Publicado em: 5 de agosto de 2026
Flávio Bolsonaro escolheu um homem (zero surpresa) para dividir a chapa presidencial e o dito cujo responde a uma notícia de fato na Polícia Federal por estupro de vulnerável. O deputado federal Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas, foi anunciado como candidato a vice nesta quarta-feira (5), na sede do partido em Brasília, quatro meses depois de a acusação chegar ao Supremo Tribunal Federal, onde continua parada.
A peça que originou o caso foi protocolada em 27 de março de 2026 pelo deputado Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro, e pela senadora Soraya Thronicke, do PSB de Mato Grosso do Sul. O documento descreve, com base em prints de conversas e papéis entregues por terceiros, o estupro de uma adolescente de 13 anos há cerca de nove anos, gravidez decorrente do crime e o registro da criança em nome da avó. Consta ainda que um intermediário teria procurado a família para comprar silêncio, com R$ 70 mil já pagos e outros R$ 400 mil em negociação. Quem assina admitiu trabalhar com fortes indícios, não com provas consolidadas, e pediu verificação documental e biológica dos fatos.
Nada disso avançou. A Polícia Federal pediu ao Supremo autorização para investigar, já que Gaspar tem foro por prerrogativa de função. O pedido está sem movimentação desde abril, quando o ministro Gilmar Mendes, relator, encaminhou o caso à Procuradoria-Geral da República e mandou os três parlamentares prestarem esclarecimentos. A PGR não se manifestou até agora.
Gaspar nega a acusação e diz querer o inquérito. “O maior interessado na abertura do inquérito policial sou eu”, afirmou em abril, ao doar material genético ao Laboratório de Genética Forense da Polícia Científica de Alagoas, em Maceió, por ordem judicial. Sua versão é a de que o episódio envolve um primo, Maurício César Brêda Filho, e um exame de DNA de novembro de 2014 que atribui a paternidade a ele. A filha do primo, Lourilene, também se pronunciou. “Não sou fruto de estupro algum, nem conheço pessoalmente o Alfredo Gaspar. É muito triste comparar”, disse.
Para o deputado, as acusações foram “falsas, levianas e absolutamente irresponsáveis” e funcionaram como cortina de fumaça para tirar o foco do pedido de prisão de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que constava do relatório da CPMI do INSS. Gaspar era o relator da comissão.
Foi na leitura desse relatório, em 27 de março, que a acusação veio a público. A sessão terminou em gritaria. Lindbergh chamou o relator de estuprador. Gaspar devolveu no microfone. “Olha, me chamou de estuprador. Eu estuprei corruptos como vossa excelência, que roubam o Brasil. Ladrão, corrupto!” Chamou o adversário de bandido, criminoso e cafetão. No dia 31, protocolou queixa-crime no STF por calúnia e injúria contra Lindbergh e Soraya. Lindbergh acionou o Supremo na direção contrária.
No dia seguinte ao bate-boca, o relatório de Gaspar foi rejeitado por 19 votos a 12. A CPMI do INSS encerrou os trabalhos sem relatório final aprovado.
Gaspar assina, ao lado de outros 34 deputados, o PL 2499/2024, que obriga hospitais, clínicas, unidades básicas de saúde e profissionais a notificarem a autoridade policial sempre que houver interrupção de gestação decorrente de estupro. Para meninas com menos de 14 anos, a comunicação seria obrigatória mesmo sem aborto. Organizações de defesa dos direitos das mulheres apontam que exigir o registro policial para acessar o aborto legal afasta vítimas dos serviços de saúde, principalmente quando o agressor está dentro de casa. Uma portaria com efeito parecido, editada no governo Jair Bolsonaro em 2020, foi revogada em 2023.
Aos 55 anos, nascido em Maceió, Gaspar foi promotor de Justiça entre 1996 e 2020, procurador-geral de Justiça de Alagoas de 2017 a 2020 e secretário estadual de Segurança Pública em dois momentos, o último deles entre janeiro de 2021 e março de 2022. Elegeu-se deputado federal em 2022 pelo União Brasil. Trocou de sigla em 26 de março deste ano, um dia antes da sessão tumultuada, quando se filiou ao PL e assumiu a presidência do diretório alagoano a convite do próprio Flávio. Na véspera do anúncio da vice, o partido já o havia homologado como candidato ao Senado por Alagoas.
A escolha desmonta um compromisso que a campanha vinha repetindo. Flávio havia dito publicamente que daria preferência a uma mulher na vaga. Tereza Cristina, do PP de Mato Grosso do Sul, e Daniella Marques, ex-presidenta da Caixa, chegaram a ser cotadas e estavam no evento, mas seus partidos optaram pela neutralidade na disputa presidencial. Ao apresentar Gaspar, o senador falou de admiração. “É uma pessoa que eu aprendi a admirar, todos vocês aqui aprenderam a admirar pela coragem, honestidade, pela sua história em frente à segurança pública.” E acrescentou que o vice representa “o Nordeste de fato”.
Entre as eleitoras, o quadro é adverso. Datafolha divulgado em julho apontou Lula com 50% das intenções de voto femininas contra 40% de Flávio em segundo turno. Metade das mulheres ouvidas disse que não votaria no senador de jeito nenhum.
O candidato à Presidência tem no próprio nome um processo que nunca chegou ao fim. A investigação sobre as rachadinhas no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio partiu de um relatório do Coaf de 2018 que apontou movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, seu ex-assessor. O Ministério Público denunciou o senador, Queiroz e outras 15 pessoas em 2020 por lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa. No ano seguinte o Superior Tribunal de Justiça anulou as decisões anteriores por questão de foro, e a Segunda Turma do STF derrubou quatro dos cinco relatórios de inteligência financeira que sustentavam a apuração. Em fevereiro de 2024, Gilmar Mendes rejeitou os últimos recursos do Ministério Público. O caso corre sob sigilo.
Flávio Bozo, que herdou o seu espólio político, chegou à candidatura porque o pai não pode disputar. Jair Bolsonaro foi condenado em 11 de setembro de 2025 a 27 anos e 3 meses de reclusão em regime inicial fechado por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. Venceu por 4 votos a 1 na Primeira Turma, com Luiz Fux vencido.
Eduardo Bolsonaro seguiu caminho parecido. Em 16 de junho, o Supremo o condenou a 4 anos e 2 meses de reclusão por coação no curso do processo, ao tentar interferir no julgamento da trama golpista a partir dos Estados Unidos. Ou seja: pai e irmão do presidenciável estão inelegíveis.
Ainda assim, ao menos seis integrantes da família disputam as eleições de outubro. Além de Flávio, concorrem Michelle Bolsonaro ao Senado pelo Distrito Federal, Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina, Jair Renan Bolsonaro à Câmara pelo mesmo estado, Rogéria Bolsonaro à Câmara pelo Rio e Renato Bolsonaro à Câmara por São Paulo. Marcelo Bolsonaro aparece como pré-candidato a deputado estadual em São Paulo. Todos pelo PL.
O bolsonarismo tenta, de todas as formas, tornar-se uma dinastia, mas as rupturas internas parecem atrapalhar os planos de Jair. Em 24 de junho, Michelle publicou dois vídeos nas redes sociais contando como havia sido tratada pelo enteado num telefonema. “Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone”, afirmou, relatando que o senador teria dito que ela “havia chegado ontem e não entendia nada de política”. O estopim foi a recusa de Flávio, nove dias antes, em apoiar Priscila Costa, aliada dela, à vaga de senadora pelo Ceará. O senador escolheu Alcides Fernandes, pai do presidente estadual do PL. Flávio negou as acusações, pediu desculpas caso ela tivesse se sentido ofendida e propôs uma reunião com lideranças femininas conservadoras. Michelle passou a ser atacada por influenciadoras e ativistas do próprio campo.
Michelle, que se propõe a defender todos os ideais carregados pela extrema-direita, não deu o nome, mas o episódio pode ser claramente lido como mais um caso de violência política de gênero, categoria que alcança todas as mulheres que se propõem a fazer política no Brasil, inclusive as conservadoras quando contrariam a autoridade masculina dentro do próprio movimento.
Flávio já é alvo formal de uma representação nesse terreno. Em 8 de julho, a deputada Jack Rocha, do PT do Espírito Santo e líder da bancada feminina na Câmara, levou à Procuradoria-Geral da República um pedido de apuração contra o influenciador Paulo Figueiredo, o partido Missão e o próprio senador, por violência política de gênero, propaganda discriminatória e condutas incompatíveis com o regime democrático. O gatilho foi a fala de Figueiredo de que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido”, somada ao Livro Amarelo do Missão, documento programático que propõe substituir o voto individual pelo voto familiar.
A conduta atribuída a Flávio é a suposta articulação com o influenciador e a difusão das declarações, o que a representação pede que a PGR investigue. O senador negou envolvimento e disse repudiar as afirmações. Soraya Thronicke havia protocolado notícia-crime sobre o mesmo conteúdo em 30 de junho.
A sequência de episódios empurrou o PL da Misoginia, aprovado no Senado e relatado na Câmara por Tabata Amaral, do PSB de São Paulo, para o topo da pauta. O texto enquadra discriminação e incitação à violência contra mulheres por razões de gênero na Lei do Racismo.
O sobrenome carrega condenações judiciais por falas contra mulheres. Em dezembro de 2014, Jair Bolsonaro disse à então deputada Maria do Rosário, no plenário da Câmara, que não a estupraria porque ela não merecia. O Superior Tribunal de Justiça manteve a condenação por danos morais, e a indenização de R$ 20.114,01 foi paga em novembro de 2019. Em julho de 2025, a Quinta Turma do Tribunal de Justiça do Distrito Federal o condenou a R$ 150 mil por danos morais coletivos pelo relato em que descreveu adolescentes venezuelanas em São Sebastião e afirmou que “pintou um clima”. A decisão classificou a fala como misógina e aporofóbica.
A chapa que Flávio fechou nesta quarta é chamada por ele de puro-sangue, “adjetivo” que poderia, inclusive, gerar mais um processo pra sua coleção. União Brasil, PP, Republicanos e Podemos recusaram a aliança, o que reduz o tempo de propaganda em rádio e televisão em relação ao que Jair Bolsonaro teve em 2022. A campanha começa no próximo 16 de agosto. Até o dia 4 de outubro, muito esgoto vai escoar.










Comments