Publicado em: 18 de julho de 2026
Para Ivanildo Alves
Nesta semana, lançaremos um olhar mesmo que superficializado na literatura do escritor Fernando Pessoa e de seu heterônimo Alberto Caeiro. Peço licença aos queridos confrades da Academia Paraense de Letras, Ivanildo Alves e Ernane Malato. Não sou especialista em sua obra, trago o olhar da Critica Literária e da Literatura contemporânea. Este texto esta eivado por profunda admiração pelo autor e por sua obra.
Entre os mais de 100 heterônimos criados por Fernando Pessoa, estudos literários apontam quase 120, Alberto Caeiro é indubitavelmente singular. O próprio Fernando Pessoa o chamava de “o mestre”, afirmando que foi a partir dele que nasceram, simbolicamente, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Essa posição não decorre da quantidade de poemas escritos, é proveniente da força de seu pensamento poético. Caeiro apresenta uma maneira completamente nova de compreender a realidade. Em vez de procurar sentidos ocultos, símbolos ou explicações metafísicas, ele convida o leitor a olhar o mundo como ele é. Sua poesia transforma o ato de ver em uma forma de conhecimento.
Fernando Pessoa construiu Alberto Caeiro como um homem simples, criado no campo, sem formação universitária e profundamente ligada à natureza. Essa biografia fictícia foi criada com exatidão. Ela reforça a ideia de que a sabedoria não depende da erudição, mas da capacidade de contemplar a realidade sem preconceitos intelectuais. Caeiro representa um sujeito que não deseja dominar o mundo pelo pensamento; deseja apenas conviver com ele.
Essa postura implode a grande parte da tradição da poesia ocidental. Desde a Antiguidade, muitos poetas utilizaram a natureza como metáfora da vida, da religião ou dos sentimentos humanos. Caeiro faz exatamente o contrário. Para ele, uma árvore não representa esperança, um rio não simboliza o tempo e uma flor não precisa esconder qualquer mensagem. As coisas existem por si mesmas, e isso basta. Sua poesia propõe uma intensa educação do olhar.
Essa concepção aparece claramente em um dos trechos mais conhecidos de “O Guardador de Rebanhos” (1925):
“O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê.”
Esses versos sintetizam toda a filosofia de Alberto Caeiro. O poeta acredita que o pensamento frequentemente interfere na percepção da realidade. Quando pensamos demais, deixamos de enxergar aquilo que está diante de nós. Ver torna-se um exercício de presença, de atenção e de simplicidade. Não se trata de abandonar a inteligência, mas de reconhecer que nem toda experiência precisa ser explicada para ser verdadeira.
Essa valorização da experiência sensível aproxima a obra da reflexão de Antonio Candido sobre a função Humanizadora da literatura. Candido afirmava que a literatura amplia nossa percepção da vida e nos permite experimentar outras formas de compreender a existência. A poesia de Caeiro realiza exatamente esse movimento. Ela ensina a desacelerar o olhar e a perceber a realidade sem a necessidade constante de interpretá-la. Outro verso resume de forma extraordinária essa proposta estética: “Pensar é estar doente dos olhos.”
Ao perceber essa afirmação parece rígida. Entretanto, expressa uma crítica profunda ao excesso de racionalização da vida moderna. Para Caeiro, o pensamento excessivo cria uma barreira entre o ser humano e o mundo. Quanto mais tentamos explicar tudo, menos somos capazes de experimentar a realidade em sua plenitude. O poeta defende um conhecimento construído pela experiência direta, afasta os conceitos.
Essa reflexão pode ser ampliada por meio da leitura do crítico Literário e historiador da cultura brasileira, Alfredo Bosi (1936–2021). Ao analisar a poesia moderna, Bosi observa que muitos escritores buscaram recuperar formas mais autênticas de percepção da existência. Em Alberto Caeiro, essa busca aparece na recusa do excesso de abstração. Sua linguagem elimina o ornamento desnecessário e aproxima o poema da fala cotidiana, produzindo uma simplicidade que, na verdade, resulta de grande elaboração artística.
Um dos poemas que melhor traduz essa visão é “Quando vier a Primavera” (1925), texto em que Caeiro enfrenta um dos maiores temas da literatura: a morte. O poema inicia com versos que emocionam justamente pela serenidade:
“Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos
verdes que na Primavera passada.”
Nesse excerto, a morte deixa de ser encarada como tragédia absoluta. A natureza continua seu ciclo independentemente da existência humana. As flores continuarão florescendo, as árvores permanecerão verdes e o mundo seguirá seu ritmo natural. Caeiro rompe com a tradição que coloca o homem no centro do universo. A natureza não depende de nossa presença para existir.
Essa perspectiva revela uma profunda humildade diante da vida. Em vez de transformar a morte em motivo de desespero, o poeta aceita que ela faz parte da mesma ordem natural que governa o nascimento das flores e o movimento das estações. Há uma serenidade quase filosófica nessa aceitação, construída sem qualquer discurso religioso ou metafísico.
Mais adiante, Caeiro escreve: “A realidade não precisa de mim.”
Essa ideia resume um dos aspectos mais revolucionários de sua poesia. O ser humano deixa de ocupar uma posição privilegiada na criação. A realidade não existe para satisfazer nossos desejos nem para responder às nossas perguntas. Ela simplesmente existe. Essa consciência produz um sentimento de liberdade, porque nos liberta da necessidade de controlar tudo.
Esse pensamento aproxima-se daquilo que o ensaísta e critico literário Afrânio Coutinho (1911-2000) identificava como a autonomia da obra literária. Para Afrânio Coutinho, a literatura não precisa funcionar como instrumento moral ou filosófico. Em Caeiro, essa autonomia manifesta-se de maneira exemplar. Seus poemas não procuram convencer o leitor de uma verdade; apenas apresentam uma maneira diferente de experimentar o mundo.
Outro aspecto importante da obra é sua recusa ao simbolismo. Enquanto muitos poetas procuram significados escondidos na natureza, Caeiro afirma:
“As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.”
Neste trecho há uma ruptura em séculos de tradição literária baseada na interpretação simbólica. Para Caeiro, a árvore vale porque é árvore, o rio porque é rio e a flor porque floresce. A poesia nasce justamente dessa fidelidade absoluta ao real.
Essa simplicidade, entretanto, não deve ser confundida com inocência Fernando Pessoa constrói uma voz poética extremamente sofisticada, capaz de formular uma verdadeira filosofia da percepção utilizando palavras simples.. Somos convidados a abandonar o hábito de procurar mensagens escondidas e aprender novamente a contemplar.
A poesia de Alberto Caeiro recorda que existem experiências que só podem ser plenamente vividas quando suspendemos, ainda que por alguns instantes, a necessidade de compreender racionalmente tudo o que acontece ao nosso redor.
Fernando, por meio de Alberto Caeiro, realizou uma das experiências literárias mais extraordinárias da língua portuguesa. Criou um poeta cuja filosofia contrasta com sua própria personalidade intelectual. Enquanto Pessoa vivia dividido por dúvidas e reflexões constantes, Caeiro encontra serenidade na contemplação direta da realidade. Antonio Candido afirmava que a literatura amplia nossa experiência humana porque nos permite habitar perspectivas diferentes das nossas. Alberto Caeiro realiza plenamente essa função. Seus poemas ensinam que talvez o maior conhecimento não esteja em acumular teorias, mas em recuperar a capacidade de olhar o mundo sem a ansiedade permanente de explicá-lo.
Sua poesia abandona as certezas, reduz o excesso de interpretações e reencontra o encanto daquilo que parece comum. Ao afirmar que “o essencial é saber ver”, Caeiro oferece por meio do princípio estético, uma lição sobre a existência. Ao produzir significados, sua poesia leva-nos à contemplação, à simplicidade e a percepção sobre a realidade, em sua presença silenciosa, possui beleza suficiente para transformar profundamente o olhar humano.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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