Publicado em: 4 de julho de 2026
Há cidades que se deixam compreender aos poucos. Outras resistem. Chongqing faz questão de confundir.
É a aglomeração urbana mais populosa da China, com mais de 30 milhões de habitantes e, mesmo assim, é muito pouco conhecida. Ela confunde, é de sua natureza. O primeiro erro do visitante é acreditar que um mapa resolve alguma coisa. Em Chongqing, o mapa é uma ficção bidimensional aplicada a uma cidade que decidiu existir em quatro dimensões. As ruas não apenas se cruzam: elas passam umas sobre as outras, desaparecem dentro de edifícios, reaparecem dezenas de metros acima ou abaixo do ponto onde imaginávamos estar. Uma avenida que parece estar ao lado de outra pode estar quarenta metros acima dela. Um prédio de vinte andares pode ter sua entrada principal no primeiro piso para quem chega por uma rua e no décimo segundo para quem vem pela rua seguinte.
Ali, o elevador é tão importante quanto a calçada. E não se trata de extravagância arquitetônica. Trata-se de uma resposta paciente à geografia. Chongqing foi construída entre montanhas, comprimida pelos vales e moldada pelo encontro de dois gigantes: o rio Yangtzé e o rio Jialing. O relevo recusou qualquer urbanismo cartesiano, e a cidade respondeu inventando uma lógica própria, onde a verticalidade substitui a horizontalidade como princípio de organização.
Talvez seja por isso que caminhar por Chongqing seja menos um deslocamento do que uma experiência de aprendizagem. Aprende-se a desconfiar dos mapas. Aprende-se que uma estação de metrô pode atravessar um edifício residencial sem que ninguém considere isso estranho. Aprende-se que um destino pode estar visível diante dos olhos e, ainda assim, exigir meia hora de escadas, elevadores e passarelas para ser alcançado.
Há quem diga que o turista se perde em Chongqing. É verdade. Mas talvez seja mais correto dizer que Chongqing nos perde de nossas certezas.
Durante séculos, o rio foi o verdadeiro arquiteto da cidade. Antes das autoestradas suspensas e das linhas de monotrilho que parecem desafiar a engenharia, eram as águas que organizavam a vida econômica do sudoeste chinês. O Yangtzé fazia de Chongqing uma porta de entrada para o interior da China, ponto de passagem de mercadorias, soldados, migrantes e histórias. Ainda hoje, quando se observa o intenso movimento de embarcações, percebe-se que a cidade continua respirando no ritmo do rio.
Essa longa história sobrevive no bairro de Ciqikou. Ali, as ladeiras estreitas, as casas tradicionais, as pequenas lojas e as casas de chá preservam algo da Chongqing anterior aos arranha-céus. Não é um centro histórico congelado, mas um lugar onde a memória continua sendo vivida entre vendedores, cozinheiros, músicos e visitantes. Em meio à multidão, ainda é possível imaginar os carregadores transportando mercadorias pelas escadarias de pedra muito antes de existirem metrôs ou elevadores panorâmicos.
Mas seria injusto pensar Chongqing apenas como uma cidade do passado. Sua paisagem contemporânea tornou-se um espetáculo urbano. O distrito de Hongyadong, iluminado ao cair da noite, parece um cenário suspenso entre a arquitetura tradicional e a ficção científica. Trata-se de um complexo arquitetônico de 11 andares construído em um penhasco na beira do rio Jialing, no distrito de Yuzhong. Com mais de 2.300 anos de história, tornou-se uma das atrações mais visitadas da cidade, conhecida por sua iluminação noturna espetacular que lembra o visual do famoso anime “A Viagem de Chihiro”.
A praça do Monumento da Libertação permanece como coração comercial da cidade. Dalí, partem inúmeras ruas comerciais, algumas delas dedicadas à gastronomia (udo o que comi, ali, era perfeito). O teleférico que atravessa o Yangtzé oferece uma perspectiva que lembra ao viajante que, ali, o rio continua sendo protagonista. E há ainda o famoso edifício residencial atravessado pelo metrô, uma imagem que se tornou símbolo mundial da criatividade urbana chinesa.
O que mais impressiona, entretanto, não são essas atrações. É a quantidade de gente. Milhões de pessoas movem-se diariamente com uma naturalidade que surpreende quem acaba de desembarcar. Chongqing é uma das maiores áreas metropolitanas do planeta, mas seus habitantes parecem dominar intuitivamente um espaço que desafia qualquer visitante. Onde o estrangeiro enxerga um labirinto, eles veem atalhos.
Talvez seja essa a maior lição da cidade: toda geografia produz uma forma particular de inteligência.
Essa inteligência também chega à mesa.
A culinária de Chongqing não faz concessões. A famosa panela quente — o hot pot — não é apenas uma refeição, mas um ritual coletivo. Carnes, vegetais, cogumelos e massas mergulham num caldo vermelho carregado de pimentas e da característica pimenta-de-sichuan, responsável por uma sensação curiosa: a boca não apenas arde, ela parece adormecer. É uma gastronomia intensa, moldada pelo clima úmido da região e pela tradição de compartilhar os alimentos em torno de uma mesma panela fumegante.
Depois de alguns dias, compreende-se que Chongqing exige do visitante uma disposição rara: abandonar a necessidade de controlar o espaço.
Vivemos acostumados a cidades que procuram facilitar nossa orientação. Chongqing faz exatamente o contrário. Ela nos obriga a olhar para cima, para baixo e para todos os lados. Obriga-nos a admitir que o mundo pode ser organizado segundo outras lógicas.
Talvez seja essa a razão pela qual tantos viajantes partem dali levando fotografias impressionantes, mas uma lembrança ainda mais duradoura: a sensação de que, por alguns dias, caminharam dentro de uma cidade que decidiu negociar diretamente com as montanhas, com os rios e com a gravidade.
Percorrendo Chongqing lembro do debate que Henri Lefebvre fez sobre o direito à cidade. Em Chongqing, os espaços públicos são intensamente ocupados. À noite, as praças deixam de pertencer aos urbanistas e retornam aos moradores. Grupos dançam, crianças correm, idosos conversam, vendedores cozinham, músicos improvisam. A cidade parece lembrar que um espaço só existe plenamente quando é vivido. Nenhum projeto urbano, por mais monumental que seja, substitui a presença daqueles que o habitam.
E lembro, também da ideia do antropólogo Tim Ingold de que caminhar, pela cidade, é conhece-la. Para ele, conhecemos o mundo caminhando. Não pensamos o espaço como quem observa um mapa. Nós o conhecemos pelas linhas que percorremos.
Nenhum mapa, por melhor que seja, pode ensinar, localizar, explicar Chongqing. Ali, aprende-se que os mapas têm uma arrogância silenciosa. Eles acreditam que o mundo cabe numa folha plana. Os pés sabem mais. É somente caminhando, subindo escadas, atravessando passarelas, entrando em elevadores, seguindo moradores que desaparecem por corredores improváveis, que a cidade começa a fazer sentido. O conhecimento ali não vem da visão panorâmica, mas do percurso. Uma das imagens mais bonitas de Ingold é a de que o mundo não é feito de pontos conectados, mas de linhas que se entrelaçam.
Chongqing parece exatamente isso. Vista do alto, Chongqing parece um novelo. Rodovias, monotrilhos, rios, teleféricos, escadas, vielas, pontes e passarelas desenham linhas que nunca se limitam a ligar dois pontos. Elas produzem encontros, desvios, hesitações. Talvez uma cidade seja menos um conjunto de edifícios do que um tecido de trajetórias.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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