Publicado em: 8 de agosto de 2026
A história da literatura brasileira dificilmente pode ser narrada sem a presença de Monteiro Lobato. Seu nome tornou-se sinônimo de literatura infantil, de incentivo à leitura e da criação de um universo ficcional que atravessou gerações. O Sítio do Picapau Amarelo permanece como uma das obras mais influentes da Literatura Infantil brasileira, transformado em livros, programas de rádio, televisão e adaptações para diferentes linguagens. Entretanto, a permanência de um escritor no cânone não elimina a necessidade da crítica. Pelo contrário. Quanto maior sua importância histórica, maior deve ser o rigor com que sua produção é analisada. Ler Lobato hoje significa também confrontar aspectos de sua obra e de seu pensamento que revelam uma profunda adesão às teorias raciais em circulação nas primeiras décadas do século XX.
Monteiro Lobato escreveu em um momento histórico marcado pela difusão do chamado racismo científico. Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, intelectuais europeus e americanos difundiram a falsa ideia de que existiriam raças biologicamente superiores e inferiores. Essas teorias, hoje completamente desacreditadas pela ciência, encontraram espaço em diversos países, inclusive no Brasil. Médicos, juristas, educadores e escritores discutiam o futuro da nação sob a perspectiva da “melhoria racial”, acreditando que o progresso estaria ligado ao embranquecimento da população. Lobato não foi apenas um homem de seu tempo. Em diversos escritos, cartas e obras literárias, aderiu conscientemente a essas ideias e as defendeu de maneira explícita.
Nesse contexto, surge um dos conceitos mais controversos associados ao escritor: a eugenia. A palavra foi criada pelo cientista britânico Francis Galton, em 1883, para designar um conjunto de práticas destinadas a “melhorar” geneticamente a humanidade. Na prática, a eugenia defendia o estímulo à reprodução daqueles considerados superiores e a restrição da reprodução dos grupos classificados como inferiores. Em vários países, essas ideias serviram para justificar esterilizações forçadas, segregação racial e políticas que mais tarde alcançariam sua expressão extrema no regime nazista. Embora a eugenia tenha sido apresentada como ciência, hoje ela é reconhecida como uma ideologia pseudocientífica baseada no racismo e na exclusão.
Salvo informações, Monteiro Lobato manifestou simpatia por essas concepções em diferentes momentos de sua trajetória intelectual. Sua correspondência revela admiração por autores e defensores das teorias eugenistas, enquanto diversos de seus textos reproduzem a crença na superioridade da população branca e no embranquecimento como caminho para o desenvolvimento nacional. Esse posicionamento extrapola opiniões privadas e encontra expressão direta em sua literatura, tornando impossível separar completamente o autor de determinadas escolhas presentes em suas obras.
Poucos livros revelam esse pensamento de forma tão evidente quanto O Presidente Negro ou O Choque das Raças, publicado inicialmente em folhetins em 1926 e lançado em livro no mesmo ano. Trata-se de uma narrativa de ficção científica ambientada nos Estados Unidos do futuro, em uma sociedade tecnologicamente avançada, mas profundamente marcada pela disputa racial. A eleição de um presidente negro desencadeia conflitos políticos e sociais que conduzem a um desfecho perturbador.
Na trama, o personagem Jim Roy torna-se presidente dos Estados Unidos após a divisão do eleitorado branco. O romance apresenta o crescimento político da população negra como uma ameaça à ordem social. O conflito é solucionado por uma política que provoca a esterilização em massa da população negra, conduzindo ao desaparecimento desse grupo. O livro trata essa solução como uma forma de restaurar o equilíbrio nacional. Sob a perspectiva contemporânea, esse enredo não pode ser interpretado apenas como uma fantasia futurista. Trata-se da elaboração literária de um imaginário racial profundamente comprometido com pressupostos eugenistas.
A história editorial desse romance também é significativa. Monteiro Lobato acreditava que O Presidente Negro poderia conquistar o mercado norte-americano e empenhou esforços para publicá-lo nos Estados Unidos. O projeto, entretanto, fracassou. Diversos estudiosos registram que editoras norte-americanas recusaram a publicação da obra, considerando extremamente delicado seu conteúdo racial em um país cuja história já era profundamente marcada pela segregação e pelos conflitos entre brancos e negros. Embora existam diferentes relatos sobre os motivos específicos da recusa, o consenso historiográfico aponta que a temática racial representou um obstáculo decisivo para sua publicação naquele mercado.
Muito antes de o debate contemporâneo sobre racismo estrutural ganhar força, o romance já expunha um imaginário que associava o crescimento político da população negra à decadência da civilização. O problema não está apenas na representação negativa de personagens negros,está na construção de um projeto ficcional em que sua eliminação aparece como solução desejável. É justamente esse aspecto que torna O Presidente Negro uma das obras mais controversas da literatura brasileira.
Outro texto frequentemente citado pelos pesquisadores é A Barca de Gleyre. Diferentemente dos romances, trata-se de uma coletânea de cartas escritas por Monteiro Lobato a um amigo Godofredo Rangel. Publicadas postumamente, essas correspondências permitem conhecer com maior clareza o pensamento íntimo do escritor. Nelas aparecem diversas manifestações favoráveis ao embranquecimento da população, críticas dirigidas aos negros e elogios às teorias eugenistas então em circulação. Por não serem textos ficcionais, essas cartas possuem enorme relevância documental para compreender sua visão de mundo.
É justamente a leitura dessas correspondências que impede interpretações segundo as quais os elementos raciais presentes em sua literatura seriam apenas recursos narrativos sem relação com suas convicções pessoais. As cartas demonstram que determinadas representações encontradas em seus livros dialogavam diretamente com suas ideias sobre raça, progresso e civilização. A crítica literária contemporânea passou a considerar esse conjunto documental indispensável para compreender a dimensão ideológica de sua produção.
A literatura infantil de Lobato também passou a ser analisada sob essa perspectiva. Durante décadas, o Sítio do Picapau Amarelo foi apresentado como símbolo da imaginação, da aventura e da valorização da cultura brasileira. Contudo, leituras mais recentes identificaram passagens em que personagens negras são descritas por meio de estereótipos raciais que reproduzem preconceitos profundamente enraizados na sociedade brasileira.
Tia Nastácia ocupa posição central nesse debate. Retratada como excelente cozinheira, contadora de histórias e figura fundamental para o funcionamento do sítio, frequentemente é descrita por expressões depreciativas. Em Caçadas de Pedrinho, por exemplo, aparecem referências como “negra de estimação”, além de comparações em que a personagem é associada a animais, como quando seu comportamento é descrito de maneira semelhante ao de uma “macaca”. Essas expressões, embora consideradas comuns por determinados setores da sociedade brasileira nas primeiras décadas do século XX, reproduzem mecanismos históricos de desumanização da população negra.
Essas passagens provocaram intenso debate no início do século XXI. Em 2010, um parecer técnico do Conselho Nacional de Educação recomendou que a obra fosse utilizada nas escolas acompanhada de contextualização crítica, permitindo que professores discutissem historicamente o racismo presente no texto. Em diferentes momentos, versões do livro deixaram de integrar programas públicos de distribuição escolar sem notas explicativas, justamente porque a leitura descontextualizada poderia naturalizar estereótipos raciais. Não se tratou de uma proibição absoluta da obra. A ideia estaria na defesa de uma mediação pedagógica capaz de problematizar seus conteúdos.
As adaptações televisivas do Sítio também passaram por mudanças significativas. Expressões racistas presentes nas edições originais foram retiradas ou modificadas nas versões destinadas ao público contemporâneo. O debate desloca-se, assim, da censura para a responsabilidade educativa.
A crítica literária atual procura evitar dois extremos igualmente problemáticos. O primeiro consiste em transformar Monteiro Lobato em um herói intocável, ignorando seus escritos racistas e eugenistas. O segundo reduz toda sua contribuição literária exclusivamente ao preconceito racial. A historiografia literária demonstra que um autor pode ser simultaneamente inovador em determinados aspectos estéticos e profundamente comprometido com ideologias hoje consideradas inaceitáveis. Reconhecer essa complexidade não significa relativizar o racismo, mas compreender como ele se manifesta também por meio da literatura.
Essa constatação conduz a uma pergunta inevitável. Como o mesmo escritor capaz de criar personagens que despertaram o encantamento de milhões de crianças também pôde elaborar narrativas que defendiam a eliminação simbólica ou biológica de determinados grupos humanos? A resposta talvez esteja justamente na capacidade da literatura de revelar as contradições de seu tempo e de seus autores. Grandes escritores não são necessariamente grandes referências éticas. A qualidade estética de uma obra não absolve seus conteúdos ideológicos.
Ler Monteiro Lobato no século XXI exige abandonar tanto a veneração acrítica quanto o cancelamento simplificador. Sua produção deve permanecer acessível precisamente porque permite compreender como o racismo foi naturalizado por parte da intelectualidade brasileira. A escola e a universidade possuem a responsabilidade de oferecer instrumentos para que os estudantes identifiquem essas estruturas de pensamento, reconheçam seus efeitos históricos e desenvolvam uma leitura crítica dos clássicos nacionais.
Livros não existem fora da história. Eles carregam valores, escolhas, silêncios e preconceitos. Quando um clássico é lido criticamente, deixa de ser monumento para tornar-se documento. E documentos não pedem veneração; pedem interpretação.
É justamente essa leitura crítica que mantém viva a literatura. Para compreender que a permanência de uma obra depende da capacidade de cada geração formular novas perguntas. Monteiro Lobato permanece entre nós porque continua provocando inquietações. Entre a invenção de um imaginário infantil inesquecível e a defesa de ideias racialmente excludentes, sua obra desafia leitores, educadores e pesquisadores a refletirem sobre os limites da criação artística, sobre o peso das ideologias e sobre o compromisso da literatura com a dignidade humana.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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