Publicado em: 7 de julho de 2026
Folarin Balogun permaneceu em silêncio antes, durante e depois da maior polêmica disciplinar da Copa do Mundo de 2026. Enquanto a FIFA tentava justificar o injustificável (a suspensão da punição automática decorrente do cartão vermelho recebido pelo atacante da seleção estadunidense) e dirigentes do futebol europeu denunciavam uma ruptura sem precedentes na governança esportiva, o jogador não fez qualquer manifestação pública conhecida sobre o caso. Silêncio por escolha ou por impossibilidade?
O nome de Balogun virou o centro de uma crise institucional muito maior do que um simples julgamento disciplinar. O atacante acabou autorizado a enfrentar a Bélgica nas oitavas de final após a FIFA converter a suspensão automática de um jogo em um período probatório de um ano, com base no artigo 27 de seu Código Disciplinar. A cereja do bolo foi o anuncio ser feito poucas horas depois de Donald Trump revelar que havia telefonado ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, pedindo uma revisão da punição.
É pública e notória a proximidade entre Trump e Infantino. Nos últimos anos, os dois passaram a aparecer juntos com frequência em eventos oficiais, trocaram elogios públicos e mantiveram interlocução constante durante os preparativos da Copa do Mundo de 2026. Em dezembro de 2025, depois de Trump voltar a afirmar que merecia receber o Prêmio Nobel da Paz e ficar novamente fora da premiação, Infantino criou o FIFA Peace Prize – Football Unites the World, entregue ao presidente estadunidense durante o sorteio da Copa do Mundo, em Washington. O prêmio foi criado e anunciado sem consulta prévia ao Conselho da FIFA e sem critérios públicos de seleção, num claro escárnio ao princípio de neutralidade da entidade máxima do futebol.
A UEFA classificou a decisão como uma “linha vermelha” cruzada pela FIFA, argumentando que suspensões automáticas decorrentes de cartões vermelhos existem justamente para preservar a previsibilidade e a igualdade de tratamento nas competições. A entidade afirmou que abrir exceções dessa natureza compromete a credibilidade do sistema disciplinar e cria um precedente de difícil contenção.
A Federação Belga declarou estar surpresa com a mudança de entendimento, pediu explicações formais à FIFA e sustentou que a decisão produziu insegurança jurídica justamente às vésperas de um confronto eliminatório entre Bélgica e Estados Unidos. O protesto belga foi rejeitado pela FIFA.
Não, não foi a primeira vez que um jogador expulso acabou disputando um jogo decisivo de Copa do Mundo. Na Copa de 1962, no Chile, na semifinal contra os anfitriões, o atacante brasileiro Manoel Garrincha foi expulso aos 83 minutos após agredir um adversário. À primeira vista, a expulsão o impediria de disputar a decisão contra a então Checoslováquia. O contexto disciplinar da época, contudo, era bastante diferente do atual.
Naquele Mundial ainda não existia a regra hoje consagrada da suspensão automática para o jogo seguinte em caso de cartão vermelho. Cabia à Comissão Disciplinar da FIFA analisar individualmente cada expulsão e decidir se haveria ou não punição. Após examinar o caso, o órgão optou por apenas advertir Garrincha, sem aplicar qualquer suspensão, permitindo que ele disputasse a final, vencida por 3 a 1 e garantindo ao Brasil o bicampeonato.
Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre os episódios: em 1962, a comissão simplesmente exerceu a discricionariedade prevista no regulamento então vigente. Já agora, em 2026, a FIFA afastou a aplicação de uma suspensão automática expressamente prevista nas normas disciplinares atuais.
Desde o episódio de 1962, a FIFA reformulou completamente seu sistema de punições justamente para reduzir esse grau de discricionariedade. Nas últimas décadas, a entidade aplicou de forma uniforme a suspensão automática em casos igualmente controversos, recusando rever expulsões como as do brasileiro Kaká, em 2010, e do turco Hakan Ünsal, em 2002.
Mas um fato, digamos, curioso, é que, enquanto as entidades futebolísticas, a mídia internacional e todos aqueles que acompanham a Copa falavam sobre o assunto, Balogun permaneceu em silêncio. Ele não comentou a reversão da suspensão, tampouco comemorou publicamente a decisão ou respondeu às acusações de favorecimento político. Não há entrevistas, publicações em redes sociais ou declarações públicas conhecidas em que o jogador trate diretamente do episódio além do comentário, depois do jogo contra a Bósnia Herzegovina, quando considerou que o cartão vermelho teria sido excessivo, e da breve entrevista depois do jogo contra a Bélgica, na qual afirmou que a suspensão da punição não interferiu no jogo e que a Bélgica mereceu a vitória.
Folarin Balogun nasceu em Nova York, filho de mãe britânica e pai nigeriano. Ele passou parte da infância na Inglaterra antes de optar por defender a seleção estadunidense. Sua história pessoal representa exatamente o perfil multicultural que há décadas caracteriza grande parte da formação da equipe nacional dos Estados Unidos.
Fora dos gramados, Trump sustenta um discurso e políticas migratórias excludentes, ampliando operações do ICE contra imigrantes e defendendo medidas para restringir o alcance do direito à cidadania por nascimento, tema que provocou intensa disputa judicial nos Estados Unidos. Balogun é cidadão estadunidense por nascimento e essas medidas atingem justamente famílias imigrantes semelhantes àquela da qual o atacante descende – ou seja, de “não-brancos”, já que a mãe de Donald era uma imigrante escocesa e o pai filho de alemães. O contraste entre o apoio presidencial recebido durante a Copa e a retórica adotada em relação à imigração é, no mínimo, contraditória. É aquela coisa: quando convém…
Gostaria, sinceramente, de saber o que Balogun pensa sobre toda esta situação. Talvez um dia ele resolva falar. Se isto acontecer, provavelmente será quando Trump for defenestrado da presidência dos Estados Unidos. Fico imaginando como deve ser duro para um atleta ver seu nome ser o epicentro de uma medida que fere a autonomia do órgão regulador de seu esporte. Pior, por causa de pressões políticas exercidas por Trump, que notoriamente acha que é rei do mundo e age como dono dos Estados Unidos, ameaçando a cidadania e o bem estar justamente de pessoas com o perfil dele.
Na minha cabeça, o silêncio de Balogun grita uma coisa: medo.










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