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Em Xi’an, o passado não passou. Apenas mudou de temperatura. Pela manhã, ele é frio, mineral, imóvel. Permanece alinhado em milhares de soldados de terracota, cada rosto diferente do outro, como se o tempo tivesse decidido congelar uma multidão inteira. À noite, porém, o passado esquenta. Escorre em gordura sobre as brasas do bairro muçulmano, perfuma as ruas com cominho, pimenta e cordeiro assado, mistura-se ao vapor dos noodles recém-preparados e faz esquecer, por alguns instantes, que aquela cidade foi, durante séculos, o verdadeiro centro do mundo.

Xi’an já foi capital de treze dinastias chinesas. Mais do que isso: foi o extremo oriental da Rota da Seda, o lugar de onde partiam caravanas carregadas de seda, porcelana, chá e papel, e aonde chegavam mercadores, monges, diplomatas, aventureiros e peregrinos vindos da Ásia Central, da Pérsia e do Mediterrâneo. Antes que existisse a palavra “globalização”, muitos séculos atrás, Xi’an já era uma cidade global.

Talvez seja por isso que caminhar por ela provoque uma estranha sensação de familiaridade. Tudo parece pertencer a épocas diferentes e, ainda assim, coexistir sem conflito. Não há, ali, uma obsessão em separar o antigo do moderno. Um atravessa o outro continuamente.

Foi caminhando por Xi’an que compreendi melhor uma velha intuição de Henri Lefebvre: uma cidade nunca é apenas construída; ela é continuamente produzida pelos gestos daqueles que a habitam. As pedras das muralhas pertencem ao século XIV, mas o espaço que elas delimitam é fabricado, todos os dias, pelos ciclistas, pelos idosos que dançam nas praças, pelos vendedores de chá, pelos milhares de estudantes que atravessam a cidade ininterruptamente, pelos trens do metrô, pelos carros Didi (o alicativo da China equivalente ao Uber), pelos riquixás. O espaço não é uma herança. É uma prática quotidiana.

As muralhas da antiga cidade são o exemplo mais evidente dessa convivência. Construídas no século XIV, durante a dinastia Ming, permanecem praticamente intactas. Formam um retângulo de cerca de quatorze quilômetros de extensão, largo o suficiente para que, hoje, centenas de pessoas as percorram de bicicleta. É um passeio obrigatório, sobretudo no final da tarde, quando a luz dourada transforma os tijolos escurecidos pelo tempo numa superfície reflexiva. Reflexiva da vida, do presente e da história. 

Talvez seja por isso que conhecer Xi’an de bicicleta faça tanto sentido. O antropólogo Tim Ingold escreve que caminhar não consiste simplesmente em deslocar-se sobre uma superfície, mas em desenhar linhas sobre o mundo. As muralhas oferecem justamente essa experiência: não se atravessa apenas um monumento; desenha-se uma linha contínua sobre séculos de história. A cidade deixa de ser um objeto observado e passa a ser um percurso vivido.

Lá de cima, percebe-se a lógica urbana de Xi’an. Dentro das muralhas está a cidade histórica; fora delas, ergue-se uma das maiores metrópoles da China contemporânea. Em cada um dos quatro lados da muralha existe um grande portal, permanentemente aberto, por onde passam, sem interrupção, automóveis, ônibus, bicicletas, motocicletas e uma multidão de pedestres. Sobre cada porta permanece uma torre de vigia, lembrando que aquelas aberturas, hoje dedicadas ao trânsito, foram, durante séculos, pontos estratégicos de defesa militar.

A porta Sul talvez seja a mais impressionante. Sua sucessão de muralhas, pátios internos e torres revela uma sofisticada arquitetura defensiva, concebida para retardar qualquer invasor. Caminhar por ela é perceber como a geometria também podia ser uma arma.

No centro exato desse retângulo histórico ergue-se a Torre do Sino, verdadeiro coração da antiga capital imperial. Ela continua marcando simbolicamente o centro da cidade, embora hoje seu subsolo seja ocupado por uma imensa estação de metrô, curiosamente desenhada, no impulso dos símbolos, num formato octogonal. O octógono, na tradição oriental (em diversas religiões e fisolofias) simboliza o renascimento, a regeneração e a transição. Como a forma geométrica que fica entre o quadrado (a terra) e o círculo (o céu e a eternidade), ele representa o equilíbrio, a harmonia cósmica e a mediação entre o mundo material e o espiritual.

Então, imaginem um espaço moderno (um circuito de comércios, serviços públicos e estações de metrô) construído, subterraneamente, no centro da capital mais tradicional da China, com essa ideia, com esse compromisso.

Ali, milhares de passageiros atravessam diariamente galerias subterrâneas que se distribuem em todas as direções, como uma versão contemporânea da antiga rede de caminhos da Rota da Seda. O sino já não organiza os ritmos urbanos; agora são os trens que determinam o pulso da cidade. Mas, se o fazem, é sob o velho sino…

Do alto da torre, os automóveis parecem seguir coreografias invisíveis, enquanto, no subterrâneo, os trens desenham outra cidade, escondida sob a primeira. Xi’an parece existir em vários planos ao mesmo tempo. Não é difícil imaginar Marco Polo descrevendo-a ao imperador dos tártaros, como uma daquelas cidades impossíveis de Italo Calvino, onde cada camada revela uma ordem diferente sem jamais anular a anterior.

Fora das muralhas, Xi’an cresce quase sem limites. Aproxima-se dos vinte milhões de habitantes. Arranha-céus de quarenta ou cinquenta andares desenham um horizonte contínuo, enquanto avenidas largas e viadutos parecem prolongar indefinidamente a cidade. Como tantas metrópoles chinesas, ela produz a sensação de que o crescimento urbano se tornou uma força da natureza.

Mas basta atravessar novamente uma das quatro grandes portas da cidade para que tudo desacelere.

Nas proximidades da Porta Sul existe uma atmosfera difícil de explicar. Árvores antigas sombreiam as calçadas, pequenos cafés ocupam os térreos dos edifícios, casais caminham lentamente, idosos conversam nos bancos das praças. Há ali algo da vie de quartier parisiense: não pela arquitetura, mas pela maneira como a cidade se oferece à convivência cotidiana, ao passeio sem destino, à contemplação.

Poucos minutos de caminhada bastam para que essa tranquilidade desapareça.

Surge então o bairro muçulmano, talvez o lugar mais fascinante de Xi’an. Não é apenas um bairro; é um organismo vivo. Ruas estreitas, becos inesperados, fachadas iluminadas, letreiros em chinês e árabe, vendedores que disputam espaço com turistas, cozinheiros que transformam a calçada em cozinha. O ar inteiro parece cozinhar.

O cheiro do cordeiro grelhado domina tudo. Mistura-se ao pão assado, aos espetinhos cobertos de especiarias, ao vapor dos bolinhos recheados, aos doces de gergelim e às frutas cristalizadas. Caminhar ali significa ser conduzido pelo olfato antes mesmo dos olhos. Vocês já experimentaram se deixar levar, em uma cidade, por meio de seus odores de comida? Penso numa cartografia odorífera…

Ingold me ajuda a pensar nessas coisas. Talvez ele observasse que ninguém percorre essas ruas em linha reta. O bairro parece recusar a geometria das avenidas modernas. Ali, o corpo desacelera, hesita, muda de direção, segue um aroma, aproxima-se de uma banca, entra numa viela sem saber exatamente por quê. É uma cidade feita menos para ser vista do que para ser percorrida.

É curioso pensar que essa intensa presença islâmica existe justamente no coração de uma antiga capital chinesa. Mas talvez não pudesse ser diferente. A Rota da Seda nunca transportou apenas mercadorias. Transportou línguas, religiões, receitas, músicas, técnicas e modos de viver. O bairro muçulmano é menos uma sobrevivência histórica do que a prova de que as cidades guardam, durante séculos, as marcas dos encontros que nelas aconteceram.

Talvez seja essa a maior beleza de Xi’an. Ela não preserva o passado como quem protege uma peça de museu. Ela o incorpora à vida cotidiana. Os guerreiros de terracota, as muralhas, a Torre do Sino, o metrô, os bairros modernos e o mercado muçulmano não competem entre si. Cada um pertence a um tempo diferente, mas todos respiram no mesmo presente.

Enquanto caminhava por Xi’an, pensei, recorrentemente, no livro As cidades invisíveis. Nele, Calvino escreve cidades que existem menos na geografia do que na memória. Xi’an produz justamente essa impressão: não é apenas uma cidade chinesa, mas uma ideia de cidade. Uma cidade onde o tempo não se organiza em sucessão, como nos livros de história, mas em simultaneidade. O imperador Qin Shi Huang continua guardado por seus soldados; os mercadores da Rota da Seda continuam chegando pelo bairro muçulmano; os jovens continuam descendo ao metrô para voltar do trabalho. Todos habitam a mesma tarde.

Ao deixar Xi’an, tive a impressão de não estar deixando (a palavra que me ocorria era “abandonando”) uma cidade, mas uma conversa. Lefebvre me lembra que o espaço existe porque é vivido; Ingold, por sua vez, me recorda que toda cidade é feita das linhas que traçamos ao percorrê-la; Calvino, a seu turno, que algumas cidades só se revelam quando aceitamos que elas pertencem tanto à imaginação quanto à geografia. 

Talvez Xi’an reúna as três coisas. Ela é, ao mesmo tempo, obra, percurso e narrativa. O passado nunca desapareceu dali. Continua caminhando pelas ruas.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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