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O engenheiro, romancista, cronista, ficcionista, memorialista, contador de infindáveis causos Ademar Ayres do Amaral, talentoso até na cozinha e sobretudo uma pessoa do bem, boa-praça, gentilíssimo, partiu hoje para o plano espiritual, deixando a todos que tiveram a sorte de privar de sua amizade só lembranças agradáveis e bonitas.


Escritor premiado, membro fundador da Academia Artística e Literária de Óbidos, Ademar Amaral tinha uma prosa excepcional, como provam seus livros “A encomenda e o deputado”, “Catalinas e Casarões”, “Sementes do Sol” e “No Ritmo da Festa (Ou Mais!…)”. Consta que que só três obidenses estão no acervo da Biblioteca Rodolfo Garcia, da Academia Brasileira de Letras: Inglês de Souza, José Veríssimo e… Ademar Amaral, que quando soube disso ficou feliz que nem obidense comendo jaraqui assado na brasa.


Ademar ganhou menção honrosa na Academia Paraense de Letras, em 1980, e no livro “Prêmio de Literatura AP” está publicado seu conto “Estirão do Sem Fim”, 1º lugar na categoria. Nele Ademar transborda o canto irresistível da gente que bebe à beira dos imensos rios e igarapés e sussurra em seus escritos os mistérios fantásticos das nossas histórias e lendas. O santareno Benny Franklin – atual presidente da Academia Paraense Literária Interiorana, que ganhou o 1º lugar com a poesia “Exame de Consciência”, também está nessa edição. O concurso teve imortais da Academia Paraense de Letras no julgamento dos trabalhos, em 2007.


O texto imorredouro de Ademar, confirmando a tradição literária de sua terra natal, é leve e resgata de modo saboroso a história regional do Baixo Amazonas. Seu romance “Sementes do Sol”, de 2012, é uma viagem ao mundo dos ribeirinhos, fala de homens poderosos e da saga dos koutakusei, os japoneses que deram a vida para aclimatar a juta indiana na Amazônia. Ademar conta nele que a imigração japonesa cuja sede era na Vila Amazônia, em Parintins (AM), recebeu em 1940 a visita do presidente Getúlio Vargas, na época uma espécie de protetor e, mais tarde, algoz dos japoneses. Getúlio entrou na guerra e eles viraram inimigos do Brasil. O 27º Batalhão de Caçadores, de Manaus, invadiu a Vila Amazônia e muitos japoneses foram presos e enviados para um campo de concentração em Tomé Açu, no Pará. Nunca mais eles foram ressarcidos do prejuízo e a Vila se tornou espólio de guerra, sendo depois leiloada e arrematada a preço vil por uma empresa amazonense.


Ademar me mandou uma foto de quando Vargas visitou o projeto da Ford, em Belterra. No registro, o presidente da República deixava numa canoa a praia de Pindobal, rumo ao hidroavião que o levaria para Manaus, com escala em Parintins, onde ele foi recebido por Kotaro Tuji, conheceu a Vila Amazônia e o grandioso projeto de juta dos japoneses.


Seu livro “Catalinas e Casarões” é absolutamente fascinante. Degustando uma “Suruba Amazônica” – nome do prato maravilhoso que ele fez na minha casa, receita secretíssima – tive o privilégio de ouvir do próprio autor alguns dos relatos no livro, antes de ser lançado. São passagens deliciosas, que encantam os leitores. Um dos cenários marcantes dessa obra é o histórico Solar do Barão de Santarém, onde no quarto do segundo andar uma visagem deu-lhe um belo susto, numa inesquecível manhã de 1959.


Cronista muito lido e festejado do Uruá-Tapera, durante muitos anos, desde o tempo em que era jornal impresso, Ademar também colaborou no PQP do saudoso comendador Raymundo Mário Sobral.


Lembro de uma de suas impagáveis histórias. Ele embarcou em Juruti num monomotor que transportava malote do Banco do Brasil e veio “pingando” em Porto Trombetas, Oriximiná, Óbidos, Alenquer, Monte Alegre e Santarém (Ufa!). Era subir, voar uns 25 minutos e descer. O piloto nem desligava o motor do avião. Vinha o cara do malote, abria uma portinhola na cauda, colocava os sacos e a aeronave decolava. Em todas as pistas havia muitos urubus. Em Monte Alegre foi preciso uma manobra radical para escapar de um deles. Em Alenquer o perigo era maior, tinha até uma rede de alta tensão na cabeceira da pista, e o avião passava “raspando”. Os pilotos contaram que cansaram de pedir para que tirassem a fiação elétrica daquela posição e ninguém dava bola…


Certa vez, em agosto de 2017, publiquei que estava chovendo granizo em Oriximiná. Um temporal com descargas elétricas e ventos fortíssimos derrubara árvores e até um poste de distribuição de energia elétrica. Residências foram destelhadas, principalmente no conjunto Tia Ana, de casas populares; e voaram tampas de caixas d’água. No sítio do meu saudoso irmão, Francisco Florenzano, que ficava na nascente do lago Iripixi, a horta fora dizimada e a estufa quebrou com o granizo. Tomatinhos cereja foram vitimados. Ademar de imediato comentou comigo que a chuva de granizo não chegava a ser novidade na região. Na década de 1950 ele fora testemunha do mesmo fenômeno em Óbidos e chamou para confirmar a história o advogado e escritor Célio Simões, também obidense, que na ocasião teve que se esconder nas imediações do quartel para escapar das pedrinhas. Foi comentário na cidade por muitas luas, contou Ademar, que adorava alfinetar o Célio, um de seus melhores amigos desde a infância, e que até hoje é colunista do Uruá-Tapera.


Ademar me contou também que era da turma de Engenharia Civil da UFPA de 1972, histórica. O primeiro ano, 1968, coincidiu com o AI-5, marco do endurecimento do regime militar, e foi muito tumultuado. A Escola de Engenharia funcionava na esquina da rua Manoel Barata com a travessa Campos Sales, em Belém.


Os programas de boas pescarias e incontáveis aventuras nos igapós do mágico Paraná da Dona Rosa, no interior de Óbidos, onde ele nasceu e viveu sua meninice, povoam suas crônicas. Brilhante escritor e pesquisador, Ademar era apaixonado pela sua terra.


Sentirei muita saudade desse grande amigo. Que esteja em paz e na luz, e Deus conforte a sua amada Rosa, filhos, netos e demais familiares e amigos.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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