Publicado em: 4 de outubro de 2026
Minha querida,
Há muito tempo penso em escrever uma carta para você. Eu escolho entre muitas uma imagem literária: penso no papel áspero, na caneta-tinteiro e no nanquim escuro atravessando lentamente os poros receptivos da folha de papel.
Quero escrever imaginariamente à mão, deixando que a própria letra desenhe e registre o movimento da lembrança, rebobinando-a em carretel. Quero sentir a resistência do papel sob a ponta da caneta, para que a matéria possa ajudar a recuperar aquilo que os anos foram escondendo para dentro do sótão da memória.
Escreverei para aquela menina que chorava sozinha à noite, quando o quarto ficava escuro e os móveis adquiriam outras dimensões. Durante o dia, o armário guardava roupas. À noite, guardava possibilidades à disposição do menu da imaginação. Todo o espaço se dilatava à noite e ganhava outras dimensões.
O pequeno corredor parecia mais comprido, os ruídos ganhavam notas mais graves e o silêncio parecia esconder alguma coisa que precisava ser descoberta. Você permanecia acordada, escutando os ruídos da casa e esperando o dia tragar lentamente a noite no fumo das horas, até amanhecer.
Hoje eu conheço intimamente a face daquele medo. Conheço porque ele continuou comigo. Já te digo que ele nunca irá embora de uma vez por todas. Apenas se esconderá sob o tecido feito da pele fria de alguns afetos.
O medo mudará de aparência ao longo dos anos. Ele aprenderá novas formas, encontrará outros lugares para morar e aparecerá em situações que uma criança jamais poderia imaginar. O armário desaparecerá, a casa mudará, a menina crescerá, e ele receberá um monte de novos nomes em grego e em latim.
Quando penso em você naquela cama, sinto vontade de atravessar a inexorável parede de aço que reveste os anos e sentar ao seu lado. Eu puxaria o cobertor, seguraria sua mão e permaneceria ali, oferecendo companhia e silêncio.
Deixaria que você falasse sobre aquilo que via no escuro, brincando de criar palavras com a imaginação. Ouviria suas histórias de monstros, de portais dimensionais que levam para outros mundos, de ruídos inaudíveis para ouvidos destreinados e de sombras que crescem e diminuem, com toda a paciência que uma criança merece.
Esperaria o teu sono chegar.
Hoje compreendo que uma criança precisa de presença para atravessar determinadas noites, e você atravessou corajosamente – e sozinha – muitas delas.
Quero falar também com a adolescente que sentia dores lancinantes nos ossos e, por isso, precisava enfrentar consultas médicas severas, preocupações reumáticas e terríveis injeções de Benzetacil de 500 mg.
Lembro-me da dimensão que uma agulha boba de metal podia adquirir naquela idade, do medo evitável, da tensão antes da aplicação do líquido quente dentro do músculo rígido, rasgando a carne, e da sensação de que todo o tempo de uma vida se concentrava naquele pequeno instante, até o alívio, no final.
Você suportava a dor porque precisava aliviar outra dor. Essa será uma bela metáfora para a vida toda. Anos depois, aquela experiência permanecerá guardada na memória com uma nitidez curiosa. O corpo possui seus próprios compartimentos para guardar emoções. Algumas lembranças ficam registradas nos músculos, na pele, no estômago e na respiração.
Uma pessoa pode esquecer uma data e lembrar perfeitamente da sensação que determinado acontecimento produziu, porque a memória não precisa do tempo do calendário. Às vezes, ela guarda até o que não aconteceu. Foi assim que muitas coisas imaginárias ficaram em você.
A infância também deixou suas pequenas catástrofes. Havia problemas que ocupavam todo o horizonte, discussões que pareciam intermináveis e tristezas que adquiriam a dimensão do mundo inteiro. Mas não se preocupe. Isso não há de ser nada, mas poderá facilmente te levar para o divã, se você não perceber a tempo o verdadeiro grau de impotência das coisas pequenas.
A criança não possui distância suficiente para medir os acontecimentos, nem um aparelho com um sistema exato de medidas. Ela vive dentro deles. Cada experiência ocupa o espaço completo da consciência. Por isso, quando olho para você, não diminuo nenhuma dessas dores. Você sentiu o que sentiu. Isso merece respeito. Mas saiba que poderei enxergar de fora aquilo que, de dentro, sempre parece maior do que de fato é.
A vida adulta trará outras dimensões para o medo. Os moinhos continuarão comendo o vento e aprenderão a aparecer em lugares diferentes: alguns se esconderão dentro das preocupações, outros surgirão nas responsabilidades, nas escolhas, nas relações, nas perdas e nas perguntas que acompanharão uma vida inteira.
A diferença está no nome que damos às coisas. A criança chama de monstro aquilo que não compreende; o adulto chama de incerteza. A sensação, no entanto, continua pertencendo ao mesmo território interior.
Você crescerá carregando essa capacidade de imaginar perigos. Também carregará uma capacidade enorme de continuar caminhando, mesmo quando o chão desaparecer sob os seus pés, momento em que você abrirá suas asas douradas. Você encontrará um lugar, mesmo quando não conhecer o caminho inteiro. Essa combinação de geometria e fé acompanhará sua vida.
Você cometerá erros. Eu já conheço alguns deles. Você olhará para determinadas escolhas e sentirá vontade de dobrar o tempo, como se o relógio de Deus fosse feito de origami, e andar para trás.
Você pensará em palavras que poderia ter dito, em silêncios que poderiam ter sido interrompidos, em decisões que poderiam ter seguido outra direção. A experiência transforma a maneira como enxergamos o passado e cria a ilusão de que deveríamos ter compreendido tudo antes.
Essa cobrança precisa terminar.
Você tomou decisões com os conhecimentos e ferramentas disponíveis naquele momento. Viveu com as informações que possuía, com os sentimentos que carregava e com a compreensão que havia construído até então. A mulher que olha para trás conhece causas e consequências que a menina desconhecia.
Eu aprendi a respeitar essa diferença. Aprendi também que crescer significa perder algumas das muitas certezas inabaláveis, até serem demovidas de nós, que o faremos como quem espanta um inseto da ponta do nariz.
Menina, quando somos crianças, imaginamos que os adultos sabem o que estão fazendo. Depois descobrimos que a maior parte das pessoas aprende enquanto caminha. Existem pessoas que escondem melhor suas dúvidas, para fingir que sempre tiveram certezas. Existem pessoas que falam com a segurança de quem sabe de tudo, enquanto procuram desesperada e silenciosamente por uma resposta.
A vida exigirá movimento, mesmo quando a compreensão permanecer incompleta e estacionária. Você aprenderá a caminhar assim.
Haverá perdas.
Essa palavra carrega uma quantidade enorme de coisas. Pessoas amadas partirão, arrancando pedaços seus. Lugares desaparecerão. Algumas relações mudarão de forma. Algumas versões de você deixarão de existir: serão as peles que irão se soltando, para que possamos continuar procurando por quem somos.
O tempo levará consigo objetos, hábitos, vozes, rostos e pequenas cenas que hoje parecem permanentes e irritantes. Você descobrirá a saudade paradoxal de não ter vivido coisas que viveu, e isso será até ridículo no final.
A saudade aparecerá de maneiras inesperadas. Uma música poderá devolver uma tarde inteira. Um cheiro poderá trazer uma casa de volta. Uma fotografia poderá fazer uma pessoa parecer presente durante alguns segundos. Uma frase antiga poderá reaparecer dentro da memória com a nitidez de uma voz recém-ouvida.
A saudade possui essa capacidade estranha de nos aproximar daquilo que o tempo afastou, porque estava escrito em páginas anteriores deste grande livro, onde se desenham os episódios da vida.
Por isso quero que você aprenda a guardar. Guarde as vozes. Guarde os gestos. Guarde as tardes comuns. Guarde as pessoas enquanto elas estiverem perto e se fizerem inesquecíveis, antes que o tempo possa varrê-las para longe, como se fossem poeira depositada nos cômodos da memória.
A vida possui muitas últimas vezes que acontecem sem anúncio. Uma última conversa pode parecer uma conversa qualquer. Um último abraço pode acontecer durante um dia comum. Uma última visita pode terminar sem que ninguém saiba que acabou de fechar uma porta que não será aberta novamente.
Esse conhecimento muda a maneira de olhar. Ele pede presença, mas também desapego. Preste atenção, minha menina! Abandone esse hábito de não se apegar completamente àquilo que passa.
Aprenda que a vida acontecerá no intervalo entre um episódio e outro, enquanto esperamos distraídos que alguma coisa aconteça.
Você passará muitos anos esperando pelo próximo acontecimento importante. Depois perceberá que os momentos mais preciosos estiveram escondidos dentro da mesmice cotidiana. Uma manhã qualquer, uma conversa na cozinha, uma refeição simples, uma risada inesperada, uma pessoa chamando pelo seu nome…
A memória gosta do que parecia pequeno e tem o toque de Midas que transforma o cotidiano em relíquia sagrada. Por isso, preste atenção. Faça-me um favor: quando você estiver feliz, perceba. Quando estiver amando, perceba. Quando estiver em paz, perceba. Você sempre é muito desatenta às coisas que estão acontecendo.
A felicidade raramente anunciará sua chegada. Ela ocupará um espaço durante algum tempo e depois segue seu caminho. Ela tem essa metodologia transitória de um caixeiro viajante.
Também quero te falar sobre a culpa. Você será dura consigo mesma em muitos momentos. Repassará acontecimentos, reconstruirá conversas, imaginará outras possibilidades e procurará o ponto exato em que poderia ter feito alguma coisa diferente.
A memória possui uma habilidade quase cruel para criar versões alternativas da nossa própria vida. Aprenda a interromper esse julgamento, porque é assim com todas as pessoas.
A mulher que você será precisará olhar para as próprias versões anteriores com cuidado. Cada uma delas carregará uma história, uma idade, um medo, uma expectativa e uma compreensão particular do mundo. Nenhuma merecerá ser sobrepujada pela experiência que veio depois, e eu quero que você saiba disso desde cedo.
Quero que aprenda a perdoar a si mesma, antes que o tempo transforme pequenos erros em grandes condenações, porque todas as pessoas que descerem para este mundo cometerão erros, embora costumem adotar o péssimo hábito da condescendência consigo mesmas, na mesma medida em que são cruéis com aqueles que julgam.
A vida já será exigente o suficiente. Você não precisa transformar a própria consciência em um tribunal de ridículas causas.
Há outra coisa que quero lhe contar. Você nunca deixará completamente de ser aquela menina. Ela continuará aparecendo em determinados momentos, diante de certas palavras e em algumas noites de silêncio e de preciosa solidão: sobretudo diante de algumas perdas, quando a adolescência também continuará vivendo em você. A mulher que você será resultará do acúmulo de todas essas pessoas.
Eu gosto dessa ideia agora. Durante muito tempo pensei na vida como uma sucessão de pessoas que deixamos para trás. Hoje vejo continuidade e sobreposição. A menina permanece na mulher. A adolescente permanece na adulta. Cada idade acrescenta alguma coisa à pessoa seguinte. As pessoas chamarão isso de experiência.
Você não precisa apagar nenhuma delas. Precisa aprender a escutá-las. Por isso estou aqui, te escrevendo. Estou tentando reunir todas essas versões em uma mesma conversa.
A menina que tinha medo do escuro, a adolescente que temia ridiculamente as agulhas, a jovem que descobria o mundo, a mulher que aprendeu sobre perdas, a pessoa que escreve agora e que ainda está aprendendo. Todas estão aqui e eu as reconheço.
Eu quero que você saiba que você atravessou as paredes do tempo e chegou até mim, cruzando anos que pareciam intermináveis e dores lancinantes. Atravessou medos, mudanças, perdas. Você muitas vezes transformou em literatura e em imaginação tudo aquilo que decidiu não viver, porque sua vida pacata e cotidiana dispensaria o excesso de emoções.
Toda chegada merecerá respeito. Por isso, quando eu pensar em você novamente, não irei mais imaginar uma criança abandonada no passado, mas uma menina que continua caminhando dentro de mim, trazendo consigo tudo aquilo que a vida ainda transformará em um grande armário com muitos escaninhos.
Quando o medo aparecer, lembrarei do quarto escuro. Quando uma dor parecer grande demais, lembrarei das agulhas e daquela adolescente que oferecia o braço, trêmula de pavor. Quando errar, lembrarei que ninguém recebe o futuro antes de vivê-lo. Quando sentir saudade, lembrarei que algumas ausências existem porque alguma coisa foi profundamente amada e passou.
Enfim, quando a vida me oferecer um instante de felicidade, vou tentar reconhecê-lo enquanto ele acontece, embora isto seja sempre tão difícil, porque ando distraída com a próxima coisa.
Ah, quero fazer uma última viagem antes de terminar esta carta: voltar àquela noite. Quero entrar no quarto e encontrar você acordada, olhando para o escuro. Sentarei ao seu lado.
Você pode continuar com medo. Eu permanecerei ali, impassível. A noite passará e a manhã chegará arrebentando as frestas da janela. Você descobrirá, aos poucos, que o amanhecer sempre esteve a caminho, vencendo as noites mais tenebrosas.
Depois, muitos anos depois, eu estarei aqui escrevendo para você. Esse dia chegará quando eu finalmente entender que aquela menina nunca precisou ser salva do escuro.
Ela só precisava ter a certeza confortável de que alguém permaneceria ao seu lado enquanto a luz não chegasse. Agora estou aqui e escolhi permanecer.
Com amor,
eu.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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