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Na cultura popular brasileira, motivada pela ancestralidade indígena, os olhos vermelhos de quem chora muito se assemelham à cor da pitanga que deriva do tupi, pyrang, cujo significado é vermelho.


Provém desta analogia a frase popular “Chorar às pitangas”.


Nas memórias (des)afetivas, uma das maiores marcas da infância, provavelmente não esteja contida no erro praticado, o qual motivou o choro, mas sim, no ato obrigatório em obedecer a ordem da frase “engolir o choro”.


Para os pais, uma demonstração de autoridade onde era posta a obrigação de não chorar, pelo simples fato de não ter o direito sequer de lamentar, haja vista que calado já se estava errado; para a mente de uma criança, engolir o choro era reconhecer o erro em silêncio, bebendo também suas lágrimas.


O choro é uma manifestação sonora de um sentimento que pode oscilar entre a tristeza e a felicidade extrema, como mostram aqueles que choram de alegria. Chorar é manifestação e como toda manifestação há de possuir legitimidade, seja qual for. Mas afinal, por que cargas d’águas os pais e mães mandavam suas crianças engolirem o choro?


Há muito mais segredos nessa atitude empírica e aparentemente cruel da frase do que se possa imaginar. Talvez, para os pais, o choro deve ser por um motivo verdadeiro e não ser usado como ferramenta de comoção ou ainda pior, quebrando o sentido do choro como válvula de escape natural. A expressão ‘engolir o choro’ impõe ao filho o ensinamento de que não se deve mostrar fraqueza ou fragilidade, sobretudo em público, fato que certamente ao tentar manter a compostura, os traumas e as frustrações sejam interiorizados e guardados de maneira perigosa e prejudicial. É como se os sentimentos que não foram chorados fossem sendo guardados em uma garrafa que vai enchendo e pegando pressão.


Uma das funções da manifestação do choro é a homeostase, que é o equilíbrio da mente após picos de estresse. Essa regulação emocional é necessária e o choro passa a configurar como um mecanismo de defesa do corpo.


É curioso como o choro atrai a empatia das pessoas para o consolo com oferecimento de conforto e colo. Esse sinal não verbal é socialmente um pedido de ajuda. Chorar por desespero ou chorar por alívio provam que a ação de chorar é antes de tudo um mecanismo de expressão multifacetada.


De imediato, ao ver alguém chorar, a primeira intenção é fazer com que a pessoa cesse o choro. É necessário, porém, permitir que o choro cumpra sua missão, sem nenhuma forma de julgamento e sem a interrupção do fluxo emocional, ação essa quase automática de quem acolhe. Certos procedimentos, como falar para quem chora: “não chore”, “vai passar”, por vezes, piora o quadro. Mostra-se muito mais eficaz a simples presença, a validação do sentimento demonstrado pela compreensão da dor do outro ou simplesmente a manifestação física como um abraço ou um aperto de mão.


Na mitologia grega, Niobe, filha de Tântalo e esposa de Anfião, depois de se vangloriar por ter mais filhos do que a deusa Leto, viveu a dor de ver os próprios filhos serem mortos um a um por Apolo e Ártemis. A dor da perda a fez chorar tanto que Zeus a transformou em um grande rochedo no Monte Sípilo que ficou eternamente vertendo lágrimas.


O mesmo aconteceu com as lágrimas de Hélios pela morte de seu filho Faetonte quando conduziu as carruagens de sol.


Na mitologia amazônica Jaci (a lua) e Guaraci (o sol) eram apaixonados e o maior de seus desejos era que se casassem e vivessem eternamente seu amor, porém, a união dos dois provocaria um calor extremo na terra e aniquilaria toda forma de vida. Pela impossibilidade da união, Jaci chorou tanto que suas lágrimas correram ao chão e inundaram poças que findaram por formar um imenso e caudaloso rio, o Rio Amazonas.


O fruto mais importante para o povo da Amazônia nasce de uma lenda de Iaçã, que, ao perder seu filho, chora copiosamente ao ouvir o choro do filho que havia morrido por ordem do cacique. Abraçada ao tronco de uma palmeira, Iaçã chora tanto que suas lágrimas de tristeza fizeram brotar na palmeira um fruto roxo que passou a ser chamado de açaí, que é seu nome ao contrário.


É ainda na Amazônia que se encontra o Urutau, um pássaro também conhecido como “mãe da lua”, de camuflagem perfeita e que fica acoplado aos troncos de árvores, seu canto triste é associado ao choro humano.


Essa volta ao estado de equilíbrio, denominada homeostase, é fundamental para a diminuição do estado de fuga ou de luta no sistema nervoso simpático. Após o choro, o pico de estresse e tensão do sistema parassimpático é ativado, fazendo com que o estado geral inicie sua volta ao estado normal de equilíbrio.


No enfoque musical, o choro adquire um perfil genérico como estilo na metade do século XIX. Grupos regionais de música formados por instrumentos como violão, saxofone, cavaquinho e pandeiro tocavam danças europeias de salão como valsas, polcas e mazurcas e misturavam esses gêneros aos ritmos brasileiros, como o lundu. Embora existam outras definições sobre a origem do choro como, por exemplo, a palavra ter origem no termo “Cholo”, advindo de bailes populares com forte presença africana, termo que derivou a corruptela da palavra para “choro”; ou ainda, “Choromeleiros”, uma referência aos tocadores de charamelas que animavam as festas e procissões nos primeiros séculos do Brasil. Mas, sem dúvida, a mais forte origem está no sentimento do choro como lamentação na música.


Os acordes perfeitos e de passagens proporcionavam harmonias claras e plangentes, que faziam o violão solar por entre as cadências de forma tão sentimental que parecia “chorar”, dada a delicadeza e emotividade contidas nas melodias das músicas tocadas com grande sensibilidade. Eram músicos humildes de periferia que muitas vezes realizavam seus saraus nas esquinas, apaixonando a alma de quem os ouvia.


Essa relação emocional com o choro humano é compreensível pelo fato de as melodias ativarem o sistema límbico, uma rede de estruturas do cérebro que é responsável por regular as emoções, a memória, o comportamento social e a motivação.


Melodias de vários gêneros musicais causam as mais distintas emoções por gerarem memórias afetivas diversas; porém, as melodias do choro são, em potencial, as que mais destacam a influência emotiva em razão de suas melodias e cadências em tons de lamento.


O poeta cearense Bráulio Bessa sintetizou, com perfeição, a representação humana do choro, ao afirmar: “O que aprendi chorando sorriso nenhum ensina”.


Mas afinal, pra que chorar? É bom saber que quando o pássaro da vida o nó na garganta aperta e prende só o choro pode libertar.


É como quase falou Descartes: choro, logo existo!



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Salomão Habib
Salomão Habib é violonista, compositor, concertista, palestrante, escritor, pesquisador, professor e contador de histórias. Membro da Academia Paraense de Letras, tem seis livros publicados. É o maior pesquisador da obra e vida de Tó Teixeira e tem 8 DVDs e 46 CDs gravados, um na Alemanha. Já se apresentou na Argentina, Portugal, Cuba, Venezuela, Bélgica, Suíça, Itália e Alemanha. É autor de mais de 450 peças musicais, idealizador e coordenador do projeto Cantarolar, reconhecido pelo Unicef.

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