Publicado em: 21 de julho de 2026
A Copa do Mundo de 2026 entrou para a história como a maior já realizada. Foram 48 seleções, 104 partidas, 308 gols — recorde absoluto em números totais — e média de 2,96 gols por jogo. Também houve recorde de público, com mais de 6,8 milhões de torcedores nos estádios e ocupação média próxima de 100%, comprovando que o futebol continua sendo o maior espetáculo esportivo do planeta. O aumento do número de participantes, porém, dividiu opiniões. Houve a ampliação da representatividade global e histórias encantadoras, assim como houve partidas tecnicamente desequilibradas e dúvidas sobre a necessidade de um torneio tão inflado.
Nem tudo, entretanto, foi motivo de celebração. As arbitragens estiveram entre os principais alvos de críticas, marcadas por decisões inconsistentes, excesso de interferências e interpretações que alimentaram debates durante toda a competição. A novidade dos quatro tempos, com pausas obrigatórias para hidratação em razão do forte calor norte-americano, representou uma tentativa legítima de proteger os atletas, embora tenha alterado significativamente o ritmo das partidas. Ainda assim, o saldo técnico foi positivo: o torneio produziu confrontos memoráveis, grandes atuações individuais e jogos de alto nível, especialmente a partir das oitavas de final.
Ao todo, oito confrontos da fase eliminatória ultrapassaram os 90 minutos. Cinco deles foram resolvidos durante o tempo extra: a final, com a vitória da Espanha por 1 a 0 sobre a Argentina; Argentina 3 a 2 Cabo Verde, nos 16-avos de final; Bélgica 3 a 2 Senegal, também nos 16-avos; Argentina 3 a 1 Suíça, nas quartas de final; e Inglaterra 2 a 1 Noruega, igualmente nas quartas. Outros três jogos permaneceram empatados mesmo após os 120 minutos e foram definidos nas cobranças de pênaltis: Alemanha foi eliminada pelo Paraguai, Marrocos venceu a Holanda e a Suíça venceu a Colômbia. Os números revelam um Mundial de margens muito estreitas, em que a capacidade de resistência física, o preparo mental e a qualidade dos elencos fizeram a diferença nos momentos decisivos, reforçando o caráter altamente competitivo da competição.
A Espanha conquistou o título com todos os méritos. Depois de uma década de reconstrução, consolidou um projeto baseado em formação de talentos, identidade de jogo, posse de bola qualificada e enorme consistência defensiva. A vitória por 1 a 0 sobre a Argentina, na prorrogação, coroou uma campanha praticamente impecável: apenas um gol sofrido em oito partidas e um futebol que combinou controle, intensidade e maturidade competitiva. Ferrán Torres marcou o gol decisivo, mas o verdadeiro protagonista foi um coletivo que reafirmou a escola espanhola de jogar futebol.
A Argentina chegou à decisão, mas conviveu durante todo o torneio com questionamentos sobre supostos favorecimentos de arbitragem em momentos decisivos, tema que alimentou debates entre torcedores e comentaristas. A falta de fair play após a derrota para a Espanha também foi algo observado. Jogadores como Dibu Martinez, Leandro Paredes e Enzo Fernández, sempre tão provocadores nas vitórias, não conseguem respeitar os adversários que vencem.
Paralelamente, a final simbolizou também a provável despedida de Lionel Messi dos Mundiais. Mesmo encerrando sua trajetória como um dos maiores jogadores da história, o argentino viu Kylian Mbappé assumir o posto de maior artilheiro das Copas, chegando a 22 gols e conquistando novamente a Chuteira de Ouro, agora com dez gols marcados apenas nesta edição.
A França, que iniciou a competição entre as favoritas, perdeu força justamente na reta decisiva. O ataque continuou extremamente eficiente graças a Mbappé e Dembélé, mas o equilíbrio coletivo desapareceu nas fases finais, culminando na derrota para a Espanha na semifinal e em uma surpreendente disputa de terceiro lugar repleta de gols contra a Inglaterra. Individualmente, Mbappé saiu consagrado; coletivamente, os franceses deixaram a sensação de que desperdiçaram uma enorme chance de conquistar mais um título mundial.
O Brasil, por sua vez, encerrou mais uma Copa cercado por frustrações. Faltaram organização tática, personalidade e capacidade de competir contra as principais potências europeias. A seleção voltou a demonstrar dificuldades diante de adversários mais estruturados e permaneceu distante do protagonismo esperado para um país pentacampeão mundial.
Em contrapartida, uma das histórias mais bonitas do torneio veio de Cabo Verde. A pequena seleção africana conquistou a simpatia do mundo inteiro, especialmente pela figura carismática do goleiro Vozinha, cuja liderança e atuações mobilizaram torcedores muito além das fronteiras do arquipélago. Cabo Verde não perdeu nenhuma partida nos 90 minutos.
Fora das quatro linhas, a Copa também foi atravessada pela política. Realizado em Estados Unidos, México e Canadá, o Mundial conviveu com tensões diplomáticas, protestos e declarações polêmicas do presidente norte-americano Donald Trump, que frequentemente desviaram parte da atenção do espetáculo esportivo. A competição acabou refletindo um cenário internacional marcado por disputas geopolíticas, imigração, segurança e polarização, confirmando que grandes eventos esportivos dificilmente conseguem permanecer isolados das circunstâncias políticas do seu tempo.
No balanço histórico, a Copa de 2026 consolidou uma tendência que já vinha sendo desenhada há duas décadas. Com o bicampeonato espanhol, a Europa ampliou sua vantagem sobre a América do Sul no número de títulos mundiais: agora são 13 conquistas europeias contra 10 sul-americanas. O futebol segue globalizado, mais físico, mais intenso e cada vez mais dominado por projetos de longo prazo.
O Mundial terminou com recordes, emoções e novos protagonistas. E já começou a contagem regressiva para a Copa de 2030, com, possivelmente, 64 seleções (!).
Quem viver verá!
Imagem em destaque: caricatura gerada por IA da taça e da bola.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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