Publicado em: 1 de agosto de 2026
Para Natividade Lima
Aproveito este momento em que a obra está sendo exibida nas salas cinematográficas para tecer alguns comentários sobre ela. O texto não é uma critica cinematografia, é um recurso para quem não leu a obra, possa ter uma percepção da profundidade do seu conteúdo. Peço licença ao professor José Guilherme Castro, profundo conhecedor do heroi na Literatura.
Antes de iniciar é imperativo compreender que “Odisséia”, é uma das obras fundadoras da literatura ocidental. Para além de uma narrativa sobre um herói que tenta regressar à sua terra natal, o poema apresenta uma profunda reflexão sobre a condição humana, o tempo, a memória, a inteligência, a hospitalidade, o poder, a família e o desejo permanente de encontrar um lugar ao qual se possa chamar de lar.
A Odisséia ao lado da Ilíada constitui o mais importante legado da poesia épica grega e permanece, após quase três milênios, como uma obra que continua a dialogar com leitores de diferentes culturas e épocas. Sua permanência se explica pelo valor histórico, por sua beleza poética e indubitavelmente, pela extraordinária capacidade de abordar questões universais da experiência humana. O desejo de regressar ao lar, a luta contra as adversidades, a força da inteligência diante da violência, a fidelidade, a memória, o tempo e a construção da identidade são temas que atravessam o poema e fazem dele uma narrativa permanentemente atual.
Embora a tradição apresente Homero como autor da Ilíada e da Odisseia, sua existência histórica permanece envolta em incertezas. Desde o século XVIII, estudiosos discutem a chamada “Questão Homérica”, procurando compreender se esses poemas foram compostos por um único poeta ou se representam a síntese de uma longa tradição oral desenvolvida por diversos cantores ao longo de gerações. As pesquisas demonstraram que os poemas apresentam características próprias da poesia oral, marcada por fórmulas repetitivas, epítetos fixos e estruturas narrativas que facilitavam a memorização durante as recitações públicas. Independentemente da solução para esse debate, a crítica contemporânea reconhece que Homero representa o ponto fulcral de uma tradição cultural que preservou, por meio da poesia, a memória da civilização grega.
A composição da “Odisseia” costuma ser situada entre os séculos VIII e VII antes de Cristo, período em que a Grécia consolidava o uso da escrita alfabética e organizava suas primeiras cidades após o colapso da civilização micênica. A narrativa, entretanto, remete a acontecimentos muito anteriores, localizados logo após a lendária Guerra de Troia. Esse afastamento temporal faz com que o poema reúna elementos históricos, míticos e culturais pertencentes a diferentes momentos da formação do mundo grego. Nele aparecem valores que estruturavam aquela sociedade, como a honra, a glória conquistada pelos feitos heroicos, o respeito aos deuses e, sobretudo, a hospitalidade, entendida como um dever sagrado.
Enquanto a Ilíada concentra sua atenção nos últimos dias da Guerra de Troia, a Odisseia volta-se para as consequências do conflito. Seu protagonista, Ulisses, ou Odysseus, rei de Ítaca, empreende uma longa viagem de retorno que se prolongam por dez anos. Ao final da guerra, os demais reis gregos iniciam o caminho para suas cidades, Ulisses passa a enfrentar uma sucessão de obstáculos que retardam sua chegada. Monstros, tempestades, ilhas encantadas, deuses contrariados e inúmeras provações transformam sua viagem em uma experiência de formação. Paralelamente, em Ítaca, sua esposa Penélope resiste à pressão dos pretendentes que desejam ocupar o trono, enquanto Telêmaco, filho do herói, amadurece na busca por notícias do pai. Essa estrutura narrativa, que alterna diferentes espaços e tempos, confere ao poema uma riqueza incomum e demonstra um domínio técnico admirável da composição literária.
Um dos aspectos mais fascinantes da Odisseia reside na construção de seu protagonista. Diferentemente de Aquiles, herói da Ilíada, cuja principal virtude é a força física, Ulisses distingue-se pela inteligência, pela prudência e pela capacidade de interpretar corretamente cada situação. Homero o chama de “o homem de muitos ardis”, expressão que sintetiza sua habilidade estratégica. Essa característica modifica profundamente o conceito de heroísmo presente na literatura grega. A vitória deixa de depender exclusivamente da força e passa a ser resultado da inteligência, da palavra e da capacidade de adaptação diante das circunstâncias.
Essa transformação aparece de maneira exemplar no célebre episódio do encontro entre Ulisses e o Ciclope Polifemo. Preso na caverna do gigante, o herói percebe rapidamente que nenhum combate direto seria capaz de libertá-lo. Em vez disso, utiliza a inteligência. Após embriagar Polifemo com vinho, apresenta-se dizendo: “Meu nome é Ninguém; Ninguém me chamam minha mãe, meu pai e todos os companheiros.” Mais tarde, quando cego o ciclope durante o sono, este grita desesperadamente por ajuda. Os demais ciclopes perguntam quem o atacou, e Polifemo responde que “Ninguém” lhe fazia mal. Convencidos de que não havia agressor algum, abandonam-no à própria sorte. Essa passagem tornou-se uma das cenas mais conhecidas da literatura universal porque demonstra que a linguagem pode tornar-se uma arma tão poderosa quanto qualquer espada. O episódio revela que o herói além de dominar seus adversários pela força, precisa compreender a complexidade das relações humanas e utiliza o pensamento como instrumento de sobrevivência.
Outro elemento fundamental da narrativa é a presença constante da hospitalidade. Em diversas ocasiões, Homero apresenta personagens que acolhem o estrangeiro antes mesmo de perguntar sua origem. Esse comportamento obedecia ao princípio da xenia, protegido por Zeus, segundo o qual todo viajante merecia respeito. Quando essa norma é violada, o poema evidencia as consequências morais dessa ruptura. Os pretendentes instalados na casa de Ulisses representam exatamente essa inversão dos valores. Eles ocupam sua residência, consomem suas riquezas e desrespeitam Penélope, convertendo a hospitalidade em abuso. O retorno de Ulisses, portanto, simboliza a recuperação do reino e a restauração da ordem ética rompida durante sua ausência.
Entre as personagens da narrativa, Penélope tem um lugar de extraordinária importância. Durante séculos foi celebrada, sobretudo, como exemplo de fidelidade conjugal. As leituras críticas contemporâneas, evidenciam uma personagem muito mais complexa. Sua famosa estratégia de tecer uma mortalha durante o dia e desfazê-la secretamente durante a noite constitui uma demonstração de inteligência comparável à do próprio Ulisses. Enquanto ele enfrenta monstros e tempestades, Penélope trava uma batalha silenciosa contra o tempo e contra as pressões políticas que ameaçam destruir sua família. Sua resistência transforma-se em uma forma de heroísmo cotidiano, sustentado pela paciência, pela astúcia e pela esperança.
Também merece destaque a trajetória de Telêmaco. No início do poema, ele aparece inseguro e incapaz de assumir a autoridade deixada pelo pai ausente. Aos poucos, entretanto, amadurece por meio da experiência e da convivência com outros reis gregos, realizando uma jornada de formação. Seu crescimento psicológico aproxima a Odisseia de muitos romances modernos, nos quais o protagonista constrói sua identidade ao longo da narrativa.
Os deuses desempenham papel decisivo na condução dos acontecimentos. Atena acompanha Ulisses e protege sua família, enquanto Poseidon dificulta seu retorno como forma de vingança pela cegueira infligida a Polifemo. É imperativo que os “deuses” ampliam os conflitos para acentuar a responsabilidade humana. Ulisses permanece livre para decidir, errar, aprender e reconstruir seu destino. Essa tensão entre destino e liberdade constitui uma das reflexões filosóficas profundas presentes na literatura antiga.
A viagem de Ulisses possui ainda um poderoso significado simbólico. A palavra grega nostos, que na literatura grega antiga significa o retorno de um herói à sua terra natal é utilizada para designar o retorno ao lar, ultrapassa seu sentido geográfico e converte-se em metáfora da própria existência. Em diversos momentos, o herói recebe ofertas que poderiam afastá-lo definitivamente de Ítaca. A mais significativa delas surge quando a ninfa Calipso lhe oferece a imortalidade. Apesar da promessa de juventude eterna, Ulisses recusa permanecer ao seu lado. Sua escolha demonstra que a condição humana, com todas as suas limitações, possui um valor superior à eternidade desprovida de memória, de pertencimento e de afetos. O desejo de regressar revela que a verdadeira riqueza do herói encontra-se em sua história, em sua família e em sua identidade.
Odisseia apresenta uma construção narrativa admirável. A utilização de epítetos como “Aurora de róseos dedos” e “Ulisses de muitos ardis”, as comparações extensas, a riqueza das descrições e a alternância entre ação e contemplação conferem ao poema uma musicalidade característica da tradição oral. Além disso, Homero organiza os acontecimentos de forma não linear, empregando retrospectivas e relatos dentro do próprio relato, recurso que influenciaria profundamente a narrativa ocidental. Essa sofisticação demonstra que a epopeia deve ser compreendida como uma realização artística de extraordinária complexidade.
Ao longo dos séculos, a influência da Odisseia tornou-se praticamente incomensurável. Virgílio dialoga com Homero na construção da Eneida. Dante Alighieri recria a figura de Ulisses na Divina Comédia. Luís de Camões recupera a tradição épica em Os Lusíadas.
Entre os estudiosos da literatura, a obra continua despertando interpretações diversas. Propondo que a narrativa homérica expõe todos os acontecimentos com extraordinária clareza, oferecendo ao leitor uma representação minuciosa do mundo.
Indubitavelmente Odisseia representa, sobretudo, a permanente busca do ser humano por compreender quem é, de onde veio, e qual é o verdadeiro sentido de sua caminhada.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




Comments