Publicado em: 22 de julho de 2026
A Copa do Mundo de 2026 encerrou um ciclo esportivo e, ao mesmo tempo, reacendeu uma das discussões mais antigas do futebol: quem foi o maior jogador de todos os tempos? A conquista da Argentina em 2022 e a extraordinária carreira de Lionel Messi tornaram essa comparação constante na mídia. O craque argentino, já nos capítulos finais de sua trajetória, consolidou-se como um dos maiores atletas da história do esporte, reunindo uma coleção impressionante de títulos, recordes e oito Bolas de Ouro. No entanto, quando a admiração cede espaço à perspectiva histórica, o parâmetro continua sendo Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. O brasileiro, falecido em 2023, permanece como a referência máxima do futebol, a medida pela qual todas as gerações posteriores passaram a ser avaliadas.
Há um aspecto simbólico que ultrapassa qualquer estatística. Antes de Pelé, a camisa 10 era apenas um número; depois dele, tornou-se um patrimônio cultural do futebol mundial. O brasileiro redefiniu a posição, transformou a criatividade em linguagem universal e ajudou a converter o futebol em um espetáculo global. Não por acaso, durante décadas, todo jogador extraordinário foi apresentado como “o novo Pelé”. Nunca ocorreu o inverso. A comparação sempre parte do Rei porque foi ele quem estabeleceu o mais elevado padrão de excelência.
Isso não diminui a dimensão da carreira de Messi. Durante quase vinte anos, o argentino encantou o mundo com a camisa do Barcelona, conquistou praticamente todos os títulos possíveis, acumulou números extraordinários e tornou-se o principal protagonista de uma era marcada pela hiperprofissionalização do futebol. Pela seleção, encerrou um longo período de cobranças ao conquistar a Copa América, em 2021, após muitas tentativas, e liderar a Argentina ao título mundial de 2022. Se algum jogador conseguiu reduzir a distância em relação ao Rei, esse jogador foi Lionel Messi. Sua regularidade, longevidade e capacidade técnica fazem dele, provavelmente, o maior futebolista do século XXI.
A comparação, contudo, exige respeito aos contextos históricos. A Bola de Ouro, frequentemente utilizada como argumento, nasceu em 1956 para premiar, prioritariamente, jogadores que atuavam no futebol europeu. Durante décadas, atletas sul-americanos que permaneciam em seus países sequer podiam concorrer. O prêmio ganhou projeção mundial apenas com a expansão das transmissões internacionais e o fortalecimento das grandes ligas europeias. Pelé jamais disputou a premiação em igualdade de condições. Tanto que, anos depois, a própria publicação France Football reconheceu a distorção histórica ao estimar que ele teria conquistado diversas edições caso os critérios atuais fossem aplicados à sua época.
As Copas do Mundo reforçam ainda mais essa singularidade. Pelé conquistou três títulos mundiais (1958, 1962 e 1970), em quatro tentativas, e continua sendo o único tricampeão da história do futebol. Marcou 12 gols em apenas 14 partidas, seis deles na campanha de 1958, quando tinha apenas 17 anos e foi decisivo para que o Brasil conquistasse sua primeira Copa. Sua atuação naquele Mundial permanece entre as maiores demonstrações individuais já registradas na competição. Pelé protagonizou conquistas que consolidaram o Brasil como a maior potência do futebol internacional por um bom tempo.
Durante a Copa de 2026, o debate sobre os feitos de Pelé voltou ao centro das discussões. Em um programa recente do SporTV, o jornalista Paulo César Vasconcellos sintetizou uma percepção compartilhada por muitos estudiosos da história do esporte: “Sempre vai aparecer alguém dizendo que o Pelé não jogou tudo isso. O Pelé jogou mais do que você imagina, mais do que você não viu e mais do que você jamais verá.” A frase resume a força de um legado que continua atravessando gerações.
Os números ajudam a dimensionar a grandeza de ambos. Messi encerrou, em tese, sua trajetória em Copas aos 39 anos. Tem, na carreira, até julho de 2026, 919 gols em 1.163 partidas oficiais, média de 0,79 gol por jogo, além de 46 títulos, incluindo a Copa do Mundo de 2022. Pelé terminou a carreira com 1.282 gols em 1.363 partidas, considerando jogos oficiais e amistosos, ou 757 gols em 831 partidas oficiais, alcançando média de 0,91 gol por jogo (muito superior à do argentino). Ambos pertencem ao grupo mais restrito da história do esporte, mas a contribuição de Pelé extrapola as estatísticas: primeiro grande ícone global do futebol, foi ele quem revolucionou a forma de jogar, compreender e consumir o esporte.
O último capítulo de Messi na Copa do Mundo de 2026 teve um tom melancólico. Na final contra a Espanha, sua genialidade apareceu discretamente, mas já não bastou para compensar o desgaste natural da idade, as limitações de uma Argentina menos competitiva e as escolhas contestadas da comissão técnica. A expulsão de Enzo Fernández, nos minutos finais do tempo regulamentar, simbolizou o descontrole de uma equipe que viu o título escapar. Pouco depois, Messi envolveu-se em um desentendimento com Marc Cucurella, protagonizando uma reação classificada como antidesportiva por parte da imprensa esportiva. Após o apito final, a delegação argentina voltou-se para sua torcida de costas para os novos campeões durante a cerimônia de premiação, gesto interpretado por muitos como uma demonstração de falta de esportividade. Assim, uma campanha marcada por controvérsias encontrou um desfecho emblemático. Messi permanece entre os maiores jogadores da história, mas, em sua provável despedida dos Mundiais, acabou vencido pelo tempo e por uma Espanha coletivamente superior.
Talvez essa seja a melhor forma de compreender o debate. Messi representa o auge técnico do futebol contemporâneo, desenvolvido em um ambiente altamente competitivo, científico e globalizado. Pelé, por sua vez, foi o homem que redefiniu o próprio esporte. Brilhou em uma época de gramados precários, arbitragem permissiva e pouca exposição internacional, mas ainda assim tornou-se o primeiro ícone planetário do futebol. Messi aperfeiçoou uma arte consolidada; Pelé protagonizou a criação do futebol em sua forma moderna.
O Mundial terminou com uma nova campeã e novos heróis. O tempo seguirá revelando talentos capazes de conquistar títulos, quebrar recordes e emocionar multidões. Alguns, como Messi, chegaram muito perto da eternidade. Mas há uma fronteira que nunca foi ultrapassada.
Os grandes escrevem capítulos da história; Pelé escreveu a obra inteira. Há muitos gênios, alguns súditos ilustres, mas o trono do futebol continua pertencendo ao único e verdadeiro Rei.
Nota do colunista:
Este é também o meu último texto sobre a Copa do Mundo de 2026 neste espaço. Ao longo do torneio, foram 40 artigos dedicados às partidas, aos protagonistas, às estratégias, aos bastidores e às dimensões políticas, culturais e sociais do maior evento esportivo do planeta. Escrever sobre uma Copa do Mundo é registrar memórias, interpretar transformações e preservar emoções. Agradeço a todos e a todas que acompanharam essa jornada.
Imagem em destaque: caricatura gerada por IA.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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