Publicado em: 21 de julho de 2026
Depois de uma temporada repetitiva de produções comerciais no circuito alternativo, eis que surge a recriação cinematográfica de “A Odisseia”, da obra literária de Homero para adaptação cinematográfica sob a direção de Christopher Nolan. E se tratando do cinema de Nolan, tudo é grandioso no sentido de cinema espetáculo que recria e abre novas interpretações para uma obra canônica da literatura mundial.
Condensar, acrescer e excluir partes do material original é parte do jogo das adaptações e interfaces da produção cinematográfica com o momento presente, pois adaptações são escolhas sempre arriscadas na indústria do entretenimento audiovisual. Em “A Odisseia”, Nolan proporciona outras pistas sobre a visão do massacre humano gerado pela guerra, vaidade, disputas de poder e a prepotência humana diante dos desígnios dos deuses, no caso, a mitologia grega e seu legado para as artes ocidentais.

O avanço das manifestações políticas de postura extremista, em escala nacional e internacional, já declarou guerra cultural à produção artística na tentativa (infelizmente, bem sucedida em setores anacrônicos) que funciona como uma cortina de fumaça para a falta de projetos políticos, sociais e econômicos. No caso do lançamento de “A Odisseia”, essa constatação vem da promoção de discussões vazias e ataques ao filme, mais propriamente ao elenco, com afetações de ódio, racismo e transfobia dentro e fora das redes sociais, espaço fértil para o sectarismo delirante devidamente estruturado.
A obra literária, como espaço mítico, possibilita releituras das mais diferentes formas e adaptações em vários formatos, dispositivos e suportes do fazer artístico. E é no ambiente superestrutural da produção hollywoodiana que eventualmente nos deparamos com filmes que subvertem a lógica cartesiana conformista que marca predominantemente a exibição ditada pelas grandes plataformas de streaming, distribuidoras e redes de exibição fílmica na América Latina.

Além da realização de grandes cenas de batalha, enquadramentos e sequências primorosas sobre os desafios enfrentados por Odisseu (Matt Damon) e seu exército de soldados guerreiros, “A Odisseia” é cinemão 2026, com destaque para escalação multirracial e presença da diversidade, dois pontos altos a garantir o brilho de atores coadjuvantes em seu tempo de tela, como Himesh Patel (Euríloco), John Leguizamo (Eumeu), Lupita Nyongo (Helena de Troia e Clitemnestra) e Robert Pattinson (Antínoo). O processo de criação de Circe, a feiticeira, capaz de transformar homens em suínos, é uma das melhores interpretações no cinema da atriz Samanta Morton, assim como o personagem Sinon (Eliot Page) no reino terreno e no reino dos mortos.
Lamentavelmente, a tecnologia de alta definição das câmeras e projetores IMAX, com poucas salas equipadas no Brasil, ainda não foi implantada no circuito local, o que não prejudica por inteiro a fruição de um dos maiores épicos já feitos na História do Cinema.
Observem o esmero da direção de fotografia de Hoyte Van Hoytema e a trilha sonora original de Ludwig Göransson nessa tragédia grega sobre a interferência mitológica no mundo humano de guerras e desejos. É cinema de aventura na embarcação embriagada ao mar e desventura no chão da terra nas sequências de embate com o monstro Cila, o ciclope Polifemo, o cavalo de Troia, o canto das sereias, o ataque dos gigantes canibais, a visita à ilha de Circe e as revelações no Reino de Hades.

Ao final, o excesso de didatismo palavroso, como moral da história, quase compromete o resultado final da versão de Nolan para o clássico literário de Homero. E o que fica é a certeza de ter assistido um dos melhores filmes da temporada 2026.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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