Publicado em: 8 de setembro de 2026
Como a acusação de golpe, repetida sem prova, esvazia a democracia que diz defender
Este ensaio nasce de um incômodo. Em colunas e artigos dos últimos dias, multiplicam-se as vozes que anunciam, com a segurança de quem fala de um fato consumado, que um golpe se prepara contra a ordem vigente — não pelas armas, mas por um consórcio de instituições e de interesses que teria se unido para manter o poder a qualquer custo. Não vou nomear essas vozes nem os veículos que as publicam; elas se reconhecerão. O que me interessa não é o autor, mas o gesto. E o gesto é o seguinte: a acusação de golpe, repetida sem prova, tornou-se o modo preferido de fazer política no Brasil. É sobre esse gesto que este texto se debruça.
O estopim imediato dispensa nomes — e talvez por isso sirva tão bem ao argumento. Nos primeiros dias de setembro, o país assistiu a um tribunal superior rachar em praça pública: um relatório policial, cujo sigilo um ministro retirou por decisão própria, expôs mensagens e encontros entre um colega de corte e um banqueiro preso; o colega, em vez de apresentar defesa, retaliou no inquérito excepcional que ele mesmo comanda; o presidente do tribunal interveio, tirou a disputa daquele inquérito e deu prazo para que todos os envolvidos se expliquem. É uma crise real, grave, e que merece apuração até o fim — independentemente de quem tenha razão. O que não se segue daí — e é precisamente o salto que alguns articulistas deram — é que ela prove um golpe em curso, urdido nas entranhas do próprio Estado para impedir a alternância de poder.
Nada envelhece mais rápido, em política, do que uma palavra que se repete até o esvaziamento. Houve um tempo em que “golpe” era um termo de peso, pronunciado com a gravidade de quem sabe que fala de algo irreversível — a ruptura da ordem, a tomada do poder pela força, o fim de uma legalidade. Era uma palavra que se guardava para os momentos em que a República de fato pendia sobre o abismo e que, por isso mesmo, ainda tinha o poder de mobilizar.
Era. Hoje, “golpe” é moeda corrente, gasta e reluzente como uma moeda falsa. Usa-se para descrever uma disputa de relatorias num tribunal superior, um pedido de impeachment, uma investigação policial, um documento anônimo, um timing processual que parece suspeito. Quando uma palavra passa a designar tudo, deixa de designar qualquer coisa. E aí começa o problema real: não é a democracia que se defende ao gritar “golpe” a cada divergência institucional — é a própria capacidade de reconhecer uma ameaça verdadeira que se atrofia, aos poucos, até não restar nada além do reflexo condicionado de quem aprendeu a temer tudo.
O que esse discurso faz, no fundo, é o contrário do que anuncia. Apresenta-se como sentinela da democracia, mas ensina o eleitor a desconfiar de todas as instituições ao mesmo tempo — do Judiciário, da polícia, do Ministério Público, do Parlamento, da imprensa. O resultado não é um cidadão mais vigilante; é um cidadão que conclui que nenhuma instituição é confiável e que, portanto, a única verdade possível é a tese do autor. Isso não é ceticismo saudável. É a receita clássica do autoritarismo que se disfarça de desconfiança legítima.
O método da trama
Todo discurso conspiratório obedece a um mesmo padrão, reconhecível à distância. Não apresenta evidências — apresenta inferências de intenção oculta. “Se o documento foi redigido tão rápido, é porque já se sabia do golpe.” “Se não há autorização, é porque houve trama.” “Se o documento é anônimo, é porque é um documento político vazado.” A lógica é sempre a mesma: o fato em si é irrelevante; o que importa é a trama invisível que o teria produzido.
Esse método é imune à refutação. Não importa quantas explicações alternativas existam para um timing, um documento ou uma decisão processual — o conspiratório já tem a resposta pronta: “é exatamente o que eles querem que você pense”. É um argumento que se fecha sobre si mesmo, que não pode ser testado, que não aceita o contraditório. E é precisamente por isso que é leviano: dispensa o trabalho árduo da verificação em favor do conforto da certeza.
Há, no entanto, um detalhe que o método conspiratório nunca percebe em si mesmo: acusa o adversário de usar exatamente a mesma retórica. Diz que o outro lado vê “golpe de Estado” em qualquer possibilidade de derrota eleitoral e chama isso de delírio. E, no parágrafo seguinte, faz a mesma coisa em sentido inverso — vê armação golpista em qualquer reação institucional ao projeto que defende. A acusação de conspiração é, ela mesma, a conspiração que se repete. O discurso não condena o método; condena apenas o alvo. Troca os vilões, mantém a estrutura.
O que os pensadores da democracia já tinham visto
Não somos os primeiros a viver esse espetáculo, e não é um pouco de erudição que nos salvará — mas é um pouco de erudição que nos permite nomeá-lo. Dois pensadores, em particular, dedicaram a vida a desmontar exatamente esse tipo de retórica.
Hannah Arendt, que conheceu de perto o que o totalitarismo faz com a linguagem, escreveu que a propaganda totalitária não precisa ser verdadeira nem mesmo plausível — basta-lhe a coerência interna e a repetição ininterrupta. Ela se indignava com a transformação da política em um teatro de certezas absolutas, onde a realidade é substituída por uma “lógica de ideias” que se fecha sobre si mesma e repele qualquer fato que a contrarie. Sabia que o primeiro passo do autoritarismo não é a violência — é a destruição da capacidade de distinguir fato de ficção. E é precisamente isso que o discurso conspiratório faz: não disputa os fatos, dissolve-os.
Alexis de Tocqueville, o grande cronista da democracia americana, temia outra coisa: a tirania da maioria e o conformismo do pensamento. Em A Democracia na América, advertiu que a liberdade não se sustenta no clamor — sustenta-se na capacidade de cada cidadão de julgar com serenidade. E essa serenidade é a primeira vítima de quem transforma toda divergência em conspiração. Tocqueville via na retórica exaltada o sintoma de uma democracia que confunde paixão com razão, grito com argumento, espetáculo com deliberação. E deixou uma sentença que se aplica com precisão cirúrgica ao nosso caso: “O homem que pede da liberdade qualquer coisa que não seja ela mesma, nasceu para ser um escravo.” A frase é um espelho cruel para quem está disposto a sacrificar a serenidade do julgamento — e com ela a liberdade — em troca do conforto de uma certeza conspiratória.
Ambos, cada um à sua maneira, alertam para a mesma coisa: o histrionismo não é um excesso inofensivo da democracia — é o seu câncer silencioso. A democracia não cai de uma vez, como uma árvore derrubada pelo machado. Ela se dissolve — gota a gota, grito a grito, acusação a acusação — até que ninguém mais se lembre do que era ouvir.
A lição que Buchanan nos deixou
Há, porém, uma terceira lente que ilumina esse espetáculo de um ângulo que os outros dois não alcançaram — porque não se ocupa da parte de cima do palco, mas da engrenagem que move os atores. James Buchanan, o fundador da escola da Public Choice, dedicou a vida a desmontar uma ilusão que ainda hoje sustenta boa parte do discurso político: a de que há homens bons e homens maus, e que basta identificar os maus para salvar a democracia.
Buchanan partia de uma premissa desconfortável: os que governam não são melhores do que os governados. Políticos, burocratas, juízes e procuradores — todos respondem aos mesmos incentivos que qualquer outro ser humano: o poder, o prestígio, a sobrevivência no cargo. A Public Choice não é um chamado ao cinismo; é um chamado à humildade institucional. Se ninguém é anjo, então nenhuma instituição pode ser entregue a alguém sem freios — e a democracia não se defende confiando em pessoas, mas desenhando regras que funcionem mesmo quando as pessoas são falhas.
E é exatamente aqui que o discurso conspiratório trai a si mesmo. Pois vejamos o que ele faz, à luz de Buchanan.
O discurso que acusa de golpe não pede mais regras — pede mais poder discricionário para si mesmo. Não diz “reformemos as instituições para que ninguém possa abusar”; diz “as instituições estão todas corrompidas, exceto a minha tese”. Não propõe freios; propõe a substituição de quem segura as rédeas. E é aí que a Public Choice revela o embaraço definitivo: aquele que denuncia o arbítrio alheio está, no fundo, disputando o direito de exercer o próprio arbítrio.
Buchanan chamava a isso de “política sem romance” — a recusa em confiar em qualquer governante, ainda que se apresente como déspota benevolente. O discurso conspiratório é a versão eleitoral dessa recusa: não quer limitar o poder; quer transferi-lo. Quando acusa o tribunal de golpista, não pede que o tribunal seja mais transparente — pede que seja ocupado por quem pensa como ele. Quando acusa a imprensa de comprada, não pede mais pluralidade — pede que publique a sua versão. Quando acusa a polícia de facciosa, não pede mais controle externo — pede que a investigação sirva à sua causa.
E aqui está o insight que Buchanan nos lega, e que o discurso conspiratório jamais enfrenta: a denúncia de conspiração é, ela mesma, uma forma de exercício de poder. Quem acusa de golpe não está apenas descrevendo o mundo; está tentando moldá-lo. Pede que o eleitor desconfie de todas as instituições — para que a única fonte de verdade seja a sua própria tese. E isso, em termos de Public Choice, não é defesa da democracia; é a captura da democracia por uma facção que se recusa a aceitar as regras do jogo.
A lição de Buchanan é dura, mas necessária: a democracia não se sustenta na virtude dos que acusam, mas na robustez das regras que sobrevivem à acusação. Quando a acusação se torna o próprio método — quando o grito de “golpe” substitui o argumento, a trama substitui a prova, a desconfiança substitui a deliberação —, o que se perde não é apenas a confiança nas instituições. Perde-se a própria ideia de que regras podem conter o poder. E sem essa ideia, não há democracia — há apenas a guerra de todos contra todos, onde cada facção tenta impor a sua verdade pela força da acusação.
A desconfiança como empobrecimento
Há um segundo dano, mais silencioso e talvez mais duradouro: a generalização da desconfiança. O discurso não critica uma decisão específica de um tribunal, uma conduta específica de um órgão de investigação, um ato específico do Parlamento. Rotula instituições inteiras — “a banda podre”, “as facções”, “a imprensa comprada” — como participantes de um golpe. Isso é a negação da possibilidade de que exista mediação institucional legítima.
O que se perde aqui é a capacidade de distinguir. Uma crítica responsável diria: “esta decisão foi problemática”, “este documento levanta questões”, “esta conduta merece investigação”. Uma crítica conspiratória diz: “tudo isso é um golpe arquitetado”. A primeira fortalece a fiscalização, porque aponta um problema concreto e exige uma resposta concreta. A segunda a destrói, porque torna qualquer resposta irrelevante — afinal, o que pode responder uma instituição acusada de participar de uma trama?
É a diferença entre o jornalista que cobra transparência e o panfletário que decreta a culpa. O primeiro contribui para a democracia. O segundo, para a sua ruína.
O espelho
Há ainda um aspecto que esse discurso ignora por completo: o seu próprio efeito sobre a polarização. Apresenta-se como um denunciante corajoso, um homem só contra o consórcio. Mas, ao adotar a retórica da acusação totalizante, reforça o ciclo que diz combater.
Pense no mecanismo. Um lado grita “há golpe”. O outro responde “há golpe”. Cada lado se convence da má-fé do outro. Cada lado se fecha na sua bolha, consumindo apenas as narrativas que confirmam a sua tese.
A história recente brasileira é um catálogo desse espelhamento. Quando um processo de impeachment atingiu um governo de centro-esquerda, em 2016, parte significativa do campo atingido passou a chamar o episódio de “golpe” — e o fez com a mesma convicção com que, anos depois, o campo oposto qualificaria outros episódios com a mesma palavra. Não importa, aqui, julgar se cada uso era ou não legítimo; importa observar o gesto. A palavra “golpe” tornou-se, nos dois lados, a primeira e a última instância do argumento: a que dispensa a prova, porque já carrega a condenação.
O mesmo gesto se repetiu em torno dos acontecimentos de janeiro de 2023, quando uma multidão invadiu as sedes dos três poderes em Brasília. Houve quem visse ali a consumação de um golpe; houve quem refutasse o uso do termo, argumentando que faltava ao episódio o elemento que define o golpe de Estado — a tomada do poder, a ruptura da ordem constitucional, a permanência no comando. O debate é legítimo e necessário. Mas o que ele revela, mais uma vez, é a elasticidade da palavra: cada lado a estica até que ela sirva à sua narrativa, e a estica tanto que, no fim, ela já não descreve um fato — descreve uma acusação.
O debate público se transforma, assim, em um campo de batalha de monólogos paralelos, onde ninguém escuta ninguém, onde a complexidade é um problema a ser eliminado, onde a nuance é traição. E a democracia — que depende justamente da capacidade de ouvir, negociar e aceitar a derrota — é a primeira vítima.
O discurso não piora a polarização por acidente. Aplica-a como método. A acusação é um instrumento de poder: quem acusa de golpe não precisa argumentar, não precisa ser refutado, não precisa ceder. Basta manter a acusação no ar, repeti-la, amplificá-la. E é isso que a peça faz, com a disciplina de quem sabe exatamente o que está fazendo.
O pastor e o lobo
Há uma fábula antiga que todos conhecem e que ninguém parece ter levado a sério. Um pastor, entediado na colina, grita “Lobo! Lobo!” para ver os aldeões correrem em seu socorro. Grita uma vez, duas, três — e não há lobo algum. Os aldeões se cansam do alarme falso. Até que, um dia, o lobo aparece de verdade. O pastor grita com toda a força dos pulmões, mas ninguém vem. A ovelha é devorada, e a fábula termina com uma lição que atravessa os séculos: ninguém acredita no mentiroso, nem quando ele diz a verdade.
A parábola se aplica ao nosso tempo com uma exatidão que assusta. Troque o lobo por “golpe”, e o pastor por todos aqueles que, de um lado e de outro, gritam a palavra sem que haja perigo real. De tanto repetirem “Golpe! Golpe!” a cada disputa de relatoria, a cada investigação, a cada decisão desfavorável, eles fazem com a palavra exatamente o que o pastor fez com o alarme: esvaziam-na. E quando a ameaça verdadeira surgir — quando houver, de fato, um golpe em gestação —, o grito encontrará ouvidos surdos, porque já foi gasto em vão tantas vezes.
O drama da fábula não está no lobo. Está na credibilidade. O lobo só é perigoso se alguém acreditar no aviso; o aviso só é eficaz se não tiver sido desperdiçado. Ao banalizar o alarme, o pastor não protegeu o rebanho — desarmou-o. E é exatamente isso que a retórica do golpe faz com a democracia: não a protege, desarma-a. Ensina o eleitor a não acreditar em nenhum aviso, porque todos os avisos soaram falsos. E um povo que não acredita em nenhum alarme é um povo indefeso diante do perigo real — e, ao mesmo tempo, um povo que não distingue mais o perigo real do imaginário.

O fato que confirma a tese
Se alguém ainda duvida que esse fenômeno é real, e não apenas uma abstração de ensaísta, basta olhar para o que aconteceu no Brasil depois de 2022. A acusação de fraude nas urnas eletrônicas — repetida à exaustão, sem que nenhuma evidência concreta jamais fosse apresentada — não morreu com a derrota eleitoral. Instalou-se na cabeça de uma parcela considerável do eleitorado.
Em 2024, uma pesquisa Genial/Quaest revelou o resultado silencioso desse esforço: 35% dos brasileiros acreditavam, sem provas, que as urnas haviam sido fraudadas nas eleições de 2022. Mais de um terço do país — dezenas de milhões de pessoas — passou a desconfiar do próprio instrumento que o governa, não porque viu alguma evidência, mas porque ouviu a acusação repetida até a exaustão.
A desconfiança não estagnou: cresceu. Em fevereiro de 2026, a mesma Genial/Quaest registrou que 43% dos brasileiros dizem não confiar nas urnas eletrônicas — enquanto o Tribunal Superior Eleitoral, desde 1996, nunca teve comprovada uma única fraude no funcionamento do voto eletrônico. A distância entre o fato e a crença é a medida exata do dano: não é a urna que falhou, é a confiança que foi corroída. O pastor gritou “Lobo!” tantas vezes que uma parte do rebanho passou a acreditar no lobo mesmo quando ele não existe — e a desacreditar do próprio instrumento que o protege.
Essa é a demonstração empírica da tese de Arendt. A propaganda não precisa ser verdadeira; precisa ser seriada, repetida, ininterrupta. E quando o que a sustenta é apenas a coerência interna da própria narrativa — “é exatamente o que eles querem que você pense” —, o fato se dissolve e a ficção assume o seu lugar. A democracia brasileira não caiu. Mas uma parte dela — a confiança no voto — foi corroída por dentro, não por um acusador com provas, mas por uma acusação sem elas.
O mesmo mecanismo, em escala global, apareceu nos Estados Unidos em 2020, quando a alegação de fraude eleitoral — desmentida por órgãos eleitorais, pelo Departamento de Justiça e por dezenas de decisões judiciais — mobilizou uma multidão contra a legitimidade do voto. Não importa o lado: o mecanismo é o mesmo. Aquele que perde a eleição e decreta que a eleição foi roubada não está defendendo a democracia; está negando o seu resultado, e com isso ensinando seus seguidores a desconfiar do próprio instrumento que os governa.
O que une esses exemplos é a estrutura, não a ideologia. Em todos eles, a mesma estrutura de três atos: anunciar a catástrofe, nomear o consórcio, pedir a mobilização. Em todos eles, a mesma recusa ao contraditório. Em todos eles, o mesmo esvaziamento da palavra que deveria ser sagrada. E em todos eles, o mesmo resultado: a democracia sai menos capaz de ser defendida, porque a palavra “golpe” já não assusta ninguém — já é apenas mais um grito no coro.
O embaraço
E aqui, os pregadores de ato e ação se deparam com um problema que nunca enfrentam: o embaraço de aplicar a si mesmos a medida que aplicam aos outros.
Pois vejamos. O discurso que acusa de golpe exige, para ser levado a sério, exatamente aquilo que ele próprio se recusa a oferecer: prova, contraditório, serenidade. Pede que desconfiemos das instituições uma a uma — mas exige que acreditemos nele sem reservas. Condena a “imprensa comprada” — mas não submete a própria tese ao mesmo escrutínio que exige dos outros. Denuncia a “manipulação” — e manipula, ao selecionar os fatos que confirmam a trama e descartar os que a contradizem.
O embaraço é este: o pregador de ato e ação, quando cobrado a agir, não age — repete. Quando cobrado a provar, não prova — acusa. Quando cobrado a ouvir, não ouve — grita. Torna-se, sem perceber, a própria caricatura que desenha: aquele que vê golpe em tudo porque não teme nada além de perder. Aquele que, no fundo, não defende a democracia — defende a sua vitória, e a chama de democracia.
E é aí que a medida do próprio Buchanan se volta contra ele. Porque, se é verdade — como ele afirma — que “qualquer golpe precisa ser arquitetado com antecedência, cooptando e corrompendo aliados”, então a pergunta que se impõe é: quem, nesse exato momento, está fazendo exatamente isso? Quem está nomeando um consórcio de inimigos? Quem está pedindo que desconfiemos das instituições? Quem está transformando a divergência em trama? A resposta, se ele tiver coragem de olhar no espelho, é ele mesmo. A acusação de golpe, aplicada com honestidade, aponta para o acusador.
O palco e a sua responsabilidade
Chego, então, à questão que me parece central e que o discurso nunca enfrenta: que tipo de esfera pública queremos construir? A governança política não é apenas o conjunto de instituições formais — é também o conjunto de discursos que circulam no espaço público. Esse espaço não é neutro. É um palco, e todo palco tem responsabilidade sobre o que encena.
Quando o palco público é ocupado por peças que acusam de golpe sem prova, que desqualificam instituições inteiras, que fazem da divergência um atestado de culpa, o que se eleva não é a qualidade do debate — é o seu nível de ruído. E o ruído, ao contrário do que pensam seus produtores, não é sinal de vitalidade democrática. É sinal de que a democracia está sendo substituída por um espetáculo de acusações mútuas, onde o objetivo não é convencer, mas aniquilar.
A pergunta que o discurso não faz — e que todo cidadão deveria fazer — é: o que sobra da democracia quando todas as instituições são desacreditadas? Se o Judiciário é golpista, se a polícia é facciosa, se o Parlamento é cúmplice, se a imprensa é comprada, então não resta nenhuma instância de mediação. E sem mediação, não há democracia — há apenas o confronto direto entre facções, que se resolve não pelo voto, mas pela força. O discurso que se diz defensor da democracia está, na verdade, preparando o terreno para a sua ausência.
A estridente banalidade
A voz dessa peça é estridente. Mas a estridente banalidade é uma contradição em termos: o que é estridente não é banal, e o que é banal não precisa gritar. O discurso grita porque não tem argumento — tem acusação. E a acusação, quando não vem acompanhada de prova, é apenas ruído disfarçado de coragem.
A verdadeira coragem democrática não está em acusar de golpe a cada divergência. Está em sustentar uma crítica com evidência, em aceitar o contraditório, em distinguir o erro do crime, a divergência da trama, a instituição imperfeita da instituição golpista. Está em recusar o conforto da certeza conspiratória em favor do trabalho árduo da verificação.
O discurso que me motiva a escrever não faz nada disso. Faz o oposto: esvazia a palavra golpe, desqualifica todas as instituições, aplica a polarização como método e, no fim, pede que o leitor desconfie de tudo menos da sua própria tese. Isso não é defesa da democracia. É a sua degradação em tempo real — e a forma mais eficaz de degradá-la não é com a força, mas com a retórica que ensina todos a desconfiar de tudo.
A democracia não morre, em geral, por um golpe espetacular. Morre aos poucos, de tédio retórico, de acusação sem prova, de desconfiança generalizada, de um mundo onde ninguém escuta ninguém porque todos estão convencidos de que todos mentem. E o triste é que os que mais gritam “golpe” são os que mais contribuem para essa morte — convencidos de que estão salvando o que, na verdade, estão matando.
Pois, como bem sabia o velho Tocqueville, a liberdade não se perde num dia de fúria — perde-se em mil dias de gritos que ninguém ouve. Como bem sabia Arendt, o primeiro a morrer numa tirania não é o dissidente — é a verdade. E como bem sabia Buchanan, o último a morrer numa democracia não é o poder — é a confiança nas regras. E quem a mata, muitas vezes, é aquele que jura defendê-la — convencido de que, ao desconfiar de tudo, está salvando o que, na verdade, está destruindo.
Referências:
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. 7. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011. (Inclui o ensaio “Verdade e política”.)
BUCHANAN, James M.; TULLOCK, Gordon. The calculus of consent: logical foundations of constitutional democracy. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1962.
BUCHANAN, James M. Os limites da liberdade: entre anarquia e Leviatã. Tradução de Luiz Antônio Pedroso Rafael. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1993.
LOBATO, Monteiro. Fábulas. 22. ed. São Paulo: Brasiliense, 2008.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América: sentimentos e opiniões. Tradução de Eduardo Brandão. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
QUAEST. Pesquisa Genial/Quaest: confiança nas urnas eletrônicas. São Paulo, fev. 2026. Disponível em: https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/02/15/genialquaest-43-pontos-percentuais-afirmam-desconfiar-das-urnas-eletronicas.ghtml. Acesso em: 7 set. 2026.
Foto em destaque: A Torre de Babel. Pieter Bruegel, o Velho, 1563, óleo sobre painel de carvalho, Museu de História da Arte, Viena.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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