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Essa reflexão foi-me provocada pelo pároco da minha igreja, na homilia de domingo, que tomou um cuidado extremo para não influenciar o voto de ninguém. Ora, todos ali conhecem o posicionamento político do reverendo e, mesmo com todo o cuidado tomado, sua fala naturalmente retrata a sua visão de mundo.

E, aliás, foi justamente a existência de uma visão de mundo distinta que cada pessoa carrega consigo que foi usada como balizador do que seria um voto consciente pelo pároco. E com razão, pois afinal, não é possível imaginar que pessoas com histórias de vida diferentes, perspectivas distintas e personalidades diversas tenham, necessariamente, que escolher o mesmo representante. 

Numa sociedade tão diversa quanto a brasileira, reconhecer que existem diferenças — e que essas diferenças precisam encontrar representação no nosso sistema de governo — é o primeiro ponto de singularidade de um voto consciente. Porém, existem algumas nuances que precisam ser expostas para que, de fato, essa campanha faça sentido.

Assim, o primeiro ponto a destacar é a diferença entre discursos que encantam eleitores e ações que, no exercício do mandato, mostram-se inócuas no Parlamento — seja no Congresso Nacional, na ALEPA ou no Senado.

Muitos candidatos são excelentes enquanto candidatos. Engajam nas redes sociais, levam multidões às ruas e posam ao lado de minorias. Mas nem sempre apresentam ações efetivas que justifiquem, depois, aquilo que prometeram durante a campanha. Assumem que eleição é entretenimento — e, de fato, muitas vezes acaba sendo —, mas esquecem que a política é coisa muito séria depois do pleito.

Outro ponto relevante é que nem todos os grupos sociais conseguem alcançar o mesmo nível de representatividade. Obviamente, quem dispõe de recursos financeiros e, principalmente, de recursos sociais — tipo amigos no poder — ou políticos — uma base eleitoral forte, por exemplo — possui muito mais vantagem na hora de articular essa representação.

Isso significa que simplesmente dizer que todos devem “escolher alguém que represente sua visão de mundo” não resolve inteiramente a questão, porque nem todas as visões de mundo partem do mesmo lugar ou possuem as mesmas condições de chegar aos espaços de poder.

Por fim, talvez o ponto mais importante seja compreender que esse raciocínio funciona muito bem quando pensamos nos cargos legislativos, mas encontra um grande problema quando aplicado da mesma forma aos cargos executivos.

Isso porque, seja qual for o presidente, governador ou prefeito eleito, ele tem a obrigação de mediar conflitos e gerir os recursos públicos pensando na totalidade da população, mesmo que determinados setores não façam parte de sua base eleitoral.

Daí a importância de compreender a consciência no voto também como a escolha por bons gestores: pessoas capazes de exercer uma visão tão democrática quanto possível e que não busquem governar apenas para aqueles que lhes deram apoio ou fazem parte de sua base.

Logicamente, parafraseando Cazuza, dificilmente vamos encontrar alguém que caiba perfeitamente nos nossos sonhos — pelo menos quando olhamos para a política sem paixão. E, possivelmente, quem quer que seja o próximo líder do Executivo também carregará consigo sua própria visão de mundo.

É justamente daí que surge a importância de uma oposição forte, de diferentes grupos com representatividade e, acima de tudo, da capacidade de esses grupos dialogarem entre si.

No fim das contas, talvez o voto consciente não esteja apenas em encontrar alguém que pense exatamente como nós, mas em compreender quem é capaz de representar determinadas demandas sem perder de vista o conjunto da sociedade. E, sobretudo no Executivo, quem possui capacidade de mediar diferenças e governar para todas as pessoas — inclusive para aquelas que não votaram nele.

Acilon Cavalcante
Arquiteto e urbanista apaixonado por cidades, histórias e pessoas. Tem mestrado em Artes, mestrado em Arquitetura e é doutorando em Mídias Digitais pela Universidade do Porto. Premiado em projetos de planejamento urbano, já atuou com governos e ONGs no Brasil, Canadá e Portugal, sempre conectando urbanismo, design participativo e sustentabilidade. Gosta de transformar dados em ideias e ideias em cidades mais humanas.

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