Publicado em: 24 de agosto de 2026
O livro “Escola de Brincante”, do Arraial do Pavulagem, está disponível para download gratuito desde 18 de agosto e reúne em 80 páginas a trajetória e os métodos de trabalho do Instituto. Uma edição impressa está prevista, com informações a serem divulgadas futuramente.
Editado em Belém e assinado pelo próprio Instituto, o livro reúne textos, fotografias e ilustrações que se organizam em capítulos que tratam da origem do movimento, dos reconhecimentos legais obtidos nos últimos anos, da pedagogia das oficinas, da etimologia dos símbolos que o grupo criou, da formação em cidadania infantil, da participação das mulheres e das linhas de atuação do Instituto.
“A publicação registra uma história coletiva de quase quatro décadas. É uma forma de preservar essa memória e contribuir para que esses saberes continuem atravessando gerações”, comenta o músico Júnior Soares, cofundador do Arraial do Pavulagem.
A origem do Pavulagem está no fim da década de 1980, nas primeiras brincadeiras musicais na Praça da República. O pequeno boi que aparecia nas rodas de música cresceu, reuniu brincantes e virou cortejo. O Boi Pavulagem, boi-bumbá amazônico, foi o brinquedo original, e dele derivaram o Peixe-Boi, a Barca Rainha das Águas e o Galo. Em 2003 veio a estrutura administrativa, com a criação do Instituto, que passou a organizar oficinas, executar políticas culturais e registrar processos. Prestes a completar 40 anos, o grupo publica agora esses registros.
O capítulo dedicado à pedagogia é o mais extenso do livro. A publicação recorre a estudo de Façanha (2023), intitulado “Uma escola a céu aberto: a transmissão de saberes no Instituto Arraial do Pavulagem”, para descrever o Arraial como espaço não convencional de aprendizado, com didática forjada na prática, na repetição, no erro e na escuta.
Nas oficinas se aprende canto, dança, percussão, confecção de personagens, perna de pau, manipulação de adereços, práticas de economia criativa e educação ambiental. O texto sustenta que boa parte de quem chega nunca tocou um tambor nem dançou carimbó, e que a entrada nesse repertório rompe uma lógica de exclusão simbólica.
“A cultura popular só continua existindo quando é compartilhada. Quando a gente ensina, a gente garante que ela não se perca”, resume Ronaldo Silva no livro.
Júnior Soares define a contrapartida dessa formação em uma frase da mesma seção. “O cortejo só acontece porque existe compromisso coletivo. Cada pessoa é responsável pelo todo.”
O calendário do Instituto se organiza em ciclos que se renovam. O Arrastão do Pavulagem ocupa junho e o início de julho, com o levantamento dos mastros três dias antes do primeiro cortejo, no segundo domingo de junho, e a derrubada no primeiro domingo de julho.
Em outubro, o Arrastão do Círio caminha para a 24ª edição. O Boi Pavulagem cede o protagonismo à Barca Rainha das Águas, referência ao Círio Fluvial e à carpintaria naval amazônica, e o cortejo sai do Boulevard Castilhos França até a Praça Dom Pedro II.
O Cordão do Peixe-Boi foi realizado entre 2003 e 2013 e voltou às ruas em 2025. Traz como personagem central o peixe-boi amazônico da espécie Trichechus inunguis, ameaçada de extinção, ao lado de peixes, entidades míticas e dos “Ibissorocs”, ou Bichos D’Água, criados pelo grupo como protetores dos rios.
Criado em 2008 em Cachoeira do Arari, no Marajó, o Cordão do Galo se prepara para a 19ª edição. O nome homenageia o padre italiano Giovanni Gallo, fundador do Museu do Marajó, conhecido por denunciar tráfico humano e exploração sexual de crianças e adolescentes na ilha.
“Os cortejos são a parte mais visível de um trabalho que acontece durante todo o ano. A publicação permite compartilhar com o público um pouco dos processos que mantêm essa brincadeira viva”, explica Ronaldo Silva, também músico e cofundador do grupo.
O levantamento mais recente do Instituto, de 2025, aponta 75% de participação feminina nas atividades. O livro registra a presença das mulheres na gestão, na produção, nas oficinas, no acompanhamento de pessoas com deficiência, no cuidado com crianças e na liderança comunitária, e associa esse quadro a um amadurecimento institucional.
Em Cachoeira do Arari, onde os índices de violência contra crianças e mulheres preocupam, o Cordão do Galo mobilizou cerca de 300 crianças e 200 famílias em janeiro de 2026. A programação inclui as Rodinhas de Conversa sobre direitos, o Chá com Mulheres, oficina de confecção de bolsas com reaproveitamento de jeans e um bazar solidário movido por moeda social própria, o “Galo”.
“O Cordão do Galo é um espaço de vivência, alegria e inclusão, onde a criança tem garantido o direito à cultura. É nesse ambiente lúdico e coletivo que se constroem memórias, valores e vínculos que acompanham essas crianças por toda a vida”, afirma Walter Figueiredo, presidente do Instituto Arraial do Pavulagem.
A frente voltada à infância ganhou nome próprio e método em 2025. O Arraial Desde Gitinho nasceu da certificação do Instituto nos conselhos municipais dos direitos da criança e do adolescente de Belém e de Cachoeira do Arari, e reúne rodas de conversa, oficinas socioeducativas, distribuição de exemplares do Estatuto da Criança e do Adolescente, teatro de bonecos com o personagem “Boizinho Respeitoso” e formação de instrutores.
Uma seção inteira decifra a gramática visual do grupo. A estrela azul no alto do chapéu de palha representa a guarnição divina, a estrela de São João. As fitas, em verde-bandeira, amarelo-ouro, vermelho e azul royal, aludem ao arco-íris. Os mastros, feitos de madeira reflorestada e reutilizados a cada ano, aparecem em par, mastro do homem e mastro da mulher, e simbolizam força, fartura e promessas. Estandartes abrem o cortejo. As bandeiras foram pensadas para o fim dele, embora já tenham circulado no início e no meio em algumas edições.
A Lei Municipal nº 9.305, de 12 de julho de 2017, reconheceu o Arraial do Pavulagem como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial de Belém. Quatro anos antes, o Arrastão do Círio já havia sido declarado Bem Cultural associado ao Círio de Nazaré.
Em 2020, a Lei Estadual nº 9.108, de 17 de agosto, declarou o grupo Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Pará. A Lei Federal nº 14.961, de 4 de setembro de 2024, publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte, passou a considerá-lo Manifestação da Cultura Nacional. A norma teve origem no Projeto de Lei nº 4.284/2019, apresentado na Câmara dos Deputados.
A realização da publicação é do Instituto Arraial do Pavulagem, com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e do Ministério da Cultura.
Para acessar “Escola de Brincante”, clique aqui.
Foto em destaque: Filipe Bispo










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