Publicado em: 6 de julho de 2026
O apito final no MetLife Stadium, em Nova Jersey, neste domingo (05), decretou a derrota do Brasil por 2 a 1 para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo – e enterrou um ciclo inteiro. Um projeto que começou cercado de promessas terminou envolto em frustrações, improvisos e contradições. O roteiro foi cruel porque parecia controlado durante boa parte da partida. O Brasil criou, desperdiçou, perdeu um pênalti com Bruno Guimarães, viu Endrick desperdiçar uma oportunidade claríssima e, quando a conta chegou, ela veio na forma mais impiedosa possível: dois gols de Erling Haaland. O pênalti convertido por Neymar, já nos acréscimos, serviu para mexer pouco em um resultado já definido.
Seria injusto resumir a eliminação apenas aos erros brasileiros. A Noruega mereceu a classificação. Organizada, paciente e consciente de suas virtudes – e também de seus defeitos –, suportou a pressão quando precisou e foi letal no momento decisivo. E isso acontece quando se tem um atacante da dimensão de Haaland. O camisa 9 espera, observa e castiga. No futebol moderno, poucos transformam momentos em tanto impacto. Bastaram duas oportunidades para mudar a história de um Mundial e colocar seu país, pela primeira vez, entre os oito melhores da competição.
O Brasil, por outro lado, voltou a ser vítima de um velho defeito: desperdiçar chances em jogos eliminatórios. Não faltaram oportunidades para construir uma vantagem confortável. Faltou eficiência. Em Copa do Mundo, o desperdício costuma cobrar juros altíssimos. Contra seleções organizadas, não existe espaço para tantas falhas. A Seleção dominou momentos do jogo, mas, quando Haaland apareceu, toda a superioridade construída até então virou estatística sem valor.
Também será impossível ignorar um dos debates mais evidentes da participação brasileira nesta Copa: a entrada de Neymar, atendendo ao clamor popular e emocional, não produziu o efeito esperado. Pelo contrário. A equipe perdeu intensidade, organização e capacidade de pressionar a saída adversária. Os dados do jogo apontam uma queda de rendimento justamente após sua entrada, e a mudança alterou a dinâmica que o Brasil vinha apresentando. Não se trata de transformar Neymar em bode expiatório. O erro foi coletivo e, sobretudo, de quem tomou a decisão. Carlo Ancelotti, pela primeira vez desde que assumiu a Seleção, deixou o pragmatismo de lado para ceder ao peso do símbolo.
Mas reduzir a eliminação aos noventa minutos seria confortável demais. O fracasso começou muito antes de a bola rolar nos Estados Unidos. Este foi um ciclo marcado por uma CBF mergulhada em instabilidade política, mudanças constantes de comando, indefinições técnicas e planejamento errático. Dentro de campo, Ancelotti chegou tarde para apagar incêndios que não criou. Agora, sem a pressão imediata de um Mundial, terá quatro anos para construir uma equipe com identidade, corrigir carências e formar um time que não dependa de nomes, mas de um modelo de jogo sólido. Pela primeira vez em muito tempo, a priori, o Brasil terá um ciclo completo nas mãos de um treinador que conhece o caminho das grandes conquistas.
A dor da eliminação passará, como sempre passou. O que não pode passar é a ilusão de que basta trocar jogadores ou encontrar um novo herói. O futebol brasileiro continua produzindo talento, mas talento sem organização não ganha Copa. Haaland mostrou isso do outro lado. A Noruega mostrou isso como equipe – e agora terá um duelo empolgante com os inventores do futebol – a Inglaterra.
Talvez a grande pergunta não seja quando o Brasil voltará a conquistar o hexacampeonato. A provocação é outra, bem mais incômoda: o país está realmente disposto a mudar a forma de administrar o futebol, que é, ainda, o mais vitorioso no âmbito global?
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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