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O som do vento no rio carrega um tom de despedida. Partiu Seu Ladir, o homem que transformou seu próprio quintal em templo de saber, generosidade e resistência na comunidade ribeirinha de Boa Vista do Acará, município vizinho a Belém do Pará.


Nascido e criado com os pés fincados na terra preta da Amazônia e deslizando pelos caules de açaizeiros com a peconha, Seu Ladir se tornou guardião do seu pedacinho de chão. Multiplicador da sabedoria ancestral, recebia a todos com o sorriso largo em seu sítio, mostrava as plantas medicinais e com sua simplicidade ensinava o segredo para tirar a castanha-do-pará de dentro do ouriço, revelando que a maior riqueza da Amazônia é a vida que nela habita. Sob a sombra e as imensas raízes da samaumeira centenária que era palco de brincadeiras no seu tempo de menino, ele sentava e contava histórias da floresta, encantando os visitantes.


Só aos 83 anos, por recomendação médica, ele parou de escalar os açaizeiros, mas ainda transportava carvão remando em sua própria canoa. Ganhou notoriedade na internet porque as pessoas no mundo inteiro preferem romantizar a colheita do açaí e a miséria dos amazônidas do que se preocupar com as vidas mutiladas e ceifadas nessa atividade.


Boa Vista do Acará é rodeada por rios e furos, com fauna e flora exuberantes, e foi o turismo ecológico e as vivências fotográficas com passeios guiados e experiências imersivas na rotina ribeirinha que puseram Seu Ladir em cena nas redes sociais. Os fotógrafos o adoravam e eternizaram sua imagem. Sua casa ganhou um belo grafite feito pelo artista Luiz Chibé. Os turistas espalharam pelo planeta a existência de um homem que fez da própria vida um hino de amor ao meio ambiente e à cultura cabocla parauara.


Vá em paz e na luz, Seu Ladir!

Foto: Celso Lobo

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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