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Sem ouvir a população e sem comprovar as devidas licenças do Iphan, do Dephac/Secult – e muito menos da Fumbel, extinta pela atual gestão -, a Prefeitura de Belém está “transformando” a emblemática Praça Brasil, no bairro do Umarizal, cujo nome oficial é Praça Santos Dumont e surgiu no processo de modernização e expansão urbana da cidade no início do século XX. Ali já foi “Largo Chefe da Esquadra Pedro da Cunha” e local usado pelo “Esquadrão de Cavalaria da Polícia Militar”. É espaço histórico, de memória afetiva, com mangueiras e samaumeiras centenárias e elementos arquitetônicos e escultóricos.


O grande ícone da praça é o “Monumento ao Índio”, escultura de bronze em tamanho natural de um indígena Guarani, sobre pedestal de granito de cerca de quatro metros de altura, que homenageia os povos originários do Pará, inaugurado em 1º de maio de 1933, na época do governo do interventor federal Magalhães Barata e da gestão do prefeito Abelardo Conduru.


Mas a história dessa obra remonta a 1905, quando foi encomendada, na Alemanha, por Francisco Monteiro, um dos herdeiros da “Loja Guarani”, de ferragens, que ficava na Rua 15 de novembro, bairro Campina. Sua criação foi pensada como tributo ao escritor José de Alencar e ao maestro Carlos Gomes, autores, respectivamente, do livro e da ópera “O Guarani”. A estátua cruzou o Oceano Atlântico e aportou nas docas paraenses no final de 1906, e foi fixada na parte central externa, sobre cantoneiras de ferro da Loja Guarani, até a data em foi colocada na Praça Brasil.


Em 25 de outubro de 1986, a orquestra sinfônica de Campinas-SP, regida pelo maestro Benito Joarez, executou trechos de “O Guarani” no encerramento do programa do sesquicentenário de nascimento do maestro Carlos Gomes. Era prefeito de Belém Coutinho Jorge e governador do Estado Jader Barbalho.


A praça foi revitalizada pelo então prefeito Hélio Gueiros e vice-prefeito Aldebaro Barreto da Rocha Klautau, com projeto arquitetônico e paisagístico de Aurélio Meira e Vera Bastos.


A revitalização atual preocupa porque o prefeito Igor Normando anunciou que transformará a praça em parque urbano. A julgar pelos parques lineares da Doca e da Tamandaré, concebidos pelo ex-governador Helder Barbalho, é uma temeridade. Ao invés de tratar e sanear o esgoto a céu aberto que são os canais, ergueram árvores de ferro horrorosas e o resultado é que todos os quiosques fecharam, já que ninguém em sã consciência consegue comer ou beber algo sentindo o cheiro fétido que exala desses canais.


A praça não precisa ser transformada e sim mantida limpa, organizada e segura, a fim de que seja aproveitada pelas famílias. Não precisa de praça de alimentação e sim que as barracas de guaraná e de água de coco tenham água tratada e esgotamento sanitário, com as árvores e a identidade histórica preservadas.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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