0
 

Camundongas que começaram a tomar semaglutida já velhinhas viveram 12% mais do que as que não tomaram nada. A substância é a mesma do Ozempic e do Wegovy, remédios usados contra a obesidade e o diabetes tipo 2. O resultado saiu em 2 de setembro na revista científica Nature e integra uma fila ainda curta de pesquisas que testam se esses medicamentos também seguram o envelhecimento.

O grupo de pesquisa, que tem entre as autoras a bióloga Danica Chen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, usou fêmeas saudáveis de 20 meses de vida, o equivalente a uma mulher de 60 anos. As que receberam o remédio viveram, em média, 834 dias. As do grupo que não recebeu chegaram a 742.

Não foi só questão de durar mais tempo. As camundongas medicadas se mexeram melhor, tinham mais força muscular e processavam açúcar de forma mais eficiente. As pesquisadoras também foram olhar dentro das células, atrás das alterações que empurram o corpo para a velhice, entre elas a inflamação. Nos animais tratados, esses processos apareceram mais fracos.

Aí veio a dúvida. Comer menos já é conhecido por esticar a vida de várias espécies, camundongos incluídos, e esses remédios funcionam justamente tirando a vontade de comer. As camundongas em tratamento cortaram sozinhas quase um quarto das calorias que ingeriam. Seria só isso?

Para descobrir, a equipe criou um terceiro grupo, sem remédio nenhum, que passou a comer a mesma quantidade de calorias das medicadas. Em tempo de vida, os dois grupos ficaram iguais. Nos testes, não. As que tomavam semaglutida foram melhor em vários deles, inclusive num de memória, em que os animais precisavam lembrar onde ficava a saída de um labirinto. “Isso foi realmente uma surpresa para nós”, contou Chen à Nature. A conclusão dela é que o remédio faz alguma coisa a mais, que a dieta não explica. Que coisa é essa, ninguém sabe ainda.

Michael Corley, cientista da Universidade da Califórnia em San Diego que estuda envelhecimento, diz que esses remédios “estiveram no topo da lista de todo mundo como os candidatos mais empolgantes” entre as apostas para prolongar a vida. Sobre a pesquisa nova, resume que é “um estudo animal muito rigoroso que mostrou um sinal positivo”. Mesmo assim, lembra que tudo ainda é preliminar e que pode levar anos até se saber se dá para receitar esses medicamentos com essa finalidade.

O neurocientista Ho Ko, da Universidade Chinesa de Hong Kong, achou os resultados “altamente complementares” a outros já publicados. A equipe dele mostrou que doses baixas de exenatida, um remédio da mesma família, seguraram sinais de envelhecimento em camundongos machos velhos, como a perda de força.

Mas tem um porém: o estudo de Hong Kong só teve machos, o novo só teve fêmeas. “Uma intervenção que funciona em um gênero não necessariamente se generaliza para outro gênero”, avisa. Ko afirma estar “muito animado” com a possibilidade, mas não gosta da ideia de sair testando remédio em gente sadia. “Não sou necessariamente entusiasta de pegar uma população completamente saudável, dar a ela o medicamento e depois acompanhá-la por muito tempo”, declarou. Ele defende começar por pessoas que já apresentam os primeiros sinais de doenças ligadas à idade.

O teste em humanos já começou a ser montado. No Ramo Médico da Universidade do Texas, em Galveston, pesquisadoras recrutam voluntárias para investigar se a tirzepatida, vendida como Mounjaro e Zepbound, retarda o envelhecimento. Vão participar pessoas de 55 a 70 anos com obesidade, ou com sobrepeso somado a algum problema de saúde, como pressão alta. A previsão é terminar em 2028.

Até lá, diz Corley, o caminho para viver muito e bem segue sendo o de sempre, fazer “o que sabemos que funciona”, ou seja, “ter uma dieta saudável e se exercitar”.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

Mestrado gratuito em Artes e Práticas Culturais

Previous article

Virada Cultural Amazônia de Pé nesta sexta em Santarém

Next article

You may also like

More in Ciência

Comments