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Trinta esculturas em cerâmica de alta temperatura ocupam a Galeria Ruy Meira, na Casa das Artes, a partir desta quinta-feira (20), quando o artista visual parauara Werne Souza abre em Belém a exposição Arte em Terra Queimada. A visitação segue até 12 de setembro.

As peças reúnem duas séries que vinham sendo desenvolvidas em separado, Operárias e Mulheres de Fé, agora apresentadas lado a lado pela primeira vez. A curadoria é de Nina Matos.

Chegar a esse conjunto custou meses de pesquisa e uma troca de método. Werne queria peças mais duras do que as que vinha produzindo, e foi essa inquietação antiga que o levou à queima em temperatura alta.

“Sempre quis um resultado mais resistente, mais próximo da pedra. Procurava uma densidade que o barro, da forma como eu trabalhava antes, não alcançava”, conta o artista.

A técnica respondeu à questão e criou outras. Além da resistência, mudam superfícies, tonalidades e texturas. Nas obras que entram na mostra, o barro sai escuro, profundo, em alguns casos quase metálico.

Para dar conta do processo, Werne procurou o artista e mestre ceramista Levy Cardoso, que trabalha em Icoaraci, distrito de Belém historicamente ligado à produção cerâmica no Pará. Levy entrou com o conhecimento sobre composição das massas cerâmicas, comportamento das argilas, esmaltação, resistência e controle dos fornos em altas temperaturas.

“Trabalhar escultura em cerâmica de alta temperatura é muito complicado. Exige conhecimento, estrutura, espaço e domínio da queima. Eu procurei o Levy justamente porque ele conhece profundamente essa parte do processo. É uma parceria sem a qual esse projeto não seria possível”, afirma.

O trabalho começou pela modelagem das esculturas originais. Delas saíram as formas, que receberam novas composições de argila, pesquisadas para suportar temperaturas elevadas sem perder a integridade estrutural. Parte das peças passou por queimas sucessivas. Pequenas variações de matéria, tempo e calor bastavam para alterar completamente o resultado.

Construir e montar formas era procedimento que não fazia parte da prática do artista. “Nunca tinha trabalhado dessa maneira. A forma também exige construção, pesquisa e observação. Durante o trabalho, você vai memorizando a posição das peças e entendendo que aquilo também é uma criação. O molde é uma escultura que gera outra escultura”, observa.

Foto: Ricardo Pontieri

Do percurso inteiro, ele resume: “Foi um trabalho longo, complicado e trabalhoso. Exigiu muita observação e muita pesquisa. O resultado depende de muitas etapas. Mas, quando a peça sai do forno, o próprio resultado me incentiva a continuar.”

Operárias e Mulheres de Fé dialogam sem formar continuidade linear. Uma e outra integram a mesma investigação sobre o universo feminino, que ocupa Werne há anos. “São mulheres ligadas à fé, à memória, à espiritualidade e a uma força que está muito próxima de nós. São mulheres que reconhecemos em nossas famílias e na nossa convivência”, diz.

Para a curadora, as duas séries expõem camadas sociais, políticas, espirituais e ancestrais que atravessam a produção do artista. “O trabalho reúne figuras femininas que reconhecemos em nossas próprias histórias: as avós, as mães, as mulheres da família, as mães de terreiro e as benzedeiras tradicionais de nossa região”, diz Nina Matos.

A curadoria relaciona a escolha do barro às tradições tecnológicas desenvolvidas durante séculos por mulheres indígenas amazônicas, responsáveis pela seleção das argilas, pela modelagem, pela queima e pela pintura de peças ligadas à vida cotidiana, aos rituais, à memória e à cosmologia. Uma prática que hoje enfrenta dificuldades de continuidade, entre a falta de incentivo, a escassez de matéria-prima e o afastamento das novas gerações dos processos tradicionais.

“É um projeto de fôlego, maestria e sensibilidade que comove já em sua feitura. Ao mesmo tempo, chama atenção para uma tradição tecnológica amazônica que precisa ser conhecida, preservada e fortalecida”, destaca a curadora.

Werne Souza acumula mais de três décadas de trajetória. Passou pela pintura, aquarela, desenho, construção de objetos, instalações e escultura. O contato com a argila começou há cerca de 25 anos, de maneira experimental, e só ganhou lugar central na sua produção a partir da pesquisa iniciada com Operárias.

A crítica social aparece cedo nesse percurso. Em 1993, quando foi premiado na segunda edição do Salão Paraense de Arte Contemporânea, o conjunto de pinturas que apresentou já trazia crítica política. “Eu não começo uma obra apenas pela técnica. Há sempre uma preocupação com o que aquela figura carrega e com o que ela pode provocar em quem olha”, define.

A exposição terá conteúdo em braille e ação de audiodescrição. A data e o horário da audiodescrição serão divulgados depois.

Arte em Terra Queimada foi contemplada pelo Edital de Criação Artes Visuais do PNAB, da Fundação Cultural do Pará e da Secult-PA, no âmbito do Sistema Nacional de Cultura, com realização do Ministério da Cultura.

Serviço:

Exposição: Arte em Terra Queimada

Artista: Werne Souza

Curadoria: Nina Matos

Abertura: 20 de agosto de 2026, às 19h

Visitação: de 20 de agosto a 12 de setembro de 2026

Local: Galeria Ruy Meira, Casa das Artes, Praça Justo Chermont, nº 236, bairro de Nazaré, Belém (PA)

Acessibilidade: conteúdo em braille e ação de audiodescrição, com programação a ser divulgada

Foto em destaque: Luciana Medeiros

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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