Publicado em: 12 de junho de 2026
Sabemos que nós, mulheres, somos as mais afetadas pela indústria e discursividade colonial de amor. Ora, desde pequenina fomos ensinadas a idealizar um padrão de relacionamento, onde o roteiro é pouquíssimo empoderador e cujo o ápice seria um pedido performático (quanto mais encenado, melhor) que nos valida socialmente como escolhidas e importantes – sendo importante os olhares externos. Infelizmente, muitos destinos dos casamentos ainda são os da sobrecarga e sofrimento para mulheres. Muitas vezes, ser a escolhida é um fardo. Há um custo tão grande e sofrido, mas seguimos na lógica de que ser escolhida é o que garante nosso valor e um lugar de dignidade – mesmo quando é justamente a nossa dignidade que é afetada. E nessa métrica, as mulheres entram em um jogo de disputa e rivalidade pelo lugar de escolhida e não pelo amor em si. Basta olhar com calma e vemos que, muitas vezes, o cara não passa de um medíocre. Ou seja, melhor mal acompanhada do que só. Nossas vulnerabilidades não são aleatórias, além da história individual, da criação, dos valores ensinados, também vamos ter métrica do padrão hegemônico, fazendo com que raça, peso corporal e outros fatores nos deixe ainda mais frágeis ou supostamente privilegiadas (privilégio colonizado).Como bem diz Manuela Xavier, em seu livro “De olhos abertos”: o amor é um item de consumo – confere status e poder, não é acessível a qualquer pessoa. Então, dia 12 tem sido de sofrimento para tantas mulheres. Seja pela corrida de autoafirmação, seja pelas competições e rivalidades ou pela dor de se considerar solitária e desvalorizada, muitas se questionam: o que ela tem que eu não tenho? Por que só eu não tenho um amor?Como se tivesse um problema individual, um déficit e como se outras mulheres tivessem a reposta de algo, que não se tem. Uma falta estrutural da insatisfação e da menos valia (que leva a mais-valia amorosa, mas isso é assunto pra outro papo)Mas, afinal, o que é um amor? O que será que a gente tanto procura? Quando é que o encontro realmente acontece e vale a pena pensar ser amor? Afinal, amor dá trabalho. Hoje, pensava nas declarações de amor. Por um minuto me peguei pensando na noção de exclusividade. Tive um lapso de fantasiar ler do meu marido que eu sou a pessoa mais especial que ele teve. Logo em seguida, lembrei das ex dele que eu conheço. Mulheres super inteligentes, bonitas e legais. Na mesma hora, pensei que seria violento demais e injusto que ele escrevesse isso, afinal ele estaria diminuindo outras pessoas que são brilhantes e foram importantes. Provavelmente hoje eu até possa ser a mais especial: Nesse momento. Ontem, não fui. E amanhã, talvez permaneça ou não serei. (E isso é muito bonito.)A lógica patrimonial nos faz querer validação do amor na competição entre mulheres. Mas se pensarmos com pouquinho de problematização veremos que nada tem a ver com o amor, com a relação em si, mas com desarticulação entre nós, mulheres, e ate com empobrecimento do próprio amor. (O capitalismo vende essa ideia de quanto mais exclusivo melhor, nos objetificando).Não preciso ser única para ser amada. Não preciso que alguém seja menos especial para que eu seja amada. As pessoas merecem ser e permanecer especiais, pois todas que passaram em nossas vidas nos deixaram algo. Além disso, descentralizar o amor romântico é talvez a fórmula pra viver o amor. Amar é bom, gente. Amor multiplica. Amar a família, os bichos, as plantas, amigas, afazeres, a si mesmo. Amar muitas coisas que não só aos homens, nos faz distribuir energia. Amar mulheres, sem que sejamos sempre alvo de ameaça e disputa, nos faz amar com mais leveza. Amar quem está ao nosso lado respeitando sua história, nos faz admirar ainda mais todo o processo e conectar com o hoje, com a experiência e a vida, sendo vivida.
Apesar de reconhecer a comercialidade da data, celebrar o amor é sempre bacana. Celebrem o que acreditam ser importante ser celebrado, inclusive o amor-próprio.
E para quem namora, feliz dia dos namorados, namoradas e namorades. Que sejam relações de respeito, compartilhamento e harmonia, paz. Longe de violências, ameaças e competições.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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