Publicado em: 3 de setembro de 2026
Brasil, setembro de 2026: o maior medo do cidadão brasileiro é abrir uma reportagem e descobrir que recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro. Piadinhas à parte, a essa altura do campeonato, achar alguém em Brasília que nunca tenha cruzado com o banqueiro virou o passatempo mais difícil da capital federal. Os roteiristas da novela Banco Master estão em polvorosa.
Um banco médio pagando até 140% do CDI, uma garantia pública de R$ 250 mil por CPF e uma folha de pagamento informal que ia de ex-presidentes do Banco Central a colunistas de celebridades. O escândalo do Banco Master começou como um caso de captação agressiva e virou a maior crise de credibilidade institucional em curso no país. O Banco Central liquidou o Master em 18 de novembro de 2025, um dia depois de a Polícia Federal prender o controlador Daniel Vorcaro no aeroporto de Guarulhos, quando ele tentava embarcar num jato rumo a Dubai. A PF estima em quase R$ 40 bilhões o rombo, sustentado, segundo a investigação, pela venda de carteiras de crédito sem lastro. Só para o Banco de Brasília foram R$ 12,2 bilhões negociados por uma empresa de fachada, e de 130 contratos analisados por amostragem nenhum tinha lastro.
A apuração se chama Operação Compliance Zero e já passou de dez fases. Quem investiga é a Polícia Federal, quem acusa é a Procuradoria-Geral da República, e quem autoriza cada passo é o Supremo Tribunal Federal, porque na teia aparecem autoridades com foro por prerrogativa de função, o que puxa o inquérito inteiro para a corte.
No STF, o inquérito é distribuído por sorteio a um ministro relator. Ele não julga sozinho o mérito, mas decide quase tudo o que acontece antes disso. É ele quem autoriza busca e apreensão, decreta prisão preventiva, manda bloquear bens, define o que fica sob sigilo e o que vira público, prorroga prazos e responde aos pedidos da PF e da PGR. Na prática, o inquérito anda no ritmo e na direção que essa mesa determina, e é por isso que a briga em torno de quem ocupa a cadeira virou o capítulo mais quente do caso.
A relatoria caiu com Dias Toffoli em 28 de novembro de 2025. Ele decretou sigilo, mandou lacrar o material apreendido e deixou o caso em fevereiro de 2026, depois que reportagens apontaram negócios entre um resort de sociedade familiar dele e o entorno de Vorcaro. Assumiu André Mendonça, que decretou a segunda prisão do banqueiro em 4 de março de 2026, desta vez por ocultação de mais de R$ 2 bilhões em bens e pela existência de um grupo armado apelidado de A Turma, usado para vigiar e ameaçar desafetos.
Só que em 14 de março de 2025, André Mendonça passou cerca de duas horas com Daniel Vorcaro no Instituto Iter, em São Paulo. O encontro foi articulado durante semanas pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira, do PL paulista, e apareceu em mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro, divulgados pela newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn. O ministro afirma que a reunião foi profissional e estava registrada na agenda oficial. Onze meses depois, ele virou o relator do inquérito que investiga o homem com quem se reuniu.
Antes da reunião, em 8 de fevereiro de 2025, o mesmo advogado mandou a Vorcaro uma foto ao lado do ministro na alfaiataria Vasco Vasconcelos e um áudio em que se gaba do serviço. “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, diz a gravação. Oito dias depois, ele cobrava a agenda do banqueiro, afirmando que “o A.M. quer recebê-lo” e que era muito importante a ida junto com ele. Mendonça nega ter ganhado a roupa e afirma que não recebeu o terno de Vorcaro nem de qualquer outra pessoa. Sobre o encontro, sustenta que esteve com o empresário uma única vez, em março de 2025, que se limitou a ouvi-lo a respeito de um processo que estava em julgamento no Supremo, que guarda no gabinete os memoriais entregues na ocasião e que depois votou contra o interesse defendido por ele.
O ponto crítico da coisa é que em 1º de setembro de 2026, Mendonça retirou o sigilo das menções a Alexandre de Moraes e defendeu levar o caso ao plenário em sessão pública. Já o material que envolve Flávio Bolsonaro continua sob segredo de justiça e só se tornou conhecido por vazamento à imprensa, em maio de 2026. Ou seja, o que compromete um ministro do STF foi aberto por decisão do relator, e o que compromete o presidenciável Flávio (Mendonça foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro) segue em sigilo. Por que dois pesos e duas medidas? O coerente não seria tudo vir a público?
PT, PCdoB, PSol e Rede pediram à PGR o afastamento de Mendonça da relatoria no dia 2 de setembro de 2026. José Dirceu disse que ele perdeu as condições de continuar relator. Paulo Pimenta falou em vazamento seletivo. Pedro Uczai, líder do PT na Câmara, ligou diretamente a ausência de apuração sobre Flávio ao encontro do ministro com Vorcaro. Do outro lado, o senador Rogério Marinho, coordenador político da campanha de Flávio, também reclamou de vazamento seletivo, mas em sentido contrário, e pediu que Mendonça apurasse quem soltou os áudios do senador. Flávio Bolsonaro classificou a reunião do relator com o banqueiro como totalmente profissional e disse ser impossível querer lançar cortina de fumaça sobre Mendonça, numa demonstração de fair play que ele não estendeu a Moraes.
Em 13 de maio de 2026, o Intercept Brasil publicou áudios em que Flávio Bolsonaro pede R$ 134 milhões a Vorcaro para bancar a produção de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. As mensagens são de 15 e 16 de novembro de 2025, véspera da prisão do banqueiro em Guarulhos. Numa delas, o senador escreve que está e sempre estará com Vorcaro, que não existe meia verdade entre os dois, e que precisa apenas de uma luz.
O dinheiro saiu. Segundo relatório do Coaf revelado pela piauí em 1º de setembro de 2026, foram pelo menos sete remessas somando US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 65 milhões, ao fundo estadunidense Havengate (administrado por Eduardo Bolsonaro) que financiou o filme, orçado em torno de US$ 13,39 milhões. Flávio afirmava publicamente que os repasses tinham cessado em maio de 2025, mas os registros apontam transferências em setembro e outubro daquele ano, uma delas oito dias depois de uma conversa entre o banqueiro e o senador. A defesa apresentou como prestação de contas um laudo encomendado pela própria produtora. O material que trata do senador segue sob sigilo no STF, e a possível participação dele é descrita pela PF como apuração ainda preliminar.
Também do clubinho bolsonarista, o deputado Nikolas Ferreira usou o Embraer Phenom 300 de Vorcaro na caravana Juventude pelo Brasil, em 2022, que percorreu nove estados em cerca de dez dias em apoio à campanha de Jair Bolsonaro. Ele diz que não sabia de quem era o avião e que a aeronave havia sido alugada pelo evento. Fotos do período mostram o deputado a bordo com o pastor André Valadão, da Igreja da Lagoinha, a mesma congregação de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro.
O nome dele também está na agenda do celular apreendido, ao lado do de Pablo Almeida, vereador do PL em Belo Horizonte, ex-assessor e ex-sócio de Nikolas na Destra Cursos, salvo por Vorcaro como Pablo Almeida Assessor Nikolas. Deputadas e deputados governistas protocolaram representações no TSE, na PGR e no STF sustentando que o transporte não declarado configuraria caixa dois de campanha. (leia a atualização do envolvimento de Nikolas ao final da matéria)
A campanha de Tarcísio ao governo de São Paulo em 2022 recebeu R$ 2 milhões de Fabiano Zettel, empresário e pastor casado com uma irmã de Vorcaro, sexto maior doador pessoa física daquela eleição, que no mesmo mês destinou R$ 3 milhões à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro. Zettel foi detido temporariamente pela PF em janeiro de 2026 quando tentava embarcar num jato para os Emirados Árabes, roteiro que já era tradição na família.
O governo paulista também virou objeto de representação por causa de duas privatizações. Em denúncia protocolada em 13 de maio de 2026 pelo deputado estadual Antônio Donato e em análise no Ministério Público de São Paulo, a venda da EMAE, em abril de 2024, teria sido vencida por um fundo criado um mês antes do leilão e financiado por estruturas ligadas ao Master. Karla Maciel Dolabella, que chefiava a área de fusões e aquisições do Master, assumiu a presidência da EMAE depois da privatização e deixou o cargo em dezembro de 2025.
Em agosto de 2024, o senador Ciro Nogueira apresentou emenda à PEC 65 elevando a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Segundo a PF, o texto foi redigido por assessores do próprio Banco Master e entregue num envelope na casa do senador. Com o teto maior, o Master poderia captar muito mais dinheiro oferecendo rentabilidade acima do mercado, e interlocutores chegaram a falar em sextuplicar os negócios. A emenda foi rejeitada na CCJ do Senado.
Em 7 de maio de 2026, Ciro Nogueira e o irmão Raimundo viraram alvos de busca e apreensão na quinta fase da operação, por ordem de Mendonça. A PF suspeita que o senador recebia uma mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil paga por Vorcaro, além de compras de ativos abaixo do preço de mercado e viagens custeadas. A defesa nega a mesada, diz que a apuração se apoia em meras trocas de mensagens e afirma que ele colaborará para provar inocência.
O deputado Filipe Barros, do PL do Paraná, apresentou em novembro de 2024 um projeto que ressuscitava a emenda Master na Câmara, com os mesmos valores. Retirou o texto em fevereiro de 2026, alegando ilações, e declarou desejar que Vorcaro e sua gangue apodreçam na cadeia. Cláudio Cajado, vice-presidente do PP, assinou requerimento de urgência para um projeto que permitiria ao Congresso destituir presidentes do Banco Central, num momento em que a autarquia analisava a compra do Master pelo BRB.
Arthur Lira aparece na apuração como amigo do banqueiro e indicou Jhonatan de Jesus ao TCU, ministro que depois questionou a decisão do Banco Central de liquidar o banco. João Henrique Caldas, o JHC, prefeito de Maceió e aliado de Lira, colocou R$ 110 milhões do instituto de previdência dos servidores municipais em papéis do Master. Davi Alcolumbre é descrito como amigo de Vorcaro, e o fundo de previdência do Amapá perdeu R$ 400 milhões no negócio.
Hugo Motta, presidente da Câmara, aparece em mensagens tratando com Vorcaro de um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões, contratado em março de 2024 por uma empresa de Bianca Medeiros, irmã da mulher dele, para a compra de um terreno em João Pessoa. Motta diz que a operação é legal e que as parcelas estão sendo pagas. Relatórios da PF também registram que o banqueiro bancou avião particular e hospedagem no Four Seasons de Lisboa, em junho de 2024, para Motta e Ciro Nogueira. O presidente da Câmara admitiu a carona e afirmou que, à época, não sabia das suspeitas.
Ao todo, o celular apreendido guardava contatos de 18 parlamentares e ex-parlamentares, segundo levantamento da Revista Fórum a partir de fonte ligada à CPMI do INSS. Todos de direita, boa parte do campo bolsonarista, sem um único nome da esquerda ou da base do governo. São eles Aguinaldo Ribeiro, Altineu Côrtes, Arthur Lira, Bilac Pinto, Diego Coronel, Doutor Luizinho, Fábio Mitidieri, Fausto Pinato, Flávia Arruda, Hugo Motta, João Carlos Bacelar, Lucas Gonzalez, Marcelo Álvaro Antônio, Márcio Marinho, Nikolas Ferreira, Paulo Abi-Ackel, Rodrigo Maia e Vinicius Poit.
Paulo Henrique Costa, escolhido por Ibaneis Rocha para presidir o BRB, foi preso em 16 de abril de 2026 por ordem de Mendonça. A PF aponta R$ 146,5 milhões em propina prometida em imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília, dos quais R$ 74,6 milhões já teriam sido pagos, e o descreve como verdadeiro mandatário de Vorcaro dentro do banco público, que acumulou cerca de R$ 15 bilhões em ativos ligados ao Master e precisou de aporte de capital. Ibaneis não é acusado formalmente e nega ter tratado da aquisição.
No Rio, o ex-governador Cláudio Castro virou alvo de dez mandados de busca em 26 de maio de 2026. A PF investiga R$ 970 milhões aplicados pelo Rioprevidência em papéis do Master entre outubro de 2023 e julho de 2024, mais R$ 2,01 bilhões a partir de julho de 2024, e descreve relação pessoal estreita entre ele e o banqueiro, com encontros frequentes inclusive em ambientes privados e no exterior.
Paulo Gonet, procurador-geral da República, entrou na história por uma via lateral. Segundo relatório da Polícia Federal, o advogado Ciro Rocha Soares, o mesmo que articulou o encontro de André Mendonça com o banqueiro, mandou a Vorcaro em 15 de março de 2025 uma foto ao lado de Paulo Gonet com o recado “Liga aqui. Ele quer falar com você”. Duas semanas depois, perguntou se Pedro, filho do procurador-geral, poderia ir com despesas pagas pelo Master a um fórum jurídico em Londres. Em 11 de abril, Vorcaro autorizou, respondendo “Pedro e ciro ok”. O evento acabou não acontecendo. Gonet não se manifestou sobre o episódio, e Soares afirma que não houve irregularidade nenhuma, até porque a viagem nunca saiu do papel. O procurador-geral, por sua vez, pediu ao Supremo a nulidade justamente do relatório da PF que detalha a relação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, sustentando que Mendonça extrapolou ao mandar identificar os destinatários das mensagens sem provocação do Ministério Público ou da própria polícia. Como o mesmo relatório o cita, subprocuradores passaram a defender que ele saia do caso. Foi a PGR, ainda assim, que se manifestou contra a prisão domiciliar pedida pela defesa do banqueiro.
O escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, da advogada Viviane Barci de Moraes, casada com o ministro Alexandre de Moraes, assinou com o Master em 16 de janeiro de 2024 um contrato de três anos, 36 parcelas mensais fixas, R$ 131,3 milhões brutos e R$ 108 milhões líquidos. Foram pagos R$ 80,2 milhões em 22 meses. O escritório relata 94 reuniões de trabalho, 36 pareceres e uma equipe de 15 advogadas e advogados, e afirma que nunca atuou perante o STF em causas do banco. Análise de metadados feita pela PF indica que o próprio ministro editou a versão final do contrato em 15 de janeiro de 2024, cerca de uma hora e quarenta minutos depois de Vorcaro enviá-lo a Viviane. O escritório confirma a edição e atribui a consulta ao setor de compliance.
Só que a coisa esquentou pro lado do Xandão. Nas mensagens agora públicas, Vorcaro pergunta a ele, em 15 de novembro de 2025, se precisaria estar fora do país já na segunda-feira, consulta o ministro sobre juízes e pede intervenção junto à direção da PF e à PGR. Não há respostas dele nos autos divulgados, já que a conversa se deu através de mensagens de visualização única e os técnicos só conseguiram recuperar o que foi enviado por Vorcaro. Há ainda um segundo acordo, de 12 de maio de 2025, no valor de R$ 50 milhões, firmado com a Viking Participações, sendo R$ 40 milhões em ações de empresas ligadas a aeronaves. O escritório sustenta que nada chegou a ser assinado.
Kevin de Carvalho Marques, advogado de 25 anos e filho do ministro Kassio Nunes Marques, recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária, empresa que faturou R$ 6,6 milhões do Master e R$ 11,3 milhões da JBS entre agosto de 2024 e julho de 2025. Ele afirma que os valores são lícitos e que nunca patrocinou causa no Supremo. Dias Toffoli admitiu que uma empresa familiar teve participação no resort Tayayá, no Paraná, vendida em duas etapas, em setembro de 2021 e fevereiro de 2025, e nega ter recebido qualquer valor de Vorcaro ou de Zettel.
Os valores a seguir constam de relatórios da Receita Federal e do Coaf enviados à CPI do Crime Organizado. Quase todo mundo afirma que prestou serviço regular, com nota fiscal.
Michel Temer aparece com R$ 10 milhões por mediação jurídica, e contesta a cifra, dizendo ter recebido R$ 7,5 milhões. Guido Mantega recebeu R$ 14 milhões pela Pollaris Consultoria, em trabalho ligado às tratativas de venda do banco, e diz não ter tido conhecimento de irregularidades. Ricardo Lewandowski aparece com R$ 6,1 milhões destinados ao escritório Lewandowski Advocacia, e sua explicação é que deixou a sociedade em janeiro de 2024, antes de assumir o Ministério da Justiça.
O banco também contratou justamente quem já comandou o órgão encarregado de fiscalizá-lo. Henrique Meirelles recebeu R$ 18,5 milhões entre 2022 e 2025 por consultoria em macroeconomia. Gustavo Loyola ficou com R$ 6,7 milhões entre 2023 e 2025, em repasses mensais na casa de R$ 250 mil. Pedro Malan aparece com R$ 106,5 mil, em 2022, o profissional mais barato desta reportagem. Somados, os três levaram cerca de R$ 25,8 milhões.
Antônio Rueda, presidente do União Brasil, recebeu R$ 6,4 milhões em serviços jurídicos. ACM Neto, vice-presidente do partido, ficou com R$ 5,45 milhões pela A&M Consultoria. Marconi Perillo, ex-governador de Goiás, foi o campeão da faixa, com R$ 14,5 milhões pela MV Projetos, e não respondeu às reportagens. Fábio Wajngarten recebeu R$ 3,8 milhões em 2025, no caso mais transparente da lista, porque integra a defesa de Vorcaro. Ronaldo Bento, ex-ministro da Cidadania, aparece com R$ 6,2 milhões repassados a uma consultoria da qual é sócio.
Do lado governista, Jaques Wagner teve o nome puxado por uma financeira que tem a nora dele entre as sócias. Os dados da Receita registram cerca de R$ 12 milhões repassados à empresa, e a PF cita R$ 3,5 milhões em transferências, além de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador comprado por uma terceira empresa com recursos de estruturas ligadas ao grupo investigado. Wagner nega intermediação, diz que a empresa prestou serviço de prospecção de consignado ainda no governo Bolsonaro e que o contrato foi rescindido. Ele foi alvo de busca na nona fase da operação, em junho de 2026.
O Metrópoles, portal do ex-senador Luiz Estevão, recebeu R$ 27,2 milhões entre 2024 e 2025. O Coaf classificou as transferências como atípicas e incompatíveis com o faturamento médio do site e registrou que o dinheiro saía em débito imediato para outras empresas da família Estevão. A justificativa apresentada foi o patrocínio dos direitos da Série D pelo Will Bank, braço digital do Master, versão que esbarra na cronologia, porque os pagamentos mensais de R$ 5 milhões a R$ 5,7 milhões começaram em janeiro de 2025, o campeonato estreou em 19 de abril e a marca só apareceu na transmissão em julho.
O Grupo Massa, do apresentador Ratinho, recebeu R$ 24 milhões, sendo R$ 21 milhões pela Massa Intermediação e R$ 3 milhões pela Gralha Azul, valores que o grupo classifica como contratos publicitários. Leo Dias recebeu R$ 9,9 milhões do Will Bank entre outubro de 2024 e outubro de 2025, mais R$ 2 milhões de uma empresa que teve aportes do banco. Seu ex-sócio, o publicitário Thiago Miranda, comandava o chamado Projeto DV, iniciais do banqueiro, que oferecia até R$ 2 milhões a influenciadoras digitais para defender o Master e atacar decisões do Banco Central. A PF cumpriu busca relacionada ao esquema em 9 de julho de 2026.
Nas quatro edições de outubro e novembro de 2025, semanas antes da liquidação, o Domingão com Huck exibiu as Willimpíadas, quadro patrocinado pelo Will Bank que distribuiu R$ 1 milhão em prêmios e reuniu 200 participantes de 99 cidades. No futebol, Vorcaro colocou R$ 300 milhões na SAF do Atlético Mineiro, R$ 100 milhões em 2023 e R$ 200 milhões em 2024, por 26,9% da sociedade, via fundo Galo Forte FIP. O clube passou a cobrar explicações sobre a origem do dinheiro e afirma que o fundo é regularmente constituído perante a CVM.
Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central, teria recebido cerca de R$ 8 milhões, e Belline Santana, ex-chefe do departamento de supervisão bancária, cerca de R$ 4 milhões, em pagamentos que a investigação descreve como mesada, com direito a viagem à Disney. Ambos foram nomeados na gestão de Roberto Campos Neto. Segundo a apuração, funcionavam como consultores informais do banco dentro da autarquia, repassando informações e ajudando a redigir pareceres que eles próprios iriam analisar. Belline nega ter favorecido qualquer instituição financeira.
O caso do Banco Master é de dar um nó na cabeça de qualquer um e ainda vai dar muito pano pra manga. Nesta fase de apurações, é importante que tenhamos bem claro na cabeça que aparecer numa investigação não é o mesmo que ser acusado, e ser acusado não é o mesmo que ser condenado. Nenhuma das pessoas citadas nesta reportagem foi condenada até agora, e Vorcaro ainda não é réu em ação penal. Para entendermos melhor, vamos organizar umas listas, abaixo.
Pessoas presas:
- Daniel Vorcaro, apontado pela PF como líder do esquema, em prisão preventiva desde 4 de março de 2026, com pedido de domiciliar rejeitado pela PGR
- Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, preso desde 16 de abril de 2026
- Familiares do banqueiro, entre eles o pai, presos na sexta fase da operação, em maio de 2026, com preventivas mantidas pela Segunda Turma do STF em 16 de junho
- Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado apontado como líder operacional do grupo A Turma
- Augusto Ferreira Lima e outras operadoras e operadores financeiros presos ao longo das dez fases
Indiciadas pela PF
- Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa e o empresário Nelson Tanure, no relatório sobre as operações entre Master e BRB concluído em agosto de 2026
Alvos de busca e apreensão ou de bloqueio de bens
- Ciro Nogueira e o irmão Raimundo, em 7 de maio de 2026
- Cláudio Castro, em 26 de maio de 2026
- Jaques Wagner e o enteado Eduardo Mendonça Sodré Martins, em junho de 2026
- Nelson Tanure, em julho de 2026
- Fabiano Zettel, detido temporariamente em janeiro de 2026
Investigadas ou citadas nos autos, sem acusação formal até agora
- Flávio Bolsonaro, cuja participação a PF classifica como apuração preliminar, com material sob sigilo
- Eduardo Bolsonaro, administrador do fundo que recebeu as remessas
- Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Arthur Lira, Ibaneis Rocha, Filipe Barros, Cláudio Cajado, João Henrique Caldas, Jhonatan de Jesus
- Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, cada um por um vínculo diferente
- Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, ex-servidores do Banco Central
- Nikolas Ferreira (PL-MG) e outras 17 pessoas que constavam da agenda do celular apreendido, sem indício conhecido de recebimento de valores, sendo elas Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), Altineu Côrtes (PL-RJ), Arthur Lira (PP-AL), Bilac Pinto (União Brasil-MG), Diego Coronel (PSD-BA), Doutor Luizinho (PP-RJ), Fábio Mitidieri (PSD-SE), Fausto Pinato (PP-SP), Flávia Arruda (PL-DF), Hugo Motta (Republicanos-PB), João Carlos Bacelar (PL-BA), Lucas Gonzalez (Novo-MG), Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG), Márcio Marinho (Republicanos-BA), Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), Rodrigo Maia (PSD-RJ) e Vinicius Poit (Novo-SP)
Quem recebeu pagamentos declarados e não é investigada por isso
- Michel Temer, Guido Mantega, Ricardo Lewandowski, Henrique Meirelles, Gustavo Loyola, Pedro Malan, Marconi Perillo, ACM Neto, Antônio Rueda, Fábio Wajngarten, Ronaldo Bento, Metrópoles, Grupo Massa, Leo Dias
Do outro lado da lista estão 18 regimes próprios de previdência de estados e municípios, que compraram R$ 1,86 bilhão em letras financeiras do Master, papéis sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. O Rio de Janeiro entrou com R$ 970 milhões, o Amapá com R$ 400 milhões, Maceió com R$ 97 milhões, São Roque com R$ 93,15 milhões, Cajamar com R$ 87 milhões. Na outra ponta estão Campo Grande, com R$ 1,2 milhão, e Angélica, no Mato Grosso do Sul, com R$ 2 milhões. O governo federal já definiu que estados e municípios terão de cobrir o buraco dos próprios fundos.
O plenário do STF vai analisar em sessão pública as mensagens trocadas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, em data a ser marcada pelo presidente da corte, Edson Fachin. O país inteiro aguarda, ansiosamente, as cenas dos próximos capítulos.
*Atualização: Um áudio revelado pelo ICL Notícias, em reportagem da jornalista Juliana Dal Piva, mostra Nikolas Ferreira tratando com Daniel Vorcaro em 30 de março de 2025, num tom bem menos distante do que o deputado descreveu em público. “Ei Dani, tudo bom? Como você está?”, começa a mensagem, em que ele chama o banqueiro de lindão, apresenta seu advogado e ex-assessor Thiago Rodrigues de Faria e pede ajuda com a liberação de um ativo minerário que passava por revisão técnica, sugerindo que o contato fosse repassado caso houvesse interesse. Vorcaro respondeu minutos depois. “Amém irmão. Estamos na guerra juntos.”
No mesmo áudio, o deputado menciona ter conversado com o pastor André Valadão sobre uma publicação crítica que havia feito, e afirma que não teria postado se soubesse da ligação com o Banco Master. A gravação é de sete meses antes da liquidação do banco e mais de dois anos depois da caravana em que Nikolas usou o jato de Vorcaro, sobre a qual ele dizia não saber de quem era o avião. Procurada pelo Estadão, a assessoria do deputado não respondeu, e ele, até agora não se manifestou sobre o conteúdo nem sobre a autenticidade do material.










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