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Entre o veto íntimo e a pergunta pública


“As pessoas de que falo aqui sabem que há razões para duvidar e, ainda assim, parecem desprezá-las. Se esse é o caso, a pergunta fundamental sobre como agiriam em momentos graves da história não precisa mais ser feita. A resposta foi dada.” — João Moreira Salles, “O que esses brasileiros sabem”, piauí



A parábola, o homem e o moscardo


Conta-se que um homem procurou Sócrates com pressa de contar uma notícia sobre um amigo. Antes de ouvi-la, o filósofo o deteve com uma pergunta: “O que você vai me contar já passou pelas três peneiras?” A primeira era a da Verdade: você tem certeza de que o que vai dizer é verdadeiro? Se não tem, é boato. A segunda, a da Bondade: o que vai dizer é algo bom? Se não é, é maldade disfarçada de informação. A terceira, a da Utilidade: o que vai dizer é útil? Se não é, é ruído que só incomoda. Diante de três respostas negativas, Sócrates teria concluído: “Se não é verdadeiro, nem bom, nem útil, então por que me contar?” — e a notícia ficou retida na boca de quem a trouxe, sem atravessar o mundo.


A história é engenhosa, luminosa, de uma economia moral quase perfeita — e, por isso mesmo, impõe-se dizê-lo com honestidade. The Socratic Review, publicação que adota as três peneiras como lema, reconhece em sua página institucional que a história atribuída ao filósofo é muito provavelmente apócrifa: não há fonte antiga identificada que permita atribuir a cena ao ateniense. Essa constatação, porém, não a desmerece; apenas a situa. Uma parábola não precisa ter acontecido para dizer a verdade sobre o que acontece todos os dias. O que ela perde em autenticidade documental, ganha em permanência: tornou-se o nome que damos a uma intuição antiga e universal — a de que a palavra, antes de ser lançada ao mundo, deveria prestar contas de si mesma.


Debra Nails e S. Sara Monoson, no verbete Socrates da Stanford Encyclopedia of Philosophy, ajudam a perceber por que importa distinguir o Sócrates histórico das representações que chegaram até nós. E, no entanto, um Sócrates emerge com nitidez sobretudo da Apologia de Sócrates, de Platão, e ele não é um guardião do silêncio confortável. É aquele que declara que uma vida sem exame não merece ser vivida; que se compara a um moscardo — a mutuca que pica o flanco de um grande cavalo nobre, Atenas, para despertá-lo do torpor; que interpela, persuade e censura os cidadãos, um a um, sem jamais ocupar a tribuna da assembleia.


Mas há um risco escondido na elegância da parábola. Reduzida a três perguntas, a peneira pode virar uma máquina de decidir que promete mais do que cumpre. Sua força está em interromper o impulso de passar adiante; seu perigo, em sugerir que três palavras bastam para resolver os conflitos entre verdade, cuidado e dever. E é precisamente esse perigo que este ensaio quer desarmar: a peneira, se mal compreendida, deixa de filtrar o boato e passa a filtrar a coragem — retendo não só a mentira, mas também a verdade incômoda, a denúncia necessária, a palavra que precisaria ser dita. A parábola teme a língua precipitada; o moscardo teme a consciência adormecida. Uma ética da palavra precisa dos dois. Há horas em que falar é despejar impurezas no poço comum; há horas em que calar é deixar que o poço seja envenenado. E é essa segunda pergunta — a do custo do silêncio — que conduz ao coração do nosso tempo.


O daimónion que detém e o grilo que insiste


O imaginário socrático guarda ainda uma segunda criatura, mais discreta e, talvez, mais misteriosa: o daimónion — em grego, to daimónion, literalmente “a coisa divina”, o sinal divino. Na Apologia de Sócrates, Platão apresenta Sócrates falando de “algo divino e demoníaco” (ti theîon kaì daimónion) — uma voz que, desde a infância, o visita. O detalhe decisivo é o sentido dessa voz: ela jamais o incita a agir; apenas o detém. Quando está prestes a dar um passo, o sinal o interrompe. Nunca ordena, nunca persuade, nunca empurra. É um veto, não uma ordem. O moscardo interpela os outros; o daimónion interrompe o próprio Sócrates. Um leva perguntas à cidade; o outro barra, na intimidade, o passo que ainda não foi dado. Poeticamente, poderíamos dizer que o moscardo desperta o que dorme em público, e o daimónion guarda o que se decide em silêncio — e Sócrates chega a relacionar esse veto ao fato de nunca ter assumido o papel de conselheiro político da cidade: a mesma fidelidade ao exame que o fazia falar nas praças era a que o fazia calar diante da tribuna.


É preciso cuidado para não traduzir o daimónion de modo rasteiro: ele é apresentado como divino, não como o mero nome antigo da “voz da consciência”. Mas, como imagem, ele nomeia um instante perfeitamente reconhecível: o momento privado em que percebemos que uma frase conveniente, uma aproximação interessada, um silêncio calculado talvez nos levem aonde não queremos ir. O aviso não resolve o que fazer depois. Deter-se não é ainda explicar-se, corrigir-se ou posicionar-se. É apenas a pausa em que a escolha se torna visível a quem a fará.


Há ainda um terceiro companheiro de viagem, vindo da literatura. Carlo Collodi, em As Aventuras de Pinóquio, dá forma poética a uma tentação menos espetacular e muito comum: na cena original, o Grilo Falante — que vive há mais de cem anos no quarto onde o boneco acaba de chegar — insiste em lhe dizer uma grande verdade, e Pinóquio, para não ouvi-la, o esmaga com um martelo. A figura lembra, com sua insistência frágil, que a consciência abafada costuma voltar — como o grilo de Collodi, que retorna ao fim da história para cobrar o que foi silenciado. Os três, nesta leitura, são gestos complementares de uma mesma ética da palavra. A peneira examina a fala antes que ela circule; o daimónion detém a ação antes que ela se consume; o grilo insiste na consciência que preferimos abafar. O aviso íntimo não substitui a verificação; a verificação não dispensa a decisão de falar; a fala não dispensa a responsabilidade por seus efeitos.


A verdade não pertence a ninguém, mas os fatos pertencem ao mundo


A primeira peneira parece simples até encontrarmos duas pessoas à mesma janela. Uma sente frio; a outra, não. A tradição associada a Protágoras leva a sério essa diferença das aparências: o mesmo vento pode parecer frio a um e quente a outro, e quem diria que um deles se engana? Platão, no Teeteto, dramatiza a dificuldade de estabelecer o que conta como conhecimento: o que aconteceria se a simples discordância bastasse para tornar verdadeira toda opinião? Maria Baghramian e J. Adam Carter, no verbete Relativism da Stanford Encyclopedia of Philosophy, mostram que há posições relativistas distintas, não uma única tese que transforme toda opinião em verdade. Reconhecer que avaliamos a partir de lugares distintos não obriga a afirmar que todas as proposições são igualmente boas.


A distinção é decisiva. A sensação de frio varia; a existência do vento não se decide por votação. Também na vida pública há desacordos legítimos sobre causas, prioridades e remédios — e uma democracia precisa deles para respirar. Mas a discussão perde o chão quando um acontecimento documentável passa a ser tratado como simples preferência, como se a realidade fosse questão de gosto. A humildade intelectual não é a abdicação de verificar; é a disposição de corrigir o que se acreditava saber. Dizer “não sei” pode ser, em certas horas, a frase mais fiel à verdade. Mas dizer “não sei” quando se sabe o bastante para alertar alguém é outra coisa: é transferir ao outro todo o custo de dizer o que já se sabe.


Hannah Arendt, em Truth and Politics, formula essa dificuldade com precisão rara: a liberdade de opinião torna-se uma farsa quando não se assegura a informação factual; confundir fato e opinião é também uma maneira de mentir. O que está em jogo é a realidade comum — o mundo partilhado no qual podemos discordar precisamente porque há algo diante do qual discordamos. Uma cidade não precisa de cidadãos que pensem todos do mesmo modo; precisa que possam discutir diante de algo que nenhum deles tenha o poder de apagar à vontade. Quando os fatos se dissolvem em opiniões, o mundo comum se desfaz — e com ele a possibilidade mesma de uma conversa honesta.


O nome que damos ao outro pode mudar o lugar do outro no mundo


Há palavras que descrevem e palavras que fazem. J. L. Austin, em How to Do Things with Words, desloca a atenção da ideia de que as palavras apenas descrevem o mundo: em certas circunstâncias, falar é também realizar um ato. Dizer “aceito” numa cerimônia pode integrar o próprio ato de casar; uma promessa cria um compromisso; uma acusação pode alterar a posição social de quem a recebe. As palavras não operam por feitiço — sua eficácia depende de pessoas, práticas e condições —, mas ninguém deveria subestimar o que uma expressão pode autorizar dentro de uma instituição, de uma família ou de uma multidão.


Judith Butler, em Excitable Speech, aprofunda a pergunta pelos efeitos da linguagem, sobretudo quando ela fere e quando instituições reivindicam a autoridade de regulá-la. As palavras podem ferir, sim; mas também podem ser contestadas e devolvidas de outro modo. Daí sua cautela com soluções que entreguem toda resposta à censura. Entre “era só uma palavra” e “a palavra determina sozinha o destino de alguém” existe a vida concreta. Nela, uma designação pode ensinar os demais a deixar de reconhecer um rosto; uma resposta pode começar a restituí-lo. E Platão, no Górgias, oferece outro alerta: a capacidade de persuadir não é, por si, capacidade de conhecer ou fazer justiça. Um discurso pode vencer uma audiência porque lisonjeia seus desejos, mesmo quando evita as perguntas decisivas. É assim que a peneira da utilidade pode ser pervertida: uma afirmação pode ser extremamente útil a uma campanha e não servir em nada ao esclarecimento dos cidadãos.


Se a palavra pode fazer coisas, ela também pode mover os limites do que uma sociedade considera aceitável. Joseph Overton, na formulação apresentada pelo Mackinac Center for Public Policy em The Overton Window, imaginou nos anos 1990 uma janela para as propostas que um político consegue defender sem se tornar eleitoralmente inviável — a faixa do que a opinião pública admite, estranha ou recusa. Mas o mecanismo tem uma face perigosa que a neutralidade do modelo não deve esconder: a janela não se move apenas para acolher o que antes foi marginalizado; ela pode deslizar também para baixo. Ideias que eram impensáveis tornam-se nomeáveis; o inominável passa a ser dito sem rubor; o que era dito como escândalo passa a ser debatido como opinião; o que era debatido como opinião acaba aceito como normal. Esse deslizamento não é um fenômeno neutro: é a forma clássica do rebaixamento ético e civilizatório. Quando o absurdo é recebido com naturalidade, a indignação perde o lastro, o senso comum se rebaixa, e aquilo que exigia resistência passa a ser tratado como simples divergência. Há palavras que alargam a dignidade de quem não era ouvido — mas há palavras que fazem o caminho inverso: tornam suportável, e depois corriqueiro, aquilo que exigia indignação.


Derek Robertson, em How an Obscure Conservative Theory Became the Trump Era’s Go-to Nerd Phrase, publicada na Politico Magazine, examina a popularização dessa expressão e o risco de ela virar explicação fácil para fenômenos políticos diferentes. Chamar uma frase de tentativa de mover a janela pode ser um começo de análise, nunca seu fim. É preciso identificar quem a promove, o que propõe, quais fatos invoca, quem seria atingido — e quais instituições poderiam contestá-la. Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém, nomeou, em outro contexto, a banalidade do mal: não o monstro, mas o coração que cessa de se escandalizar. Também o silêncio participa dessa gramática: cada omissão diante do que a sociedade evitava nomear é um voto a favor de que ele se torne normal.


Ruanda oferece o caso extremo, que não deve ser convertido em metáfora fácil — mas que ilumina, por contraste, o que a peneira deveria ter retido e onde ela falhou. Alison Des Forges, na investigação Leave None to Tell the Story: Genocide in Rwanda, publicada pela Human Rights Watch, documenta a organização do genocídio e a dimensão das responsabilidades envolvidas: a propaganda trabalhava para converter pessoas em ameaças e fazer da violência uma resposta concebível. O Tribunal Penal Internacional para o Ruanda, no acórdão Ferdinand Nahimana, Jean-Bosco Barayagwiza, Hassan Ngeze v. The Prosecutor, relativo ao caso ICTR-99-52-A, examinou a incitação pública e direta ao genocídio à luz de seu contexto e de requisitos jurídicos específicos, confirmando, com redução de penas, as condenações dos dirigentes da mídia. O registro judicial, porém, não transforma qualquer mentira ou ofensa em incitação punível: reconheceu a proteção da liberdade de expressão e distinguiu o debate sobre identidade étnica da promoção do ódio. Nem toda palavra áspera destrói um mundo; nem toda palavra polida o preserva. O perigo cresce quando uma linguagem repetida, prestigiada e organizada prepara os ouvidos para não ouvir mais o sofrimento do outro.


A bondade que protege o cruel não é bondade


Ser bom não é soar agradável. Uma pessoa que relata uma violência pode fazer tremer uma mesa inteira; isso não torna injusto seu relato. Inversamente, alguém pode insultar sob a bandeira da franqueza e nada oferecer além do prazer de dominar. A diferença não está na temperatura da frase, mas em seu compromisso com o que aconteceu e com quem terá de viver depois dela. Também a terceira peneira, a utilidade, pergunta mais do que parece. Útil para quem? Um boato pode ser útil a quem busca atenção; uma verdade pode ser inútil ao conforto de quem detém poder e indispensável a quem precisa de proteção. Se utilidade significar apenas conveniência imediata, a peneira descartará o testemunho incômodo e conservará a propaganda eficiente.


Usar palavras duras, portanto, pode ser justo: para interromper uma agressão, recusar uma mentira persistente, identificar uma prática abusiva, advertir sobre um perigo real. A dureza exige disciplina, não licença. É preciso mirar a conduta e a responsabilidade, oferecer as razões disponíveis, preservar a diferença entre acusação e prova, e não emprestar à própria indignação uma onisciência que ela não possui. “Isto é falso” pode ser uma frase severa e necessária; inventar motivos secretos para explicar a falsidade acrescenta ao erro que se combate outro erro.


O silêncio, então, também precisa prestar contas. Às vezes é prudência: permite apurar, escutar, não expor alguém vulnerável. Às vezes é uma forma de cumplicidade. A pergunta final não pode ser apenas “fui gentil?”; deve incluir “gentil com quem, às custas de quem?”. E é nesse limite que a Janela de Overton ilumina a cena contemporânea: a normalização começa menos como anúncio solene do que como hábito de tratar a dúvida como inconveniência. Quando alguém com prestígio e margem para dizer não recebe, sem interpelar, aquilo que deveria provocar resistência, o gesto não apenas reabilita publicamente o que ainda não foi explicado: ele ensina, pelo exemplo, que o inominável pode ser frequentado sem custo — e é assim que a degradação ética se instala, um jantar de cada vez. Há uma diferença decisiva entre escutar para questionar e receber sem interpelar — a primeira pode cumprir a peneira da verdade; a segunda corre o risco de emprestar credibilidade à evasão. É quando essas perguntas se encontram que a peneira deixa de ser um ornamento moral e se torna instrumento de responsabilidade.


Popper: proteger a conversa sem santificar o silêncio


Karl Popper, em A Sociedade Aberta e seus Inimigos, oferece um critério mais fecundo do que a mera popularidade de uma ideia. O paradoxo da tolerância nasce de um problema preciso: se a tolerância não puder se defender de quem pretende destruí-la, pode desaparecer. Mas a frase frequentemente citada perde seu centro quando se omite a ressalva que vem junto. Popper considera imprudente suprimir doutrinas intolerantes enquanto for possível enfrentá-las com argumentos racionais e contê-las pela opinião pública; pede que se conserve a possibilidade de resistência apenas quando seus defensores recusam o argumento e ensinam seus seguidores a responder com punhos ou pistolas.


Não se trata, portanto, de autorização para chamar de intolerante qualquer adversário eloquente ou desagradável — esse atalho dispensaria precisamente o exame que Popper procura preservar. Tampouco basta repetir “deixemos todos falar” quando a fala se organiza como ameaça para retirar de outros a possibilidade de falar e viver. A questão é distinguir a opinião detestável, que deve poder ser contestada, da intimidação e da incitação que atacam as condições do próprio debate. O julgamento da mídia em Ruanda ajuda a perceber o custo dos dois erros: punir toda referência a diferenças coletivas seria injusto; deixar a convocação à violência abrigar-se indefinidamente sob o nome de opinião seria outra injustiça. A resposta proporcional começa antes da proibição: contradizer, documentar, oferecer proteção a quem é visado, responsabilizar atos. Não pressupõe, porém, que o direito de discutir obrigue alguém a assistir em silêncio à destruição das condições da discussão. A peneira, aqui, muda de escala. Já não filtra só o que eu diria a um amigo, mas aquilo que uma comunidade precisa ser capaz de dizer a si mesma: divergiremos; não entregaremos a ninguém o poder de eliminar os divergentes.


O jantar, a urna e a resposta que já foi dada


É nessa fronteira que a epígrafe de João Moreira Salles deixa de soar como advertência abstrata. Em “O que esses brasileiros sabem”, publicado pela piauí, ele distingue os que querem acreditar em uma versão dos fatos daqueles que estão bem informados e, apesar disso, parecem desconsiderar as razões para duvidar. Seu alvo não é quem acredita por fé, sem querer ou ter tempo para compreender; são pessoas capazes de entender o que está em jogo e de medir as consequências de suas escolhas — e que, ainda assim, escolhem.


Salles escolhe um episódio concreto e incômodo. O banqueiro Marcelo Kayath, que ofereceu jantares a Lula durante a campanha de 2022, passou a receber Flávio Bolsonaro e a facilitar encontros dele com integrantes do mercado financeiro. O autor reconhece como legítima a preocupação de Kayath com as contas públicas e registra que ele se mantém crítico de Jair Bolsonaro. Não diz simplesmente que uma conversa equivale a um endosso formal, nem que todos os presentes votarão no candidato. Pergunta, antes, por que o rigor aplicado ao risco econômico não se estende ao risco político, e pelo efeito legitimador que podem ter encontros promovidos por gente influente. E recorda a homenagem feita por Jair Bolsonaro ao coronel Brilhante Ustra em seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff, sustentando que a tortura não admite acomodação moral: diante de um projeto político que reivindica esse legado, não se dispensa a retratação antes de normalizar a convivência.


Eis onde o daimónion e o moscardo deixam de ser imagens antigas. O daimónion corresponde, por analogia, ao instante em que alguém hesita antes de conceder seu nome, seu prestígio ou sua complacência a um gesto. O moscardo corresponde à pergunta que outros podem legitimamente lhe dirigir. Entre ambos está a peneira: é ela que impede a crítica de virar insinuação. Ouvir a advertência privada sem submetê-la à prova pode gerar suspeita injusta; verificar tudo e jamais tomar posição pode gerar uma respeitabilidade vazia. O custo do silêncio, na cena de Salles, aparece justamente quando conhecer já não altera o comportamento.


Eis por que a eleição é mais do que uma contagem. O Tribunal Superior Eleitoral, em seu Glossário Eleitoral, oferece ao público um caminho para compreender a linguagem das instituições e dos processos eleitorais, e associa a legitimidade do voto à preservação do resultado e ao enfrentamento da desinformação. Em termos civilizatórios, votar é aceitar que o poder tenha prazo, que o adversário continue pertencendo à comunidade e que a próxima divergência ainda possa ocorrer sem violência. Não significa fingir que todas as propostas oferecem o mesmo risco a essas condições. A pergunta de Salles não pede que a dúvida desapareça. Pede o contrário: que as razões conhecidas para duvidar não sejam sacrificadas à conveniência. Tomar posição, nessa hora, pode começar por uma frase sem brilho: “Isto eu não normalizo”. Depois vêm o exame das provas, a discussão pública, o voto e o respeito ao direito de outros votarem.


O que deve atravessar a peneira


A peneira, o daimónion, o grilo e o moscardo diferem em momento, alcance e risco — e cada um, mal usado, inverte seu propósito: a peneira retém o que precisava ser dito; o daimónion, tomado como oráculo, dispensa a reflexão; o grilo se perde na consciência que preferimos abafar; o moscardo, sem compromisso com a verdade, vira ruído. A janela de Overton explica como os limites do aceitável se movem — e o perigo é que se movam para baixo, até que o que se evitava nomear se torne corriqueiro e a degradação se consuma antes que se perceba. Por isso ela funciona como instrumento de reflexão, não como argumento pronto: cabe a nós decidir em que direção a empurramos com cada palavra dita ou omitida. Sócrates mostra que provocar a cidade não exige ocupar a tribuna, e que a voz que o detém não o persuade a agir. Salles desloca o exame para uma cena em que gestos privados de pessoas influentes adquirem significado público. A tensão entre os dois casos é fecunda: escutar a própria reserva pode impedir uma cumplicidade, mas não torna toda reserva virtuosa. Há momentos em que a pergunta responsável precisa sair da intimidade e encontrar outras pessoas.


Talvez a coragem de não calar comece, paradoxalmente, por saber calar por um instante: não para fugir, mas para conferir a prova, reconhecer o aviso e escolher as palavras. Depois desse instante, o silêncio já não é necessariamente cautela — pode ser a forma que damos a uma resposta. Talvez a velha parábola precise de uma pergunta que as três não fazem, dirigida a quem segura a peneira: “O que meu silêncio ajudará a construir?” Não é uma licença para a crueldade. É um convite à precisão, ao cuidado e — quando ambos o exigem — à coragem. Algumas palavras rompem afetos porque mentem sobre as pessoas. Outras perturbam afetos para impedir que a mentira se torne o mundo em que elas terão de viver.


A resposta, escreve Salles, já foi dada. Resta-nos a parte mais difícil: não a de sabê-la, mas a de não desprezá-la — e a de agir como quem a conhece. O moscardo talvez não nos deixe em paz; é melhor assim. Uma sociedade que suporta sua picada ainda pode acordar.


Referências


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* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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