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Outro dia me deparei com uma frase atribuída ao jornalista estadunidense Hubert Mewhinney e posteriormente popularizada numa versão semelhante pelo professor de jornalismo Jonathan Foster que diz “se uma pessoa diz que chove e outra pessoa diz que não, a função do jornalista não é dar voz a ambas: é abrir a janela e ver se está a chover”. SegundoSam Kinch e Stuart Long em Allan Shivers: The Pied Piper of Texas Politics, publicado em 1974, Mewhinney a escreveu no jornal Texas Spectator no fim dos anos 1940 ao se referir a dois políticos.

Pois abrindo a janela, o que se vê lá fora, no caso do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, não é chuvisco. É um toró dos brabos.

Ontem, a revista piauí revelou que, na primeira quinzena de agosto, em plena campanha, Flávio usou um apartamento no edifício L’Adresse, na Vila Nova Conceição, um dos metros quadrados mais caros de São Paulo. Ali ele gravou vídeos, participou de podcasts e fez reuniões com a equipe. O imóvel foi comprado em abril de 2025, por R$ 5,5 milhões, por Fabiano Zettel, cunhado e apontado como operador de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Zettel foi preso em 4 de março de 2026, na terceira fase da Operação Compliance Zero.

O caminho do imóvel é, no mínimo, curioso. Em fevereiro de 2026, Zettel vendeu o apartamento por R$ 3,5 milhões, R$ 2 milhões a menos do que pagou, para a WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz. A transferência foi registrada em 4 de março, no mesmo dia da prisão de Zettel. A reportagem conta ainda que Flávio já tinha usado mansões e jatinhos ligados a Tomaz.

Moradores do prédio confirmaram que ele esteve lá, e uma funcionária de uma escola vizinha reparou nos carros da Polícia Legislativa estacionados na porta. A assessoria de Flávio diz que ele “se hospedou apenas em hotéis da região”. Tomaz primeiro negou que o senador tivesse usado o apartamento. Depois passou a dizer que não conhece Zettel nem Vorcaro.

Não é a primeira vez que o nome de Zettel cruza com o da família Bolsonaro. Em 2022, ele doou R$ 3 milhões à campanha de Jair.

Para entender por que isso importa, é preciso lembrar o tamanho do Master. A Polícia Federal descreve o caso como a maior fraude bancária da história do país: um esquema com características de pirâmide, em que o dinheiro de clientes novos cobria o rombo dos antigos. O buraco é estimado em R$ 12 bilhões e atinge pelo menos 1,6 milhão de pessoas. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025, quando tentava sair do país num jatinho rumo a Malta, e voltou à prisão em março de 2026.

Em maio, o Intercept Brasil publicou um áudio de 8 de setembro de 2025 em que Flávio cobra de Vorcaro os pagamentos atrasados de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro com o ator Jim Caviezel: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel… pô, ia ser muito ruim”. O acordo era de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões. Pelo menos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) foram pagos em seis transferências, entre fevereiro e maio de 2025, para o Havengate Development Fund LP, um fundo no Texas representado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Dados do Coaf citados depois pela imprensa elevam o valor para US$ 12,3 milhões.

Questionado pelo Intercept, Flávio respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Riu e foi embora. Pouco depois, admitiu ter procurado Vorcaro, mas disse que era “patrocínio privado para um projeto privado”.

As mensagens obtidas pela PF mostram outra coisa. Eles evidentemente tinham uma relação próxima. Houve encontros, telefonemas e cobranças. Registros revelados em agosto mostram ao menos cinco ligações só em setembro de 2025, três delas no mesmo dia 24. Em novembro de 2025, Flávio agradeceu ao banqueiro dizendo que o filme só estava sendo feito graças à ajuda dele e escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. Quem é que fala isso para um desconhecido?

Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça, do STF, autorizou a abertura de inquérito contra Flávio por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção ligadas a esses repasses. O pedido veio da Polícia Federal, e a PGR não se opôs. Em 8 de setembro foi homologada a delação do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos, por onde o dinheiro passou. Ele relata entregas de dinheiro vivo em malas a representantes de Vorcaro e operações de câmbio para o exterior. Flávio nega irregularidades, afirma que “nem um real” de Vorcaro foi para sua conta e diz esperar que o banqueiro “fale tudo” na própria delação.

Em 2018, um relatório do Coaf apontou movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Alerj, com depósitos feitos por outros funcionários do gabinete. Em novembro de 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio, Queiroz e mais 15 pessoas por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Segundo o MP, mais de R$ 2 milhões em salários foram desviados entre 2007 e 2018. Queiroz, aliás, foi preso em 2020 em Atibaia, numa casa de Frederick Wassef, então advogado de Flávio.

A denúncia também tratava da loja de chocolates que Flávio tinha num shopping da Barra da Tijuca. Para o MP, os depósitos em dinheiro vivo eram grandes demais para o que a loja vendia, o que indicaria lavagem do dinheiro da rachadinha. Havia ainda os imóveis pagos em espécie, como os dois apartamentos em Copacabana, quitados em parte com R$ 638,4 mil em notas. Sério, quem é que acha normal andar com mais de meio milhão de reais em dinheiro vivo no bolso? Imaginem se fosse o filho do Lula comprando coisas assim?

Os investigadores contaram 37 imóveis ligados ao senador e cerca de R$ 3 milhões de lucro com as vendas. Em 12 anos, o patrimônio dele cresceu 397%. E, como se nada disso pesasse, em 2021 ele comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília, o que fez qualquer pessoa com meio dedo de juízo na testa se perguntar como um salário de parlamentar paga uma casa dessas.

O caso do Willy Wonka não terminou com absolvição. Ele foi desmontado por questões processuais: o STJ anulou quebras de sigilo e reconheceu foro privilegiado, o STF invalidou relatórios do Coaf e, em 2024, Gilmar Mendes rejeitou os recursos do MP para retomar a investigação. Nenhum juiz disse que os fatos não aconteceram.

No meio disso, a revista Época revelou em 2020 que a Abin, então dirigida por Alexandre Ramagem, produziu relatórios para orientar a defesa de Flávio. Um deles dizia que o objetivo era “defender FB no caso Alerj”. A defesa confirmou que recebeu os documentos. Ou seja, o aparelho de inteligência do Estado foi claramente usado para ajudar o filho do então presidente.

E ainda há a ligação notória com a milícia. Como deputado estadual, Flávio homenageou na Alerj o ex-capitão Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime e morto em 2020. A mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio.

Flávio Bolsonaro é investigado, foi denunciado e é alvo de reportagens com documentos, áudios, registros telefônicos, delação homologada e testemunhas. Circularam, sim, algumas mentiras sobre ele, como um falso mandado de prisão que a Justiça mandou tirar do ar. Só que não é preciso inventar nada para robustecer as provas contra o presidenciável. O que está documentado é mais do que o suficiente para mostrar quem ele realmente é.

Por isso me assusta tanto ver uma parte da população olhar pela mesma janela e dizer, com toda a convicção, que não chove. Não é falta de informação, pois os áudios estão na internet, os valores estão nos autos, e as versões do próprio senador se desmentem de uma semana para a outra. É outra coisa. É um ódio a Lula cultivado com cuidado por anos, que virou identidade. E quando uma crença vira identidade, admitir o erro dói como perder uma parte de si.

O resultado é uma recusa que não segue lógica nenhuma. É a criança birrenta que, pega com a mão no pote de biscoito, jura que a mão não é dela. Quem por anos gritou contra a corrupção agora finge não ver R$ 61 milhões de um banqueiro preso indo para um fundo no Texas. Quem pedia “cadeia para ladrão” agora chama de perseguição uma investigação que a PF pediu, a PGR aceitou e um ministro indicado pelo próprio Jair Bolsonaro autorizou. O critério nunca foi a honestidade. O que impera é apenas a lavagem cerebral mesmo.

E isso é assustador porque uma democracia não se sustenta se as pessoas não conseguem concordar nem sobre o que é fato. Pode-se votar em quem quiser. Mas não dá para abrir a janela, levar a chuva na lata e sair dizendo que o dia está lindo só para não dar o braço a torcer.

Nosso trabalho, como jornalistas, continua sendo o de escancarar a janela. Olhar ou não é escolha de cada um. Mas quem se recusa a olhar não pode reclamar depois de ter se molhado.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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