Publicado em: 29 de setembro de 2026
As temperaturas máximas da estação seca subiram 3,22 °C entre 1981 e 2023 numa faixa de mais de 700 mil quilômetros quadrados no centro-norte da Amazônia, área de floresta historicamente preservada que agora entra no mapa das regiões críticas do bioma. A alta, de pelo menos 0,75 °C por década, avança em ritmo mais de três vezes superior ao da bacia amazônica como um todo, onde a média do mesmo período ficou em 0,21 °C por década, com aumento acumulado de 0,90 °C.
O trecho é maior que o estado de Minas Gerais e equivale a cerca de 10% da bacia. Abrange floresta densa, savanas naturais e terras indígenas como Coata-Laranjal, Waimiri-Atroari, Yanomami e Trombetas/Mapuera.
Os números são de um estudo internacional publicado no periódico Communications Earth & Environment, liderado pela Rede Amazônia Sustentável, pela Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e pelo WWF, com participação da Embrapa Amazônia Oriental, no Pará, e de mais de 50 cientistas brasileiras e estrangeiras. A equipe percorreu 43 anos de registros de toda a bacia para medir a frequência e a intensidade dos episódios mais graves de seca e calor.
“Estamos mais interessados nos fenômenos ocorridos quando as condições climáticas são mais quentes e secas, pois é nesse período que as altas temperaturas podem causar os maiores danos”, afirmou o professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, autor principal da pesquisa.
A região mais atingida fica longe do Arco do Desmatamento, e por isso o desmate local não explica o aquecimento. As autoras apontam como motores do fenômeno as emissões globais de gases de efeito estufa e as anomalias na temperatura da superfície dos oceanos.
Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, chama atenção para quem vive nesses territórios. “Trata-se de uma questão de fundo relevante, pois são áreas muito conservadas, com floresta preservada, e que sofrem essas mudanças climáticas”, diz. “Comunidades extrativistas e indígenas que vivem em terras atingidas por extremos térmicos causados por alterações globais sofrem as consequências de ações que elas não provocaram”, completa.
O El Niño de 2026 pode trazer nova temporada de seca e calor extremo apenas dois anos depois da última grande estiagem, em 2023 e 2024. Em períodos recentes de calor ou seca excepcionais, a Amazônia registrou incêndios florestais extensos, morte em larga escala de animais e árvores e danos à saúde humana provocados pelo calor e pela poluição do ar. As cientistas temem que, se o ritmo de aumento dos extremos se mantiver, a floresta ultrapasse limites críticos.
Para chegar ao recorte, o grupo dividiu o bioma em células de 11 quilômetros e combinou dados diários de satélite com medições de estações meteorológicas em solo. O início e a duração da estação seca foram definidos para cada localidade a partir do ano hidrológico, o que ajusta a análise ao ciclo de chuvas de cada região.
O sul da Amazônia já tinha avaliações sobre o período seco, lembra Barlow. Uma análise detalhada dos extremos para a bacia inteira, incluindo as áreas ao norte da Linha do Equador, onde a seca segue outro calendário, é inédita.
Nathália Carvalho, pesquisadora da mesma universidade, vê nesse tipo de leitura regional uma base para planos de contingência. “As taxas de mudança nos extremos climáticos são muito maiores do que as do clima médio na Amazônia, e as regiões mais afetadas também são diferentes. Isso mostra que o clima da Amazônia não está mudando de forma uniforme, o que é crucial para o planejamento de estratégias de adaptação”, observa.
O estudo reúne evidências de mortes em massa de mamíferos que vivem nas copas das árvores, como as preguiças, de queda nas populações de aves e de alterações morfológicas em espécies de pássaros. Nos rios, as secas severas baixaram a lâmina d’água e mudaram a composição das comunidades de peixes.
O calor extremo reduz o crescimento das plantas e derruba a produtividade de espécies estratégicas para a economia regional, alerta Ferreira. “O trabalho voltado à sociobioeconomia, à economia da floresta e à biodiversidade fica diretamente ameaçado. Espécies como o açaí, que exige grande volume de água e tem alta sensibilidade ao calor, e a castanha-da-amazônia, muito sensível a secas, enfrentam perdas de produção”, aponta a pesquisadora.
A restauração florestal entra na mesma conta. “Esses extremos comprometem políticas públicas importantes, como os planos de restauração florestal. A queda na produtividade reduz a proteção das matas, ameaça a segurança alimentar e enfraquece a sociobioeconomia, exigindo ações urgentes de mitigação e de adaptação para essas populações”, avalia.
Mesmo com a origem global do problema, Barlow insiste nas respostas locais. “Medidas de adaptação são urgentemente necessárias para lidar com os impactos dessas mudanças climáticas extremas e rápidas, incluindo a prevenção do desmatamento. Também precisamos implementar ações para apoiar o combate aos incêndios florestais e o auxílio às populações locais quando os rios secarem”, defende.
Barrar novas frentes de exploração no centro-norte da Amazônia é, para a equipe, medida determinante para conter o avanço das queimadas.
O artigo “Rapid increase of climate extremes reveals new areas of concern in Amazonia” está disponível no site da Nature (clique aqui). Os mapas com as taxas de mudança de temperatura, déficit de pressão de vapor e precipitação podem ser consultados em uma plataforma interativa, no endereço https://nathaliacarvalho.shinyapps.io/climate-extremes-amazonia/.
Com informações da Embrapa Amazônia Oriental.
Imagem em destaque: Reprodução/Nathália Carvalho, Climate Extremes in Amazonia










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