamente, o maior artilheiro da história dos Mundiais. O recorde consolida uma carreira que, aos 27 anos, já ocupa um espaço reservado apenas aos gigantes do futebol mundial. 

Se Mbappé escreveu mais um capítulo de sua trajetória histórica, Jude Bellingham confirmou que pertence ao presente e ao futuro da Inglaterra. Coube a ele marcar o sexto gol inglês, já nos acréscimos, encerrando qualquer esperança francesa e fechando sua campanha com sete gols na Copa — um recorde para um jogador inglês em uma única edição do torneio. Bellingham reafirmou sua condição de líder técnico e emocional de uma geração que parece finalmente preparada para transformar talento em conquistas consistentes nos próximos anos. 

Pelo lado francês, o resultado teve um significado ainda mais profundo. A partida marcou a despedida de Didier Deschamps do comando da seleção após uma das passagens mais vitoriosas da história dos Bleus. Campeão mundial em 2018, vice em 2022 e novamente entre os quatro melhores em 2026, Deschamps encerra um ciclo de estabilidade, competitividade e renovação permanente. A derrota em Miami não apaga um legado que ajudou a transformar a França em uma potência quase permanente do futebol internacional e abre espaço para uma nova era que deverá ser conduzida por Zinedine Zidane. 

Depois de décadas convivendo com frustrações, eliminações traumáticas e a eterna lembrança do título de 1966, os ingleses encerram o Mundial com a sensação de que possuem uma base suficientemente madura para voltar a disputar títulos importantes. A campanha também oferece uma espécie de redenção parcial a Tuchel. Se a postura excessivamente cautelosa diante da Argentina continuará alimentando debates sobre o que poderia ter sido, a resposta ofensiva apresentada diante da França demonstra que esta seleção talvez seja ainda melhor quando joga sem medo.

Entre o hat-trick de Saka, o sétimo gol de Bellingham na campanha, a despedida de Deschamps e o recorde de Mbappé, a disputa do terceiro lugar acabou funcionando como um retrato perfeito desta Copa do Mundo: um torneio em que o protagonismo passou das velhas gerações para novos ídolos, sem deixar de reverenciar aqueles que ajudaram a construir o caminho. Em um jogo que distribuiu dez gols, o maior vencedor talvez tenha sido o próprio futebol. 

Imagem em destaque: caricatura gerada por IA do jogador inglês Bukayo Saka.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Rodolfo Marques
Rodolfo Marques é professor universitário, jornalista e cientista político. Desde 2015, atua também como comentarista esportivo. É grande apreciador de futebol, tênis, vôlei, basquete e F-1.

A Filarmônica Municipal Prof. José Agostinho na WASBE 2026 e a música santarena brilha no cenário nacional

Previous article

Cartas da China 13 – Xi’an: camadas superpostas de história

Next article

You may also like

Comments