Publicado em: 25 de agosto de 2026
Cinco candidaturas parauaras entraram na lista de 56 nomes que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) apresentou no último dia 19 como Bancada Indígena 2026. Duas disputam vagas na Câmara dos Deputados e três concorrem à Assembleia Legislativa do Pará, estado que reúne a sexta maior população indígena do país.
Alessandra Munduruku encabeça a chapa parauara na disputa federal, pelo PT, com o número 1388. Liderança do Tapajós, recebeu o Goldman Environmental Prize em 2023 por sua atuação contra hidrelétricas e garimpo ilegal na bacia, e esteve à frente da ocupação de 32 dias da Seduc, entre janeiro e fevereiro de 2025 em protesto contra a Lei estadual nº 10.820/2024 (que alterava regras da educação escolar indígena e permitia o ensino a distância na rede pública), e do terminal da Cargill em Santarém, iniciada em janeiro deste ano e mantida por 33 dias contra medidas de desestatização das hidrovias amazônicas.
Também concorre a deputado federal Ubirajara Sompré, do povo Kayapó, pelo PSB, número 4020. Engenheiro, nascido em Marabá em 1981, foi eleito vereador da cidade em 2024 e articula a criação de um Distrito Sanitário Especial Indígena com sede no município.
Na disputa estadual estão Auricélia Arapiun (PSOL, 50321), Ô-é Paiakan (PSD, 55111) e e Puyr Tembé (Avante, 70678).
Auricélia Arapiun construiu sua liderança no Baixo Tapajós enfrentando garimpo e avanço do agronegócio, e foi uma das articuladoras da ocupação do terminal da Cargill em Santarém desde o primeiro dia, quando cerca de 60 indígenas entraram no terminal sem estrutura, água ou alimentação. Também foi uma das lideranças na ocupação da Seduc, que representou um sucesso histórico para os povos originários, pois a intensa mobilização resultou na revogação integral da lei contestada, um desfecho que teve como pilar central sua atuação como coordenadora-executiva da Coiab, que liderou as negociações diretas com o governo, unificou a resistência dos povos da Amazônia e garantiu o respeito à autonomia da educação escolar indígena.
Ô-é Paiakan é Mẽbêngôkre da Terra Indígena Baú, assistente social e mestranda na Universidade Federal do Pará. Foi a primeira mulher a se tornar cacica entre os Kayapó e a primeira indígena à frente da Coordenação Regional Kayapó Sul, ligada à Funai, posto que deixou para disputar a Alepa. É filha do cacique Paulinho Paiakan e de Tuíre Kayapó, morta em agosto de 2024, cujo gesto com um facão no encontro de Altamira de 1989 virou imagem mundial da resistência ao projeto que se tornaria Belo Monte.
Puyr Tembé ocupou a Secretaria de Estado dos Povos Indígenas do Pará desde a criação da pasta, em 2023, e deixou o cargo em abril para cumprir o prazo de desincompatibilização exigido pela legislação eleitoral. A chefia de gabinete respondeu pela secretaria até 1º de julho, quando Mike Kirixi Munduruku foi empossado por decreto da governadora Hana Ghassan.
O levantamento da Campanha Indígena, feito no sistema do Tribunal Superior Eleitoral e atualizado em 17 de agosto, contou 191 candidaturas de pessoas autodeclaradas indígenas em 2026. É o maior número já registrado em eleições gerais desde que o TSE passou a coletar informação de cor e raça no registro de candidaturas, em 2014. Eram 85 naquele ano, 133 em 2018 e 186 em 2022.
Apesar do recorde, a proporção não muda. As 191 candidaturas representam menos de 1% dos 20.506 registros apresentados no país. A Amazônia Legal concentra 80 delas, ou 41,9% do total, e há candidaturas indígenas em 26 das 27 unidades da federação.
Entre as 191, 84 são de mulheres, 43,8% do conjunto. O número de candidatas indígenas cresceu cerca de 190% em doze anos, segundo o mesmo levantamento.
A Bancada apresentada pela Apib é um recorte dentro desse universo. Reúne candidaturas de 39 povos em 19 estados, sendo 27 de mulheres, e se distribui em 33 disputas por deputada estadual, 19 por deputada federal, duas ao Senado, uma ao governo estadual e uma à segunda suplência do Senado.
“A Bancada Indígena é um recorte político construído a partir das indicações das organizações regionais de base da APIB, fortalecendo uma articulação que parte dos territórios”, afirma Alana Manchineri, coordenadora da Campanha Indígena.
O Censo de 2022 registrou 80.974 indígenas no Pará, mais que o dobro dos 39.081 contados em 2010. O estado aparece em sexto lugar no ranking nacional, atrás de Amazonas, Bahia, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Roraima.
Há indígenas vivendo nos 144 municípios parauaras. Santarém concentra o maior número absoluto, 16.955 pessoas, e Jacareacanga tem a maior proporção, com 59,13% da população municipal. No país, 1,1 milhão de indígenas, ou 63,27% do total, moram fora de terras indígenas.
A Assembleia Legislativa do Pará tem 41 cadeiras e a bancada parauara na Câmara dos Deputados tem 17. A Bancada Indígena disputa três das primeiras e duas das segundas.
A distância entre peso demográfico e peso político tem quatro séculos de história documentada.
O IBGE estima em mais de 2 milhões a população indígena que habitava o território brasileiro no século XVI, com uma tabela comparativa que chega a 2.431.000 pessoas. Em 1998, viviam em terras indígenas 302.888. Entre um número e outro estão as epidemias, a escravização, as missões, as guerras de conquista e a ocupação dos territórios.
O apagamento também foi jurídico. O Estatuto do Índio, a Lei nº 6.001, de 1973, dizia no artigo 1º que seu propósito era integrar os indígenas “progressiva e harmoniosamente, à comunhão nacional”. O artigo 4º os dividia em isolados, em vias de integração e integrados, reservando o pleno exercício dos direitos civis apenas à terceira categoria. O artigo 7º submetia os não integrados a regime tutelar exercido pela União. Na letra da lei, ser sujeito de direitos dependia de abrir mão de ser indígena.
A cidadania eleitoral chegou tarde e por outra via. “Analfabetos” permaneceram proibidos de votar até a Emenda Constitucional nº 25, de 15 de maio de 1985.
A Comissão Nacional da Verdade contabilizou ao menos 8.350 indígenas mortos entre 1964 e 1985 por ação ou omissão do Estado, em massacres, remoções forçadas de territórios, esbulho de terras, contágio por doenças infectocontagiosas, prisões e tortura. A Constituição de 1988 rompeu com o paradigma da integração ao reconhecer, no artigo 231, os direitos originários dos povos sobre as terras que ocupam tradicionalmente.
A presença indígena nos cargos eletivos começou antes disso. Em 1969, Manoel dos Santos, o Seu Coco, do povo Karipuna, elegeu-se vereador em Oiapoque, no Amapá. Em 1976, em plena ditadura, o cacique Ângelo Kretã, Kaingang, conquistou uma vaga de vereador em Mangueirinha, no Paraná. Seis anos depois, Mário Juruna, do povo Xavante, foi eleito o primeiro deputado federal indígena do país, com mandato exercido entre 1983 e 1987.
Iracy Cassiano, Potiguara, tornou-se prefeita de Baía da Traição, na Paraíba, em 1990. João Neves, do povo Galibi-Marworno, chegou à prefeitura de Oiapoque em 1996. Levantamento do pesquisador Luís Roberto de Paula estima em pelo menos 448 o número de indígenas eleitos no Brasil entre 1976 e 2012.
Depois do mandato de Juruna, o Congresso ficou mais de três décadas sem representação indígena. A Apib publicou em 2017 o manifesto “Por um Parlamento cada vez mais indígena”. No ano seguinte, Joenia Wapichana foi eleita a primeira mulher indígena a ocupar uma cadeira na Câmara e Sonia Guajajara integrou uma chapa presidencial.
A Campanha Indígena nasceu em 2020. Naquele ano, 2.212 indígenas registraram candidaturas municipais, 27% mais que em 2016, e 236 foram eleitas, de 71 povos. Em 2022, a primeira Bancada Indígena reuniu 30 candidaturas e cerca de 500 mil votos. Sonia Guajajara, por São Paulo, e Célia Xakriabá, por Minas Gerais, chegaram à Câmara. Guajajara deixou o Ministério dos Povos Indígenas para disputar a reeleição neste ano.
A plataforma que orienta a Bancada trata a demarcação e a proteção das terras indígenas como parte da soberania nacional, defende a participação dos povos nas decisões públicas e coloca a proteção dos territórios entre as respostas à crise climática. As candidaturas são chamadas a incorporá-la nas campanhas.
“A Bancada Indígena que estamos apresentando nasce das organizações de base e leva para as eleições um projeto construído pelo movimento indígena”, diz Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Apib. “Aldear a política significa levar as propostas dos nossos povos para os espaços onde as decisões sobre o país são tomadas.”
A disputa parauara acontece enquanto o Baixo Tapajós responde a ataques diretos. Na segunda-feira (17), o Ministério Público Federal acionou a Justiça Federal contra o empresário Renan Antônio Ferreira dos Santos e o Movimento Brasil Livre por publicações que ofenderam e deslegitimaram a identidade étnica de 14 povos de Santarém, Belterra e Aveiro, cerca de 22 mil pessoas. Os procuradores pedem R$ 500 mil por danos morais coletivos.
Foto em destaque: Diego Baravelli / Greenpeace










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