Publicado em: 11 de julho de 2026
Não venho falar de coisas fervorosas, a dimensão da fé é mais profunda do que expressada pelos disfarces da representação humana. Venho falar do poético da divindade, distinto da fé manipulada que viabiliza vantagens e prestígio a falsos profetas.
Quero falar da poesia de Deus através de sua maior criação que é a humanidade, na grandeza da sua capacidade de criar e coexistir entre si. Quero falar da divindade da poesia que a inteligência divina ofertou à condição humana.
Que poesia maior possa existir na condição humana vinculada a uma Inteligência Suprema, apontada para a racionalidade dos princípios humanitários como forma de evolução moral e espiritual?
Desde os tempos mais antigos, a poesia tem sido uma das formas mais profundas de expressar a experiência humana diante do mistério da existência. Quando as palavras comuns parecem insuficientes para descrever o amor, a esperança, a dor ou a beleza da criação, a poesia surge como uma linguagem capaz de tocar o invisível. Nesse sentido, Deus e poesia apresentam uma relação íntima: ambos apontam para aquilo que ultrapassa os limites da razão.
Foi Baruch Espinosa (1632–1677), um dos filósofos mais influentes da Idade Moderna, quem revolucionou completamente a forma de compreender Deus, a religião e a relação entre a fé e a razão. Penso em Deus como poesia, na medida em que poesia representa um modo diferente de ver o mundo.
Em uma época marcada por conflitos religiosos e pela forte influência das instituições religiosas na vida política e social, Espinosa defendeu propôs uma visão racional da religião, tornando-se um dos precursores do pensamento iluminista.
Espinosa não concebia Deus como um ser pessoal que interfere diretamente nos acontecimentos do mundo. Para ele, Deus é a própria natureza, uma realidade infinita e eterna da qual todas as coisas fazem parte. Essa ideia ficou conhecida pela expressão latina Deus sive Natura ou “Deus, ou seja, a Natureza”.
Deus não está separado do universo, mas é a própria essência da realidade. Sua concepção rompe com a visão tradicional de um Deus transcendente e aproxima a divindade das leis naturais na poética da existência.
Espinosa fez críticas às instituições religiosas quando estas utilizavam o medo, a superstição e o poder para controlar as pessoas. Em sua obra Tratado Teológico-Político, argumentou que muitos líderes religiosos interpretavam as Escrituras de forma conveniente para manter sua autoridade.
O filósofo não rejeitava a religião em si, mas defendia que ela deveria promover valores éticos como justiça, amor ao próximo e solidariedade, em vez de estimular a intolerância e o fanatismo. Para ele, a verdadeira religião deveria contribuir para o desenvolvimento moral da sociedade.
A razão permite compreender melhor a realidade e superar preconceitos e superstições, por isso a compreensão da poética de Deus através da razão sem desconsiderar a fé, é indispensável para o progresso do conhecimento e para uma convivência mais justa entre indivíduos.
Ao defender que Deus se manifesta na própria natureza, Espinosa estabelece a relação poética com Deus, abrindo caminho para uma compreensão mais crítica da experiência religiosa manipulada que a poesia de Deus não estabelece.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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